Cultura

Chilena Manuela Martelli mostra em Cannes retrato de ‘mulheres anônimas’ durante a ditadura

Chilena Manuela Martelli mostra em Cannes retrato de ‘mulheres anônimas’ durante a ditadura

Augusto Pinochet em 27 de agosto de 1988 em Santiago, Chile - AFP

A partir da lembrança de sua avó, a atriz Manuela Martelli decidiu contar os primeiros anos da ditadura de Pinochet no Chile do ponto de vista das “mulheres anônimas”, no filme “1976”, apresentado nesta quinta-feira (26) em Cannes.

Uma dessas “mulheres anônimas” poderia ser Carmen, a protagonista da narrativa, que é de uma família abastada. Enquanto supervisiona as obras de reforma de sua casa de praia, ela conhece um jovem abrigado em segredo na paróquia do povoado.


Já se passaram três anos desde o golpe de Estado de Augusto Pinochet, mas Carmen, mergulhada em seus afazeres domésticos, com seus filhos e netos, parece desconhecer a real situação do país sob a ditadura.

Para seu primeiro longa-metragem atrás das câmeras, Martelli, atriz com mais de 20 papéis no currículo – entre eles em “Machuca” (2004) e “Navidad” (2009) -, quis contar a história desses anos “a partir do ponto de vista de uma mulher anônima, de uma mulher ‘qualquer’”, afirma à AFP.

Pensando em sua avó materna, muito a frente de seu tempo, começou a se questionar sobre as “mulheres anônimas que não estavam nos livros de história, que sequer foram escutadas” naquela época.

O filme, exibido na mostra paralela Quinzena dos Realizadores, busca fazer “justiça com o lado que não teve voz, o lado que ficou dentro de casa”, reitera a cineasta de 39 anos.

– “Da cegueira à lucidez” –

Carmen, sempre bem vestida, está focada em sua família e na reforma de sua casa. Realiza também atividades de caridade na paróquia.

Ela leva uma vida bastante rotineira até que o padre local a pede ajuda com um jovem gravemente ferido que precisa de cuidados médicos. A protagonista então começa a se conscientizar sobre as atrocidades da ditadura e decide se mobilizar para ajudá-lo.

Inicialmente de forma meio irresponsável, mas logo a par do risco que corre, a mulher vai aprendendo os códigos para se aproximar dos opositores sem ser detectada pelos militares.

“Carmen começa a se abrir (…) ao que está acontecendo lá fora”, explica a diretora. “É a trajetória dela da cegueira à lucidez”, acrescenta.

Para encarnar essa mulher de poucas palavras, a cineasta sempre pensou na atriz Aline Küppenheim, pois ela transmite “esse mundo interno, a complexidade e a sensibilidade da personagem”.

Martelli não teve dúvidas quanto a estrear com um longa que toca em um tema tão crucial da história do Chile, pensando sobretudo nas novas gerações. O período de desenvolvimento do filme coincidiu, inclusive, com a revolta social no país em 2019.

Por um momento, a diretora pensou que retratar uma época tão sombria do Chile em contraposição a um “período tão luminoso” poderia ficar um pouco “obsoleto”. Porém, por fim, lhe pareceu “relevante recordar os tempos mais obscuros de nossa história para fazê-los presentes e não esquecê-los”.