O presidente do Chile, José Antonio Kast, enfrenta dificuldades econômicas nos primeiros sete meses de governo. Eleito com a promessa de reduzir o tamanho do Estado, diminuir impostos e estimular os investimentos privados, o mandatário chegou a outubro de 2026 diante de uma combinação de retração da atividade econômica, aumento do desemprego e críticas à política de austeridade fiscal.
No terceiro trimestre, a taxa de desemprego alcançou 9,6%, um aumento de um ponto percentual em relação ao mesmo período do ano anterior. A economia também apresentou resultados negativos: o Produto Interno Bruto (PIB) recuou 0,3%, depois de uma queda de 0,2% no segundo trimestre.
Diante do cenário, o governo anunciou, no fim de setembro, um programa de investimentos em infraestrutura e incentivos à contratação de trabalhadores. A iniciativa representa uma tentativa de estimular a atividade econômica em meio às dificuldades enfrentadas por setores estratégicos do país.
Governo anuncia investimentos para estimular empregos
O programa Chile Despega prevê recursos públicos destinados a obras de infraestrutura, subsídios para a criação de postos de trabalho e mecanismos de financiamento empresarial.
A iniciativa tem como objetivo gerar mais de 100 mil empregos e ampliar as oportunidades de contratação em um momento de desaceleração econômica.
Kast assumiu a Presidência em março de 2026 com uma agenda baseada na redução de despesas públicas e na diminuição da carga tributária sobre empresas.
Entre as promessas estava um ajuste equivalente a 3% dos gastos estatais, acompanhado de medidas para incentivar o investimento privado.
A estratégia, entretanto, passou a enfrentar dificuldades diante do enfraquecimento da economia chilena e do aumento dos custos de produção.
Combustíveis e mineração pressionam economia
Outro fator que contribuiu para a deterioração do cenário econômico foi a elevação dos preços internacionais dos combustíveis, influenciada pelos conflitos no Oriente Médio.
O governo chileno optou por não ampliar os mecanismos de contenção dos preços da gasolina e do diesel, argumentando que a intervenção provocaria despesas adicionais ao orçamento público.
A decisão contribuiu para o aumento dos custos de transporte e produção, com efeitos sobre os preços de bens e serviços.
Além disso, o Chile enfrenta dificuldades na mineração de cobre, uma das principais atividades econômicas do país.
Entre janeiro e agosto de 2026, a produção do minério ficou 8% abaixo do volume registrado no mesmo período do ano anterior, segundo dados apresentados pela Câmara Mineira do Chile.
O economista Fernando Henrique Lemos Rodrigues, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), avalia que os problemas no setor estão relacionados ao esgotamento de determinadas minas, limitações tecnológicas, eventos climáticos extremos e conflitos trabalhistas.
O cobre representa uma parcela expressiva das exportações chilenas. Por isso, dificuldades na produção afetam diretamente a geração de receitas e o desempenho da economia nacional.
FMI reduz projeção de crescimento do Chile
A desaceleração levou o Fundo Monetário Internacional (FMI) a revisar suas expectativas para a economia chilena em 2026.
A projeção de crescimento do PIB passou de 1,8%, em julho, para 0,6%, na atualização de outubro.
Com isso, o Chile aparece entre os países com menor expectativa de expansão econômica da América do Sul, superando apenas a Bolívia, para a qual o organismo prevê retração de 3%.
Para Rodrigues, a combinação de ajuste fiscal e dificuldades na mineração limita a capacidade de recuperação da economia.
O especialista argumenta que a redução das despesas governamentais pode enfraquecer ainda mais a atividade econômica quando o setor privado não consegue compensar a queda dos investimentos públicos.
Cortes atingem saúde, educação e habitação
A política de austeridade também provocou questionamentos sobre seus efeitos nos serviços públicos.
Os primeiros relatórios do governo indicaram uma redução de despesas próxima de 2 trilhões de pesos chilenos, equivalente a aproximadamente 0,6% do PIB.
Um levantamento do jornal chileno The Clinic, baseado em decretos de 17 ministérios, apontou cortes superiores a US$ 1,4 bilhão.
A saúde concentrou a maior redução, com aproximadamente 413 bilhões de pesos. Também foram registrados cortes de 200 bilhões de pesos na Habitação, 197 bilhões na Educação e 141 bilhões no Trabalho.
Na avaliação de Rodrigues, a redução simultânea de despesas sociais e impostos empresariais pode comprometer a arrecadação sem garantir uma retomada dos investimentos.
O economista considera que, em períodos de elevada incerteza, empresas e investidores podem optar por aplicações financeiras em vez de ampliar a produção e a contratação de trabalhadores.
Orçamento de 2027 amplia críticas ao governo
A proposta orçamentária para 2027 também passou a ser alvo de organizações sociais e setores da oposição.
A Fundação Horizonte Cidadão, criada pela ex-presidente Michelle Bachelet, identificou possíveis impactos sobre 48 programas sociais destinados principalmente à população de menor renda.
Segundo o levantamento, as iniciativas afetadas somam aproximadamente 325 bilhões de pesos chilenos.
Os dados alimentaram críticas à promessa de campanha de Kast de reduzir os gastos do Estado sem prejudicar benefícios sociais.
Na educação, medidas de contenção orçamentária motivaram manifestações estudantis, algumas delas acompanhadas de confrontos com forças policiais.
A insatisfação também aparece em pesquisas de opinião, que apontam desaprovação superior a 60% ao presidente após sete meses de mandato.
Com a economia enfraquecida, o governo chileno enfrenta o desafio de conciliar suas metas de austeridade com a necessidade de recuperar empregos, estimular investimentos e preservar serviços públicos.
Da IstoÉ e Agência Brasil