Cultura

Chico Buarque inédito

Fotobiografia mostra como as mudanças de visual ajudaram a construir a reputação do ídolo da música brasileira

Crédito: Divulgação

1968 Chico Buarque compõe ao violão em foto de Cynira Arruda (Crédito: Divulgação)

“O segredo de Chico é não posar. Ele se exibe com naturalidade” Augusto Lins Soares, designer e autor (Crédito:Divulgação)

A imagem cumpriu uma função essencial na carreira de Chico Buarque de Hollanda. O álbum “Revela-te, Chico” (editora Bem-te-vi) apresenta pela primeira vez a cronologia visual do músico e escritor carioca, que completa 75 anos em 19 de junho. A obra segue as mudanças visuais do artista, da infância até a terceira idade, para demonstrar como a imagem ajudou a consolidar sua reputação — a ponto de hoje ser difícil separar suas canções clássicas de seus olhos brilhantes. “O que chama atenção nele é tanto olhar como o sorriso”, diz o designer gráfico pernambucano Augusto Lins Soares, organizador do volume, que traz textos do escritor carioca Joaquim Ferreira dos Santos. “Ele está sempre sorrindo nas fotografias. Não posa para a câmera.” A aparência despojada contribuiu para sua fama.

Durante dois anos, Soares pesquisou em arquivos e coleções públicas e privadas, num total de 20 mil itens, até chegar a 210, entre inéditos e raros. Ainda obteve licença para uso das imagens do homenageado. Ao saber do projeto, Chico cedeu uma que guardava em casa: um retrato que o pintor Di Cavalcanti lhe deu de presente em 1972. Chico mandou fotografar a tela e lhe enviou o arquivo. Surpreso pelo efeito do olhar representado no quadro, Soares decidiu completar o volume, convidando 22 artistas para retratarem Chico.Cantor autor

Curiosamente, Soares nunca se encontrou com Chico. “Como se tratava de uma pesquisa iconográfica, não vi por que visitá-lo”, afirma. “Toda a sua vida foi documentada pelos jornais e revistas do início de sua carreira até os 50 anos, quando Chico diminuiu o número de turnês e discos para se devotar à literatura.”

Na fase mais recente, outra vez as imagens de Chico potencializaram a venda de romances e novos álbuns, mesmo que tenha se mantido recluso. O relativo confinamento e a repulsa por entrevistas colaboraram para insuflar a idolatria em torno dele. Mesmo assim, o traçado visual de sua vida demonstra que a glória resultou não só da exposição às câmeras em festivais transmitidos pela televisão, mas também do convívio com intelectuais e artistas. Tudo começou em casa. Sua família esteve no centro da cultura brasileira dos últimos 70 anos.

Entre 1953 e 1955, seu pai, o escritor Sérgio Buarque de Holanda, mudou-se com a família para Roma, onde lecionou na Università Sapienza. O menino Francisco pôde conviver com o padrinho, o poeta Vinicius de Moraes, que trabalhava no serviço diplomático. Os dois se familiarizaram com o esquema publicitário da canzone italiana, alinhada ao pop americano. Na Itália, surgiu o “cantautore”, o cantor que interpreta suas composições. Assim, Chico se deu conta de que o autor deveria ser o cantor e a essência, andar com a aparência. Incentivado por Vinicius e Tom Jobim, ele se tornaria um dos primeiros compositores brasileiros a fazer sucesso cantando. Na equação de astro pop, não poderia faltar o ingrediente do galã que atrai as fãs. A partir dos 19 anos, se fez conhecer como artista romântico e sensível que compreendia as mulheres como nenhum outro.

A fotobiografia capta as mudanças físicas de Chico a partir de cenas familiares, retratos posados e ao acaso, shows e passeatas, bem como sobras de sessões por fotógrafos de renome. “Mesmo as fotos refugadas retratam a invenção de um ídolo popular”, diz Soares. “É como se certas imagens estivessem esperando para ser reveladas e, com isso, explicar as facetas encobertas do artista.”

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