Cultura

Chernobil revelada

A minissérie “Chernobyl” evita o gênero catástrofe para investigar como os cientistas e trabalhadores tentaram evitar o maior acidente nuclear da história

Crédito: Divulgação

SEQUÊNCIAS: Cenas da minissérie “Chernbobyl”. simulação da explosão em 18/4/1985, rodada em Vilnius (Crédito: Divulgação)

A tentação de embalar o acidente de Chernobil como filme catástrofe parece óbvia quando se trata de levá-lo a um público de televisão, ainda mais se idealizado e dirigido por um dos reis da comédia atual, o diretor e roteirista americano Craig Mazin, autor de filmes de humor de sucesso como a terceira partes de “Se beber não case” (2011) e “Todo mundo em pânico 2” e “3” (2003 e 2006). Mas Mazin e produção fizeram exatamente o contrário na minissérie “Chernobyl”, que estreia nesta semana no canal pago HBO. “Procuramos evitar o uso sensacionalismo do gênero catástrofe”, diz ele à ISTOÉ. “O tema é grave para uma simples exploração para gerar emoções fáceis junto ao público.”

Lituânia: bombeiros deram a vida para evitar o pior (Crédito:Divulgação)

De fato, a explosão do reator nuclear número 4 da central elétrica da usina nuclear soviética de Chernobil, em 28 de abril de 1986, é considerada uma das catástrofes nucleares mais graves já ocorridas, com consequências detectadas até hoje. Morreram centenas de pessoas, entre elas 47 trabalhadores e nove crianças, segundo relatórios da ONU, além de 4 mil de doenças causadas pelo acidente, nos anos seguintes. Segundo a jornalista Svetlana Alexiévitch, no livro “Vozes de Tchernóbil”, até hoje pessoas morrem de câncer e outros males derivados do acidente. Isso sem citar as partículas radiativas espalhadas por toda a Europa Oriental e parte da Ocidental, cujas sequelas nunca foram avaliadas. A cidade de Pripyat, na fronteira da Bielo-Rússia com a Ucrânia, próxima à usina, foi evacuada e se converteu cidade fantasma – hoje é visitada como um ponto turístico de algum futuro holocausto nuclear.

Local trágico

“Até hoje, muitas cifras são desconhecidas e mantidas em segredo”, diz Alexiévitch. Se a história é rica em mistérios e desastres que orientam discussões sobre o destino da civilização, Mazin julgou pobre o material dramático. “Na verdade, não passou de uma explosão de milésimos de segundos, seguida de destruição. Não seria possível produzir suspense com isso”, diz Assim, para criar uma trama interessante, Mazin tratou de contar os bastidores da crise desencadeada pelo acidente e como políticos, cientistas, funcionários e bombeiros lutaram para evitar uma situação ainda pior. “Descobrimos ações positivas de seres humanos atrás de uma nuvem de informações desencontradas produzidas pelo regime totalitário da época”, afirma.

A cientista Ulana Khomyuk (Emily Watson) foi quem soou o alerta (Crédito:Divulgação)

A produção da minissérie realizou pesquisas nos arquivos russos, por muito tempo fechados à consulta, para buscar detalhes inéditos. Além disso, no final das gravações, equipe e elenco visitaram a cena da tragédia. A experiência serviu para dar mais realismo aos cenários e aos efeitos de pós-produção.

Dividida em cinco episódios semanais de uma hora cada, “Chernobyl” desvela a história nunca contada — inspirada em depoimentos reais — da cientista Ulana Khomyuk (interpretada pela atriz britânica Emily Watson), que alerta os funcionários do governo para a eminente explosão. Entre eles, Valery Legasov (Jared Harris) e Boris Shcherbina (Stellan Skarsgård).
“Ao pesquisar sobre o desastre, descobrimos que Chernobil foi um evento totalmente masculino, pois os homens estavam nas posições de comando, como era hábito na União Soviética”, afirma Mazin. “Mas resolvemos fazer justiça ao fato de que o regime comunista valorizava o trabalho das mulheres que então já atuavam em áreas estratégica de setores de ciência e tecnologia. Daí inserirmos a personagem da doutora Khomyuk, imaginária, mas plausível de ter existido na época.”

“Chernobil foi um evento masculino. Mas as cientistas soviéticas eram valorizadas e assim inserimos uma personagem feminina” Craig Mazin, produtor

NO SET O roteirista da série Craig Mazin (da esq. para a dir), com Jared Harris e Stellan Skarsgård: pesquisa e drama (Crédito:Divulgação)

A corrida contra a morte é representada com extrema tensão de episódio a episódio. Mas ela não se afigurou suficiente para evitar o desastre. No entanto, de alguma forma, salvou a Europa e a humanidade de algo pior — e, talvez, definitivo.

HBO, estreia em 10/5, às 21h, como episódio “1:23:45”, com reprises nos canais HBO 2 e Family. Os episódios seguintes serão exibidos no mesmo horário, até 7/6: “Por favor, fiquem calmos” (Please remain calm), 17/5; “Abra os olhos, ó Terra” (Open wide, O Earth), 24/5; “A felicidade de todos os homens” (The happiness of all mankind”) , 31/5; e “Memória eterna” (Vichnaya pamyat”), 7/6.

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