A Otan enfrenta a maior crise de sua história com as ameaças de Donald Trump sobre a Groenlândia, disse o ex-chefe da aliança Anders Fogh Rasmussen à AFP nesta terça-feira (20), pedindo o fim das “bajulações” ao presidente americano.
“Não é apenas uma crise para a Otan, é uma crise para a comunidade transatlântica em geral e um desafio à ordem mundial como a conhecemos desde a Segunda Guerra Mundial”, declarou o ex-primeiro-ministro dinamarquês em entrevista no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça.
“É o futuro da Otan e o futuro da ordem mundial que estão em jogo”, acrescentou.
Rasmussen, que liderou a Otan de 2009 a 2014, instou o atual secretário-geral da aliança, Mark Rutte, e outros líderes europeus a adotarem uma postura firme com o presidente americano em resposta às suas ameaças de tarifas.
“Temos que mudar de estratégia e chegar à conclusão de que as únicas coisas que Trump respeita são força, firmeza e unidade”, disse Rasmussen.
“É exatamente isso que a Europa deveria demonstrar. A época da bajulação acabou. Chega!”, enfatizou.
No Fórum Econômico Mundial, vários líderes europeus, incluindo o próprio Rutte, se preparam para se reunir com Trump esta semana.
Rasmussen, que foi primeiro-ministro da Dinamarca de 2001 a 2009 antes de liderar a aliança, insistiu que a atual crise em torno da Otan ainda pode ser “resolvida” e que a aliança poderia sair mais fortalecida na região ártica.
No entanto, ele também alertou que as ações de Trump causaram um “colapso mental” entre Washington e seus aliados europeus de longa data, o que beneficia Rússia e China.
“Esta é uma situação nova, diferente de todas as outras disputas que vimos na história da Otan”, afirmou Rasmussen.
“Se Trump atacar a Groenlândia e tomar medidas militares contra ela, isso significaria, na prática, o fim da Otan”, argumentou.
– Desviar a atenção da guerra na Ucrânia –
Para o dinamarquês, de 72 anos, a questão da Groenlândia tornou-se uma “arma de distração poderosa”, que desvia a atenção da invasão russa da Ucrânia.
“Todos estão falando da Groenlândia agora, que não representa uma ameaça real à segurança do Atlântico Norte”, destacou.
“O ataque da Rússia à Ucrânia é a verdadeira ameaça, e a atenção não deve ser desviada dessa ameaça real”, afirmou.
Rasmussen defendeu um “diálogo construtivo” entre os Estados Unidos e a Groenlândia.
Na sua visão, Copenhague e Washington poderiam atualizar o acordo que assinaram em 1951 sobre a mobilização de tropas na Groenlândia, abrir o território para empresas de mineração americanas e concordar em manter China e Rússia afastadas.
Mas, em hipótese alguma, o território deve ser cedido a Trump.
“Podemos atender a todos os seus desejos, exceto um”, disse o dinamarquês.
“A Groenlândia não está à venda e, como especialista imobiliário, ele deveria saber que se uma propriedade não está à venda, não se pode comprá-la”, acrescentou.
del/ec/rmb/jvb/pc/aa