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Chefe do ACNUR destaca solidariedade latino-americana em êxodo de venezuelanos

Chefe do ACNUR destaca solidariedade latino-americana em êxodo de venezuelanos

O alto comissário da ONU para os refugiados, Filippo Grandi, em Lima, em 11 de outubro de 2018 - AFP

O alto comissário da ONU para os refugiados, Filippo Grandi, destacou nesta quinta-feira (11) a solidariedade latino-americana diante da crise humanitária causada pelo êxodo dos venezuelanos, em contraste com o que acontece na Europa com as ondas migratórias.

“Eu tenho que dizer que em comparação com o que eu vi em outras partes do mundo, incluindo a Europa, aqui (na América Latina) a solidariedade (com os refugiados) é muito forte”, declarou Grandi em Lima.

O funcionário descartou a criação de campos de refugiados para os milhares de venezuelanos emigrados e propôs criar um “fórum regional” para canalizar de “modo balanceado” a assistência para eles.

“Tem existido uma solidariedade incrível (…), estive em Cúcuta (fronteira Venezuela-Colômbia), onde há literalmente milhares de pessoas (saindo da Venezuela) e hoje (quinta-feira) vou para Tumbes (fronteira Equador-Peru) e entendo que é semelhante, os moradores estão abrindo os braços” aos imigrantes venezuelanos, continuou.

O chefe da ACNUR ressaltou que “muitas pessoas (latino-americanas) no passado foram para a Venezuela trabalhar, mas que há uma espécie de reciprocidade” agora na assistência aos imigrantes do país.

Grandi falou com alguns jornalistas, incluindo da AFP, após se reunir com o chanceler peruano, Nestor Popolizio, em Lima, antes de viajar para Tumbes como parte de uma viagem por nações sul-americanas que receberam ondas de venezuelanos que fogem da crise econômica e política em seu país.

Mais de 2,3 milhões de venezuelanos vivem no exterior (7,5% da população). Destes, mais de 1,6 milhão deixaram o seu país desde 2015 com o agravamento da crise.

Cerca de 90% dos emigrantes têm como alvo países da América Latina, segundo dados do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (Acnur) e a Organização para as Migrações (OIM). No Peru chegaram mais de 400 mil, segundo dados oficiais peruanos.

“Este é certamente o maior movimento de pessoas que deixam um país que vimos há muito tempo (na região), até onde podemos lembrar. A maior crise na América Latina foi na década de 1980 com as guerras na América Central”, disse Grandi.

– “Fórum regional” –

O funcionário explicou que o ACNUR e a OIM, também vinculada à ONU, mobilizaram ajuda humanitária para atender os venezolanos que chegam a outros países.

Entretanto, advertiu que “os recursos são limitados” e que é preciso atender as necessidades de “médio prazo” dos emigrados, reforçando “o sistema educacional, o sistema de saúde, e apoiando a criação de empregos para essas pessoas” nos países em que chegam.

“Isso apenas pode ser feito por grandes doadores bilaterais e por instituições financeiras como o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento, que estão interessados, mas precisamos criar um fórum regional de modo que os recursos possam ser oferecidos de modo balanceado”, expressou.

“Podemos ajudar a criação deste fórum. Os países (latino-americanos) já começaram, estão na frente”, acrescentou em aparente referência ao Grupo de Lima, formado no ano passado por iniciativa do Peru e integrado por 14 países americanos, incluindo o Canadá.

“Os estimulo a continuarem, que formem essa espécie de fórum para que possamos mobilizar a assistência de uma maneira mais efetiva”, acrescentou Grandi.

– “Diálogo construtivo” com Caracas –

Grandi disse que manteve um “diálogo construtivo” com o governo do presidente Nicolás Maduro, que pediu aos venezuelanos emigrados que voltem ao país.

“Falei com a Venezuela, falei com o chanceler (Jorge Arreaza), ele veio me ver em Genebra, tivemos um diálogo muito construtivo e eu lhe disse as razões pelas quais dizemos que há uma crise e que ajudamos seu povo porque ele tem necessidades. E ele admitiu que seu povo tem necessidades”, afirmou.

O chefe do ACNUR disse que essa crise deve ser despolitizada e descartou a opção de abrir campos de refugiados para os venezuelanos.

“Acho que não é o momento dessas pessoas retornarem (para a Venezuela) ou que sejam devolvidas contra sue vontade. Ninguém está fazendo isso (devolvendo imigrantes)”, garantiu.

“Nosso conselho, não somente aqui, como em qualquer situação no mundo, é não estabelecer campos”.