Chefe da UE quer ressuscitar energia nuclear no bloco até 2030

Para Ursula von der Leyen, enfraquecer participação nuclear na matriz energética europeia foi "erro estratégico", exposto pela guerra no Irã. Críticos apontam para resíduos radioativos e importações de urânio da Rússia.Num aceno à vontade de parte da Europa de expandir novamente o uso da energia nuclear, a chefe da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou nesta terça-feira (10/03) um fundo de 200 milhões de euros (R$ 1,2 bilhão) para estimular o setor.

Ela descreveu a redução da indústria nuclear como "erro estratégico" na Europa, agora exposto pela guerra no Irã, apesar do seu impacto ambiental e controversos riscos de segurança.

"Essa redução na participação da energia nuclear foi uma escolha. Acredito que foi um erro estratégico da Europa virar as costas para uma fonte confiável e acessível de energia com baixas emissões (de gases de efeito estufa)", afirmou von der Leyen na abertura de uma cúpula dedicada ao tema na França.

A Europa produzia cerca de um terço da sua eletricidade a partir da energia nuclear em 1990, mas essa porcentagem caiu para 15%, segundo Von der Leyen, deixando o continente dependente das importações de petróleo e gás.

Com a elevada tensão global no mercado do petróleo, a líder da União Europeia (UE) chamou o conflito no Oriente Médio de "lembrete contundente" da vulnerabilidade que resulta da dependência de combustíveis fósseis importados.

"Corrida tecnológica nuclear"

A meta declarada é implantar pequenos reatores modulares (SMRs) em toda a UE até 2030, com o aceleramento na concessão de licenças e o alinhamento da regulamentação entre os Estados-membros. Os recursos do novo fundo virão do mercado de carbono, segundo von der Leyen.

Reatores do tipo SMR têm em torno de 10% do tamanho de um reator convencional. Por serem pré-fábricados, esses tipos de reatores podem ser mais facilmente instalados do que grandes usinas convencionais. Eles produzem cerca de um quinto da energia de uma usina comum, mas têm em tese custo mais baixo e são capazes de entrar em operação mais rapidamente.

"Não só reduziremos os riscos dos investimentos nessas tecnologias de baixo carbono, como também queremos enviar um sinal claro para que outros investidores se juntem a nós," prosseguiu, afirmando que "a corrida tecnológica nuclear começou". "Temos meio milhão de trabalhadores altamente qualificados na área nuclear, muito mais do que os Estados Unidos e a China."

A crescente inclinação europeia à energia nuclear é, ao mesmo tempo, alvo de protestos. Críticos ressaltam a produção de lixo altamente tóxico, além das consequências exacerbadas e longevas de acidentes nucleares para populações e ecossistemas.

De Tchernobil ao Irã, crises pautam debate

Em 2011, o desastre de Fukushima, no Japão, reforçou medos semeados pela catástrofe histórica de Tchernobil em 1986, na então União Soviética (URSS). Os acidentes impactaram, no mínimo e de diversas maneiras, centenas de milhares de pessoas.

A invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia em 2022 contribuiu para que a energia nuclear recuperasse tração na pauta política, enquanto a UE discute como executar uma transição energética.

Os defensores argumentam que a energia nuclear contribui para a descarbonização num mundo instável, em que os países se preocupam cada vez mais em garantir suprimentos nacionais.

Nos últimos dias, a guerra de EUA e Israel contra o Irã danificou estruturas petrolíferas. Permanece fechado o Estreito de Ormuz, rota marítima crucial para o abastecimento global de petróleo. Em janeiro, a crise venezuelana já lançara uma onda de incertezas para o mercado global.

"Em relação aos combustíveis fósseis, somos completamente dependentes de importações caras e voláteis. Elas nos colocam em uma desvantagem estrutural em relação a outras regiões," afirmou a líder da UE.

Dilema alemão

A Alemanha foi um dos países que desmontou a geração nuclear após o acidente em Fukushima, com as últimas usinas decomissionadas em 2023. À época, von der Leyen era ministra do Trabalho no governo de Angela Merkel, antes de se tornar ministra da Defesa.

O tema é sinônimo de choque político a nível doméstico. Forças progressistas são críticos à volta dos reatores, e partidos conservadores tendem a ser favoráveis. O país se comprometeu a virar neutro em carbono até 2045.

Em resposta à declaração de von der Leyen desta terça-feira, o chanceler federal alemão, Friedrich Merz, chamou o afastamento nuclear de "irreversível".

Já o ministro do Meio Ambiente, Carsten Schneider, criticou o que vê como uma "estratégia retrógrada" no plano da Comissão Europeia. "Eletricidade mais limpa e mais segura, proveniente do vento e do sol, é mais barata, vem impulsionando a transição energética há muito tempo e não produz resíduos radioativos."

Partido de Merz, a União Democrata Cristã (CDU) afirmou na campanha das eleições nacionais do ano passado que manteria a opção nuclear sobre a mesa. Desde o início do mandato, entretanto, o governo aponta como obstáculos o alto preço e a exigida "confiança das empresas que devem fazer este comprometimento para além do período legislativo."

O fator Rússia

Por sua vez, a França, símbolo nuclear na Europa, tem mais de dois terços da sua produção de eletricidade resultante da energia atômica. "Quando somos excessivamente dependentes de hidrocarbonetos, eles podem se tornar uma ferramenta de pressão ou até de desestabilização," de acordo com o presidente Emmanuel Macron.

Nos últimos anos, o país obtém grande parte de seu urânio natural de Cazaquistão, Austrália, Namíbia e do politicamente volátil Níger. Do urânio enriquecido — aquele que passa por processos industriais para gerar energia —, quase 40% foi importado da Rússia, revelam dados da alfândega francesa.

Ativistas do Greenpeace protestaram contra a energia nuclear na cúpula desta terça-feira, apontando para o laço do país anfitrião com o Kremlin.

Segundo a agência nuclear da UE, a Euratom, o Canadá forneceu 34% do urânio natural do bloco em 2024, o ano mais recente com dados disponíveis, seguido pelo Cazaquistão com 24% e pela Rússia com cerca de 15%.

Nova rota na transição energética?

O plano da transição energética europeia tem como norte as fontes limpas, como a eólica e a solar. Em 2024, 20% da energia disponível na UE era renovável, aponta a Eurostat.

Outros 12% eram de origem nuclear, contra 38% provenientes do petróleo e seus derivados, a maior fatia da matriz energética europeia.

Em geral, os combustíveis fósseis ainda dominam o consumo em setores-chave, como transporte e aquecimento. E, mesmo com uma célere expansão dos renováveis, o gás ainda fornece parte importante da eletricidade na UE.

Ao contrário dos reatores tradicionais, que produzem cerca de 1 mil megawatts (MW), os SMRs planejados por von der Leyen produzem cerca de 300 MW. Aposta dos entusiastas nucleares, eles podem ser produzidos em massa em tempo reduzido, mas nunca foram empregados em larga escala.

"A lógica é muito clara. Quando for seguro implantá-los, deve ser simples implantá-los por toda a Europa", disse a líder da UE.

Continente dividido

Macron propôs padronizar os projetos de reatores na Europa, medida que poderia beneficiar a estatal francesa EDF, que perdeu contratos nos últimos anos. Em 2024, a República Tcheca concedeu a licitação para construir uma nova usina à sul-coreana KHNP. A EDF tentou, sem sucesso, bloquear a decisão na Justiça.

Também Holanda e Suécia planejam construir novas usinas. A Bélgica abandonou seu processo de eliminação da energia nuclear, e a Itália reconsidera sua posição. A Grécia planeja "liderar a conversa", para descarbonizar o transporte marítimo.

Além da Alemanha, outros países que já se colocaram contra a energia nuclear incluem Áustria, Portugal, Dinamarca, Luxemburgo e Irlanda. Também a Espanha continua sendo uma defensora firme das energias renováveis como primeira opção para fornecer energia mais limpa.

Para especialistas, a energia eólica e solar devem dominar a matriz energética europeia nos próximos anos, já que construir novas capacidades nucleares levará tempo.

(com AFP, Reuters, dpa)