*Íntegra da entrevista publicada na edição 2430 de ISTOÉ
Na pré-estreia de “Contrato Vitalício”, primeiro filme do Porta dos Fundos, elogiado pela ótima sátira ao showbizz, o ator Gregório Duvivier diz que será uma boa ideia que o próximo longa do grupo formado também por Fábio Porchat e dirigido por Ian SBF, tenha temática política. O plano do grupo é fazer pelo menos um filme por ano:
ISTOÉ – Donald Trump nos Estados Unidos, a onda conservadora, a xenofobia, Inglaterra fora UE. Dá para rir com o mundo hoje?
Gregorio Duvivier – Está difícil rir do mundo hoje, mas ao mesmo tempo é indispensável. Acho que nunca o humor foi tão necessário. Quando maior as certezas, maior é nossa obrigação de desmontá-las. Acho que humor é isso. É uma ferramenta de desmontes das certezas. Ele vai na contamão do óbvio e de tudo o que é absoluto. Ele relativiza sempre e desconstrói. Me incomoda muito quando vejo a escalada do nacionalismo, por exemplo, tanto na Inglaterra quanto nos Estados Unidos. Os slogans são parecidos. Um é Americans first. Make Britanic great again. Sempre fazer com uma certa nostalgia. Tenho um medo terrível de nostalgia.
ISTOÉ – Por quê?
Gregório – Saudosismo para mim é terrível. Quem quer voltar para trás é quemnão quer perder os privilégios. Pergunta se os gays e os negros querem voltar para trás no tempo? Não querem. Por que os tempos, por mais dificuldades que eles tenham, são mais justos que antigamente. Tenho muito medo desse saudosismo rolando no mundo.
ISTOÉ – Dava para imaginar Trump, o protagnista do reality show O Aprendiz, como o protagonista da atual onda conservadora nos Estados Unidos?
Gregório – É, daqui a pouco vai ser o Justus no Brasil. Mas Trump é pior. Pelo menos o Justus, politicamente, não fica dando opinião. Trump é apenas uma ação midiática de um sujeito que não tem substância. É até um desrespeito com os palhaços chamá-lo de palhaço.
ISTOÉ – Vê isso como um contra-ataque aos caminhos abertos por Obama?
Gregório – Você não faz justiça social impunemente. No Brasil, nos Estados Unidos, na Inglaterra. Todo avanço vem junto com uma tentativa de retrocesso porque incomoda muita gente. O projeto do Obabam de começar a fazer uma saúde pública incomodou tanta gente que lucra com isso. Enquanto aqui se tenta desmontar uma saúde pública, lá a tentativa é de erguer a saúde pública de qualidade. Às vezes a gente acha que o subdesenvolvimento é um acidente de percurso. Mas, como diz Nelson Rodrigues, Nosso subdesenvolvimento não se improvisa, é uma obra de séculos. Nosso subdesenvolvimento é planejado porque interessa a muita gente, aqui e lá fora. Gera lucro. Interessa a estagnação e o retrocesso.
ISTOÉ – Por que o Porta dos Fundos não optou por pitada de política no filme?
Gregório – A gente não chegou a pensar. É uma história do Fábio e do Ian, e era uma história antiga que não cabia muito falar disso. Mas é uma boa ideia para um próximo projeto. Fazer filme mais político.
ISTOÉ – Como você imaginaria a Lava Jato num filme do Porta dos Fundos?
Gregório – Seria uma puta história a Lava Jato. Seria engraçado ver por exemplo, o que acontece quando uma pessoa totalmente honesta vai parar no Congresso. É uma comédia. Fizemos uma vez uma esquete que chamava-se Superávit, com Marcos Veras e o Fabio Porchat. Mas é muito antigo. Eu escrevi há um tempão. Agora você montar isso num filme seria ótimo: um cara honestíssimo e o país quebra, porque a gente não está preparado para não roubar.
ISTOÉ – Mas você acha que o país não está preparado para não roubar?
Gregório – Brincadeira, eu acho que está sim. Mas eu acho que dá um colapso. Mesmo agora, com a lava Jato, tem um monte de gente preocupada com a paralisia do país. Para a economia, é terrível a lava Jato. Imagina essas grandes empreiteiras, milhões de projetos, empregos. O abafamento da corrupção interessa a muita gente, de todos os lados.
ISTOÉ – Como seria a figura do Sergio Moro nesse possível novo filme ?
Gregório – O Sergio moro é uma figura a ser estudada. Quem é o Sergio moro? Acho que foi fundamental a figura do juiz que o Brasil confia no meio de uma crise de representatividade tão grande. É bonito ver as pessoas confiando no juiz, uma pessoa que não é o Bolsonaro nem o Feliciano. Por outro lado, cadê o Moro? O que me incomoda é uma coisa que as pessoas já contavam e que agora está se concretizando, que é a coisa do juiz parcial, do juiz político. Quando você começa a ver as entranhas do judiciário de um modo geral, que negocia o próprio aumento, que negocia o auxilio, você vê um Judiciário tão comprometido…
ISTOÉ – Como observa o governo Temer nesse primeiro momento?
Gregório – Acho trágico. Eu vou no Diretas já, não vou nem no Volta Dilma. A democracia é uma cagada, mas ainda é a melhor coisa que inventaram. Frase do Churchill que eu adaptei, porque ele jamais falaria cagada. Acredito no voto direto, na democracia, na legitimidade do voto. Por mais que o Temer tenha sido eleito como vice, junto com a Dilma, esse projeto que o governo está executando não foi eleito e nunca teria o aval das urnas. Um programa de governo com a legitimidade do voto é muito importante.
ISTOÉ – Você já viveu uma situação como essa que se passa no filme (Um cineasta maluco que inferniza a vida do amigo ator por conta de um contrato vitalício de amizade)?
Gregório – Nossa, já me meti em muita roubada. Cada filme que me chamam para fazer… Uma das coisas mais difíceis na vida é aprender a dizer não. Hoje em dia acho que aprendi. Estou aprendendo. Nunca disse: esse material é muito ruim. Mas agora digo: cara, estou sem data. É cada roteiro que aparece… tem muita gente que fala: o roteiro é meio fraco, mas estou aberto a improvisos para você dar uma ‘salvada’. Já fiz muitos filmes que não foram ao ar. Quatro ou cinco longas. Um deles, com Ian dirigindo, eu, Fábio, Tatá Werneck. Não foi ao ar. Chamava-se “Podia ser Pior”.
ISTOÉ – Vocês foram cobrados pela abordagem pejorativa dos travestis no filme. Vocês são muito patrulhados?
Gregório – Eu não reclamo muito, sabia? Muitas vezes o que chamam de patrulha são só as minorias sentindo-se empoderadas o suficiente para falar contra a gente, quando antigamente eram só silenciadas. O que chamam de patrulha pode ser um processo civilizatório na qual finalmente os transexuais tem voz. Antes não reclamavam, mas não é que se não sentiam ofendidas. Só não se sentiam no direito de reclamar. Acho bonito que reclamem com a gente. De verdade. É sinal que a gente vive num lugar um pouquinho mais justo em que eles tenham voz e o direito de discordar.
ISTOÉ – Os famosos citados no filme vão se sentir homenageados ou ofendidos?
Gregório – Acho que vão se sentir homenageados. O Porta adora fazer isso. A gente faz isso há um tempão e até agora ninguém reclamou.
ISTOÉ – Mesmo Bruno Gagliasso citado pelos travestis?
Gregório – Acho que ele vai adorar. O Gagliasso é muito amigo do João (Vicente de Castro).