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Cesare Battisti assume assassinatos e se arrepende da luta armada

Cesare Battisti assume assassinatos e se arrepende da luta armada

Cesare Battisti chega a Roma escoltado por policiais italianos ao aeroporto de Ciampino, em 14 de janeiro, após sua extradição da Bolívia - AFP/Arquivos

O ex-ativista de extrema esquerda Cesare Battisti, que permaneceu foragido durante 40 anos, reconheceu diante de um juiz italiano que é responsável por quatro assassinatos cometidos nos anos 1970 e se mostrou arrependido por feito parte da luta armada, informou o Ministério Público nesta segunda-feira.

Esta é a primeira vez que Battisti, que foi extraditado em janeiro para a Itália, onde cumpre pena de prisão perpétua, admite ser responsável pelos crimes que renderam sua condenação à revelia.

Questionado pelo procurador antiterrorismo Alberto Nobili, Battisti disse que é responsável por “quatro homicídios, três feridos graves e vários roubos para autofinanciamento”, disseram fontes judiciais em uma entrevista coletiva em Milão.

“Eu falo sobre o que sou responsável e não vou falar sobre ninguém”, acrescentou o ex-ativista, conforme Nobili narrou à imprensa nesta segunda-feira (25).

Na mesma coletiva de imprensa, o procurador-geral de Milão, Francesco Greco, disse que Battisti admitiu os quatro assassinatos pelos quais foi condenado, “dois dos quais era o executor”.

“Com essa admissão, ele esclarece muitas controvérsias, presta homenagem às autoridades policiais e à magistratura de Milão e reconhece que agiu de maneira brutal”, acrescentou Greco.

Durante o interrogatório, que durou 9 horas, Battisti pediu desculpas pela dor causada às famílias das vítimas.

“Não se tratou de uma confissão. Ele queria esclarecer como eram esses anos, esse período histórico”, explicou Greco.

“Ele parou de atacar o sistema judiciário da Itália e decidiu ser claro”, comentou Nobili, referindo-se à longa história de verdade e mentiras de Battisti, considerado um “terrorista cruel” na Itália e na França e no Brasil um mero perseguido político.

“Tudo o que está escrito nas sentenças é verdade”, disse Battisti ao seu advogado, Davide Steccanella, acrescentando que também se arrependeu de ter acreditado na luta armada.

“A luta armada impediu o desenvolvimento da revolução social, política e cultural desencadeada pelo movimento de 1968, que teria sido absolutamente positiva e teria levado o país ao progresso cultural, social e político”, disse Battisti aos juízes.

Na Itália, a prisão de Battisti foi unanimemente elogiada, da direita à esquerda do espectro, em particular porque o ex-chefe dos Proletários Armados pelo Comunismo (PAC) sempre alegou sua inocência e nunca se arrependeu.

– Uma vida de fugas –

Battisti, 64 anos, foi condenado pela primeira vez na Itália no início da década de 1980. Na época, foi sentenciado a 13 anos de prisão por pertencer ao PAC durante os “anos de chumbo”. Fugiu em 1981.

Acabou sendo julgado à revelia em 1993 e condenado à prisão perpétua por quatro homicídios e por cumplicidade em outros assassinatos no final dos anos 1970.

Viveu por 15 anos no exílio na França, protegido pelo governo socialista de François Mitterrand, onde se tornou um autor de sucesso de romances policiais.

Depois de um período no México, retornou à França, mas, em 2004, viu-se obrigado a sair deste país: os ventos políticos mudaram. Refugiou-se clandestinamente no Brasil, antes de ser preso no Rio de Janeiro em 2007.

Em 2010, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva negou sua extradição para a Itália após um longo processo judicial com uma estada na prisão. No último dia de seu mandato, Lula outorgou a Battisti o “status” de refugiado político.

Battisti se casou com uma brasileira, com quem teve um filho em 2013.

Em 13 de dezembro passado, o Supremo Tribunal Federal ordenou sua prisão “para ser extraditado”.

A extradição foi assinada no dia seguinte pelo então presidente, Michel Temer, mas as autoridades brasileiras perderam seu rastro.

Por meio da geolocalização de celulares, usados para se conectar às redes sociais, ele foi detectado em Santa Cruz de la Sierra, onde as polícias boliviana e italiana prepararam sua prisão, efetivada em 12 de janeiro.

Ele havia solicitado o “status” de refugiado político na Bolívia, mas o governo de Evo Morales não deu prosseguimento ao pedido.