Avião da Voepass não deveria ter decolado, diz Cenipa

Relatório final sobre a tragédia que matou 62 pessoas aponta falha em limpador de para-brisa e negligência da companhia

Avião da Voepass não deveria ter decolado, diz Cenipa

O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) concluiu que o avião da Voepass, que caiu em Vinhedo (SP) em agosto de 2024 e resultou na morte de 62 pessoas, não deveria ter decolado. O relatório final, divulgado nesta quinta-feira, 23, aponta uma falha no limpador de para-brisa como o impeditivo para a autorização de voo, considerando a previsão de chuva para o período.

O que aconteceu

  • O Cenipa determinou que o avião da Voepass que caiu em Vinhedo não poderia ter decolado devido a uma falha no limpador de para-brisa, contrariando as normas de segurança aérea.
  • A aeronave apresentou falhas no sistema de degelo das asas em voos anteriores, mas a tripulação não registrou os problemas no diário de bordo, ocultando informações cruciais.
  • A investigação revelou uma “cultura de normalização de desvios” na companhia, onde pilotos e mecânicos negligenciavam o registro de panes e falhas.

“Não poderia ter sido despachada a aeronave nesse horário em virtude da falha no limpador de para-brisa”, afirmou o tenente-coronel Paulo Mendes Fróes, investigador encarregado pelo Cenipa.

O documento também revelou que a aeronave, um ATR 72-500, apresentou falhas no sistema de degelo das asas em dois voos na véspera da queda. Contudo, a tripulação desses voos não registrou os problemas no diário de bordo. Em uma das rotas, entre Guarulhos e Ribeirão Preto, o sistema responsável por eliminar o gelo acumulado nas asas apresentou pane, mas a informação não foi reportada conforme o protocolo obrigatório.

O Cenipa identificou ainda uma “cultura de normalização de desvios” na companhia Voepass. “Essa normalização vem de uma cultura de informalidade em que pilotos e mecânicos não relataram as panes e as falhas em diário de bordo”, detalhou Fróes.

Como o Cenipa chegou a essas conclusões?

Os investigadores analisaram 1.206 voos realizados pela Voepass entre agosto de 2023 e o dia da queda. O trabalho exaustivo incluiu a análise das duas caixas-pretas da aeronave, exames detalhados nos motores e no sistema de degelo, a reconstrução completa do voo acidentado e um voo experimental com outro ATR 72-500 para replicar as condições. O relatório final passou por revisão de órgãos da França e do Canadá, países responsáveis pelo projeto da aeronave e dos motores.

Em paralelo à investigação do Cenipa, a Polícia Federal (PF) conduz um inquérito criminal sobre o caso e espera concluir a investigação ainda em agosto de 2025. Em junho do mesmo ano, familiares das vítimas tiveram acesso pela primeira vez à transcrição das conversas da cabine, um passo importante para a elucidação das responsabilidades.

A Voepass afirmou em nota que o acidente foi o episódio mais difícil de sua história e que colaborou plenamente com as investigações. A companhia sustentou que sua frota “sempre esteve aeronavegável” e que apenas o relatório final do Cenipa poderia apontar as causas de forma conclusiva. A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) cassou o certificado de operador aéreo da companhia em junho de 2025, marcando o encerramento das operações da Voepass.

O voo 2283 da Voepass caiu em 9 de agosto de 2024, durante o trajeto entre Cascavel (PR) e Guarulhos (SP). Foi o maior desastre aéreo brasileiro desde o acidente da TAM em 2007, reforçando a necessidade de rigor nas investigações e na segurança da aviação.

Da IstoÉ