Edição nº2581 13/06 Ver edições anteriores

Catastrofismo

Imagine que estamos prestes a sofrer uma invasão alienígena. Numa situação dessas, de vida ou morte, numa guerra iminente, medidas drásticas se justificam, incluindo um controle autoritário por parte do governo. Basta pensar como até mesmo a liberal América agiu durante a ameaça da Segunda Guerra Mundial, decretando prisões arbitrárias, convocando na marra combatentes e adotando dirigismo estatal na economia.

É por isso que metáforas de guerra sempre agradaram governantes autoritários. Quem quer exercer o comando de cima para baixo encontra terreno fértil numa narrativa escatológica. Se o planeta todo pode derreter em pouco mais de uma década, então quem liga para um Green New Deal estalinista e infantil de tão utópico? Se o Apocalipse está próximo, então aceitamos ceder nossas liberdades em troca de segurança e da própria sobrevivência.

Não é por acaso que cada vez mais grupos políticos lançam mão desse discurso catastrofista. Se o Brasil estava em vias de virar a Venezuela, alegam com algum fundamento os bolsonaristas, então não podemos mais criticar Bolsonaro, mesmo agora que virou poder, pois isso seria sinal de um desejo de retorno do petismo (não importa se com Temer a ameaça vermelha já estivesse bem mais afastada).

É claro que, às vezes, o tom alarmista é justificado. Mas é preciso chamar a atenção para o interesse político de sempre vender ameaças, concretas ou imaginárias, como algo bem mais terrível e próximo, que demandaria uma reação desesperada — e normalmente inconstitucional.

Hélio Schwartsman falou sobre isso ao analisar o tom pessimista dos procuradores da Lava Jato: “Se todas as vezes que procuradores de Curitiba anunciaram a morte da Lava Jato a operação tivesse de fato ido a óbito, teríamos passado os últimos cinco anos sem arredar pé do velório. Em vez disso, estamos diante de uma investigação continuada que já resultou em 285 condenações que somam mais de 3.000 anos de prisão e que recuperou R$ 13 bilhões desviados de cofres públicos”.

Que o STF parece agir para enterrar a Lava Jato, isso está um tanto visível mesmo. E talvez os catastrofistas estejam certos numa coisa: é graças a essa pressão intensa que a coisa ainda não morreu. Ou seja, os alarmistas exerceriam uma função social pela ótica pragmática. Mas isso não é livre de custo ou risco.

Se nos deixarmos levar pelos apelos cada vez mais catastrofistas, alimentados pelas redes sociais, seremos uma sociedade paranoica e pronta para abandonar as regras do jogo ao primeiro sinal de crise. Jacobinos, da esquerda à direita, sonham com essa oportunidade. O que são umas cabeças degoladas se a meta é nada menos do que salvar a nação, a humanidade, o planeta?

O fim da Lava Jato preocupa. Só que o problema real está nos jacobinos, que aceitam fragilizar a democracia em nome da salvação nacional


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