Comportamento

Cassinos voltam à cena na pandemia

Proibição de aglomerações e esvaziamento urbano expõem a prática de jogo ilegal em médias e grandes cidades e mostram que casas clandestinas de apostas para todos os gostos e bolsos estão funcionando a pleno vapor

Crédito: Paulo Lopes

Cassinos voltam à cena na pandemia (Crédito: Paulo Lopes )

MAU EXEMPLO O jogador do Flamengo Gabigol é detido em cassino em São Paulo (Crédito:Divulgação)

O toque de recolher está tirando os cassinos clandestinos das sombras. Não que estivessem completamente escondidos. Eles funcionam na nossa cara, em endereços conhecidos de médias e grandes cidades, mas, em condições normais, com discrição e sem serem perturbados pela polícia. Agora, por conta do aumento do rigor sanitário e das regras de isolamento, as aglomerações de pessoas que frequentam esses locais começaram a chamar a atenção de agentes de segurança e das autoridades de saúde. Só em São Paulo, três cassinos foram fechados em três dias seguidos, todos em bairros nobres. O último a tombar, no Jardim Paulista, ocupava o palacete de estilo veneziano que abriga a sede do Automóvel Clube Paulista, na esquina da Avenida Brasil com a Avenida 9 de Julho, e há anos opera nesse local, completamente escancarado. Nos últimos três meses, pelo menos outros dez bingos clandestinos foram desmantelados pela polícia em todo o País. O último caso foi na cidade de Americana, no interior de São Paulo, terça-feira, 16. Havia cerca de 30 pessoas, a maioria idosa, tentando a sorte no local e cometendo crimes contra a saúde pública.

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FLAGRANTE O delegado Fernando de Souza infiltrou policiais em prédio suspeito (Crédito:Divulgação)

A jogatina está rolando solta nestes tempos de pandemia e só a ação policial pode interromper esse mal, já que os frequentadores negligenciam os riscos do coronavírus e desprezam regras básicas de isolamento. Os estabelecimentos descobertos são bem estruturados e acolhem um público de alta renda. O primeiro deles, localizado na Vila Nova Conceição, foi interditado domingo, 14. Havia cerca de 200 pessoas no local, entre elas o atacante Gabigol, do Flamengo, encontrado pela polícia escondido debaixo de uma mesa, e o cantor MC Gui, símbolo do funk ostentação brasileiro. O cacife para participar das rodas de pôquer era de R$ 40 mil. O jogo funcionava num ambiente suntuoso, que, segundo informações levantadas pela polícia, consumiu mais de R$ 8 milhões em investimentos. Na madrugada de segunda-feira, outro cassino, do mesmo dono, foi interditado no Itaim Bibi, por desrespeito à lei estadual que veta festas e aglomerações durante a pandemia. Todos os funcionários do lugar eram paraguaios e 25 pessoas foram detidas. Na segunda-feira 15, foi a vez da polícia invadir o lugar de apostas que funcionava no Automóvel Clube. Regra geral, tanto funcionários como os jogadores que estavam nesses lugares não usavam máscaras e nem se preocupavam com o distanciamento. Tampouco se encontrou dinheiro vivo no local. As apostas são normalmente feitas com cartões ou pelo PIX.

Ação policial

“Nós já estávamos monitorando a atividade ilegal e com a entrada na Fase Vermelha da quarentena, a aglomeração denunciou que no local havia algo estranho”, conta o delegado Fernando Cezar de Souza, do 78º DP, que comandou a operação em que 100 pessoas foram detidas. “É um prédio emblemático da cidade e antes da invasão colocamos dois policiais infiltrados para confirmar a contravenção”. A polícia identificou o responsável pela casa, o empresário Nagib Fayad, que esteve envolvido no escândalo da “Máfia do Apito”, esquema de manipulação de resultados no futebol brasileiro denunciado em 2005.

SAÚDE Contravenção de jogo é menos grave do que a infração de regra sanitária (Crédito:Divulgação)

Apesar do barulho em torno do encerramento dos cassinos, o principal crime cometido pelos promotores de apostas está associado à saúde pública. Não foi o jogo que motivou a polícia a invadir os locais, mas sim as aglomerações. Se o promotor ou o participante de jogo ilegal for flagrado, ele será enquadrado no artigo 50 da Lei de Contravenções Penais, com penas brandas como trabalho comunitário e distribuição de cestas básicas. Considera-se o jogo um crime de menor potencial ofensivo. Já o problema de saúde pública está previsto no artigo 268 do Código Penal, que trata de infração de medida sanitária preventiva e pode resultar em detenção de até seis meses. Enquanto milhares de brasileiros morrem e as aglomerações estão proibidas, um grupo de irresponsáveis, inclusive personalidades públicas, ainda insiste em tentar a sorte em jogos ilegais. É uma verdadeira demonstração de idiotice.