Caso do cão Orelha reacende debate sobre o papel dos pais, diz neurocientista

Violência e crueldade revelam falhas na educação emocional de adultos e a urgência de ensinar a lidar com emoções

O cão Orelha
O cão Orelha Foto: Reprodução

Dois casos recentes mobilizaram o país: o chamado Caso do Cão Orelha, que se refere ao espancamento brutal de um cachorro comunitário na Praia Brava, em Florianópolis, em janeiro de 2026, e a tragédia de um pai que matou os próprios filhos. O animal, que vivia na região há cerca de dez anos e era considerado um mascote local, foi encontrado com ferimentos gravíssimos e precisou ser submetido à eutanásia. Para a neurocientista Edilaine Francescato, embora ocorridos em contextos distintos, os episódios expõem uma mesma urgência: a falta de preparo emocional de adultos responsáveis por educar, supervisionar e formar crianças e adolescentes.

Segundo Edilaine, a crueldade raramente surge “do nada”. “A crueldade não nasce no ato. Ela é construída em micro permissões”, afirma. Na prática, isso pode se manifestar na ausência de limites, na banalização do sofrimento, na falta de supervisão e na terceirização da educação emocional para a escola, para a internet ou para “o mundo”. De acordo com a especialista, quando a sociedade reage apenas ao choque do desfecho, perde de vista o que veio antes: sinais, comportamentos e alertas que costumam ser minimizados, justificados ou ignorados por adultos ao redor.

Ao analisar o segundo caso, a neurocientista ressalta que compreender o processo não significa relativizar a responsabilidade. Trata-se, segundo ela, de reconhecer que tragédias familiares frequentemente envolvem escaladas de desregulação emocional, sofrimento psíquico e saúde mental negligenciada. “Um pai que mata os próprios filhos não acorda homicida. Em muitos casos, há um histórico de sinais ignorados, sofrimento psíquico e ausência de suporte”, diz. Para Edilaine, a pergunta que deveria orientar o debate público é direta e incômoda: quem ensinou esse adulto a lidar com frustração, rejeição, perda e raiva? Ou ele foi criado em um ambiente no qual as emoções são tratadas como fraqueza e a ajuda nunca chega?

A especialista define esse cenário como uma “falência da alfabetização emocional”. Na avaliação dela, a sociedade vive um contexto de hiperconectividade aliado a uma baixa capacidade de regular emoções, tolerar frustrações, responder por impactos e conter impulsos. O problema, segundo aponta, se agrava pelo fato de que pais e responsáveis não recebem formação para ensinar essas competências. “O mais grave é que não ensinamos pais a ensinar”, pontua. Edilaine também critica a romantização da parentalidade, frequentemente sustentada pela crença de que instinto e amor são suficientes. “Parentalidade é competência desenvolvida. É habilidade aprendida. É treinamento contínuo”, afirma.

Na visão da neurocientista, a saída passa pela psicoeducação parental como prioridade social, e não como julgamento moral. Psicoeducar, explica, significa oferecer ferramentas práticas: orientar pais a reconhecer sinais de risco, impor limites sem violência, construir vínculos seguros, buscar ajuda especializada no momento adequado e compreender quando o próprio adulto necessita de acompanhamento. “Enquanto reagirmos apenas ao ato final, estaremos sempre atrasados. A prevenção começa muito antes”, resume. A especialista conclui com uma provocação que atravessa os dois casos: em que momento deixamos de preparar os adultos para formar crianças emocionalmente saudáveis?

Edilaine Francescato, neurocientista