Caso Master ‘fura bolha’ da direita, expõe ministros e amplia pressão sobre STF

Suposta troca de mensagens com Daniel Vorcaro e contrato milionário de esposa embasaram novo pedido de impeachment de Alexandre de Moraes

Vorcaro, proprietário do Master, e os ministros Moraes e Toffoli, do Supremo: relações suspeitas
Vorcaro, proprietário do Master, e os ministros Moraes e Toffoli, do Supremo: relações suspeitas Foto: Arte: Luma Venâncio/IstoÉ

A prisão de Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, pela Polícia Federal expôs uma teia de relações políticas e financeiras capaz de macular integrantes dos três Poderes da República.

Nesta semana, no entanto, foi possível concluir que nenhum deles sai tão arranhado quando o Supremo Tribunal Federal, órgão de cúpula do Judiciário brasileiro.

O que pesa contra os ministros

Na segunda-feira, 9, deputados e senadores protocolaram em Brasília um novo pedido de impeachment do ministro Alexandre de Moraes. A 47ª tentativa de afastá-lo de suas funções no STF desde 2021 é sustentada pelas suspeitas que ligam Moraes e Vorcaro, levantadas a partir de uma troca de mensagens revelada pelo jornal O Globo e de um contrato de prestação de serviços de R$ 129 milhões firmado entre o Master e o escritório de advocacia de Viviani Barci de Moraes, esposa do magistrado.

Nas mensagens, que teriam sido extraídas por policiais federais do celular do banqueiro, Vorcaro questiona o ministro sobre um “bloqueio” seguidas vezes e é respondido com mensagens de visualização única — recurso que não permite a identificação posterior — horas antes de sua primeira prisão na Operação Compliance Zero, em novembro de 2025 — mês em que o Master foi liquidado pelo Banco Central.

Moraes negou a existência do diálogo e o STF afirmou que uma análise técnica dos dados teleméticos do celular do banqueiro não identificou mensagens associadas ao contato do ministro, ao passo em que o jornal e outros veículos confirmaram a veracidade do conteúdo.

O presidente Lula (PT) ao lado de Moraes e Viviane Barci, advogada que teve contrato milionário com Master

O contrato, por sua vez, foi admitido pelo escritório Barci de Moraes, que trabalhava a troco de R$ 3,5 milhões mensais — totalizando R$ 129 milhões em três anos — e relatou ter elaborado 36 pareceres para o Master até sua liquidação pelo BC. O jornal O Estado de S. Paulo ouviu de 13 escritórios de advocacia que os valores são incompatíveis com o mercado. O de Viviane limitou-se a negar ter conduzido causas para o banco no STF, onde o marido da advogada dá expediente.

A exposição de Moraes sucedeu uma turbulência anterior na corte, gerada pela revelação de relações entre o ministro Dias Toffoli e o mesmo Vorcaro. A Polícia Federal apurou e o magistrado admitiu ter feito parte do quadro de sócios da Maridt, que vendeu sua participação em um hotel de luxo a um fundo ligado a Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro e também preso na Compliance Zero.

O hotel é o Tayayá Aqua Resort, onde Toffoli recebeu autoridades e é reconhecido por funcionários. O ministro era relator do caso Master no Supremo e, na função, impôs sigilo a apurações que chegavam a Vorcaro e chegou a determinar que a PF enviasse provas apreendidas ao STF. Após a admissão das relações — e apesar do apoio de colegas no sentido contrário –, o ministro deixou a relatoria do caso e foi substituído por André Mendonça.

Dias Toffoli: ministro deixou relatoria do caso Master após admitir negociações passadas com cunhado de Vorcaro

Dias Toffoli: ministro deixou relatoria do caso Master após admitir negociações passadas com cunhado de Vorcaro

Caso Master extrapola antagonismo ao Supremo

Mas a soma das suspeitas fez seu estrago. Pesquisa Meio/Ideia divulgada na quarta-feira, 11, mostrou que 35% dos brasileiros que declararam conhecer o caso Master associam o escândalo ao STF, mesmo com as suspeitas que recaem sobre parlamentares e dirigentes partidários de lado a lado. E, quando se trata de impeachment, a história democrática brasileira mostra que a opinião pública tem papel preponderante.

O senador Eduardo Girão (Novo-CE), um dos autores tanto do pedido mais recente para afastar Moraes quanto do requerimento da CPI do Master, disse à IstoÉ que a frente de críticas ao ministro “furou a bolha” e gestou um “ambiente diferente” no Congresso, onde os presidentes do Senado — agora Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), e antes Rodrigo Pacheco (PSD-MG) –, a quem cabe autorizar a abertura do processo, ficaram conhecidos pelo engavetamento de qualquer discussão dessa monta.

Davi Alcolumbre: presidente do Senado é responsável por pautar processos de impeachment de integrantes do Supremo

Acontece que as contestações anteriores se concentravam nas alas mais radicais da direita e eram baseadas no entendimento de que Moraes excedeu suas prerrogativas, em especial no extenso Inquérito das Fake News e na relatoria do processo que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por uma tentativa de golpe de Estado.

O caso Master, no entanto, tem outro peso. Para o professor de direito constitucional André Marsiglia, fundador do think tank jurídico Lexum, se comprovada a veracidade do diálogo entre Moraes e Vorcaro, os indícios são de corrupção passiva. “Nenhum pedido de impeachment anterior, ainda que legítimo, tinha a gravidade que se tem no diálogo entre um ministro do Supremo e um criminoso. Há uma diferença de peso entre excesso ou má interpretação da lei e eventual prática corrupta“, afirmou à IstoÉ.

Na mesma linha, Sergio Rebouças, professor da UFC (Universidade Federal do Ceará), disse que a comprovação de veracidade das mensagens trocadas “às vésperas da prisão, com supostas orientações e pedidos de ajuda, pode configurar um embaraço às investigações policiais“.

O advogado criminalista considerou haver elementos suficientes para uma investigação criminal contra Moraes, o que depende de um pedido da PGR (Procuradoria-Geral da República), chefiada por Paulo Gonet, e autorização do plenário do próprio Supremo. “A corte tem tomado medidas de autoblindagem que dificultam esse processo e a própria atuação da PGR tem sido marcada por inércia, um contraste com a postura do Ministério Público em outros casos criminais de grande repercussão”, afirmou à IstoÉ.

Não há precedente de inquéritos criminais e nem sequer de impeachment de integrantes da corte, apesar do volume de pedidos contra Moraes, e Davi Alcolumbre não emite qualquer manifestação neste sentido. Para Thais Pavez,  diretora da Estratégia Latina Consultoria, a dimensão do desgaste público gerado pelo caso Master será determinante para a eventual mudança de rota, em especial às vésperas da eleição presidencial que confrontará o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), crítico conhecido do Judiciário.

“As suspeitas podem e serão utilizadas para reforçar as narrativas de oposição. Há um valor simbólico particular para um dos campos da polarização em minar o STF“, disse a cientista política à IstoÉ. Do lado governista, mesmo lideranças que se ergueram em defesa de Moraes em episódios anteriores, como nas sanções que o governo dos Estados Unidos impôs ao magistrado, estão em silêncio.