Caso Henry: defesa de Jairinho tenta anular laudos de necrópsia

Neste dia 8 de março faz cinco anos da morte do menino; padrasto e mãe da criança são acusados de terem cometido o crime

O ex-vereador Jairinho
O ex-vereador Jairinho Foto: Divulgação / TJRJ

A defesa do ex-vereador Dr. Jairinho, acusado de matar o enteado Henry Borel, tenta impedir que o Ministério Público utilize os laudos de necrópsia do menino perante o Tribunal do Júri, que está marcado para o fim de março. De acordo com os advogados, o perito oficial do caso teria modificado o documento após debater o caso com uma outra perita, que supostamente teria se disponibilizado a ajudar o pai do garoto, Leniel Borel, sob “anonimato”.

Leniel atua como assistente de acusação no processo e, para a defesa de Jairinho, a exibição dos laudos de necrópsia durante o julgamento pode torná-lo nulo.

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Indagados pelo jornal “O Globo”, o pai de Henry Borel, o Ministério Público e a Polícia Civil negaram qualquer adulteração nos laudos.

Em nota enviada à IstoÉ, Leniel Borel afirma que “repudia de forma absoluta qualquer insinuação de que eu tenha tentado interferir em perícias ou direcionar laudos no caso do meu filho”.

“Durante todos esses anos, a minha única atuação foi a de um pai devastado, mas determinado a buscar a verdade e a Justiça. Nunca tentei manipular prova e nunca atuei fora dos meios legais e institucionais. Causa indignação que, depois de quase cinco anos, esse tipo de alegação apareça justamente às vésperas do júri popular”, diz o posionamento de Leniel (ver a íntegra abaixo).

Neste domingo, 8, completam-se cinco anos da morte do menino, que faleceu após ser levado por Jairinho e pela mãe do garoto, Monique Medeiros, para um hospital particular na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.

Para a promotoria, na noite de 8 de março de 2021, Jairinho, Monique e Henry estavam em casa e o casal queria assistir a uma série na televisão. Por conta da dificuldade de colocar o menino para dormir, o ex-vereador o teria agredido, provocando uma hemorragia interna na criança. Já a mãe teria agido como “agente garantidora”, pois tinha conhecimento sobre as agressões e não fez nada para impedi-las.

A defesa de Jairinho sustenta que o casal encontrou o menino com dificuldades para respirar no quarto e o socorreu imediatamente. Ele teria chegado vivo ao hospital e os hematomas apareceram na criança após os profissionais de saúde realizarem manobras de ressuscitação.

No decorrer do processo, foram incluídas mensagens do celular do pai de Henry, enviadas dias após a morte do menino, as quais, segundo os advogados do ex-vereador, podem colocar em dúvida a credibilidade dos laudos de necrópsia que foram realizados pelo IML (Instituto Médico Legal).

Em 23 de março de 2021, quinze dias após a morte de Henry, Leniel entra em contato com a perita Gabriela Graça, legista da Polícia Civil do Rio, para pedir ajuda, que é aceita pela médica. Em seguida, ela diz ter entrado em contato com o advogado de Leniel e já estar trabalhando. No dia seguinte, diz que ficará “no anonimato”: “Não é bom eu aparecer. Vou evitar falar contigo também, tá?!”, escreveu a legista.

Por meio de áudio enviado a Leniel pelo seu advogado, o profissional confirmou que “fechou com a Gabriela” e que ela estava “disponível” para ajudá-los, já tendo passado as “orientações” para a perita escrever.

O laudo de necrópsia foi atualizado seis vezes pelo médico legista Leonardo Huber Tauil, responsável pelo caso no IML, em mudanças feitas até 45 dias depois da morte. Durante depoimento em juízo, ele afirmou que realizou algumas alterações após conversar com outros peritos legistas do IML, entre eles Gabriela Graça.

“Pedi ajuda para debater as razões e poder afirmar com mais segurança”, relatou em Audiência de Instrução e Julgamento do caso no Tribunal do Júri.

Cremerj investiga conduta de legista

Os advogados alegam também que ele confirmou em juízo “que poderia ter sido mais detalhista” nos laudos, afirmou não saber a origem das fotos do corpo que foram juntadas ao processo e que se desfez das anotações pessoais do caso.

Por conta disso, a defesa do ex-vereador abriu representações contra o legista na Corregedoria da Polícia Civil e no Cremerj (Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro), solicitando que a conduta de Tauil no caso seja investigada.

O conselho instaurou uma sindicância para apurar os fatos e informou que o “procedimento corre em sigilo”, conforme os ritos obrigatórios do Código de Processo Ético-Profissional da categoria.

Para o promotor Fábio Vieira, essa é mais uma tentativa da defesa de Jairinho de tumultuar a ação, algo que vem fazendo desde o início do processo.

“O Ministério Público não visualiza qualquer irregularidade na condução dos atos processuais. O que se verifica, em verdade, é que o pai da vítima buscou, por todos os meios disponíveis, que as autoridades públicas atentassem para os fatos que vieram a constituir o presente processo”, disse.

Leia a nota de Leniel Borel na íntegra:

“Como pai do Henry, eu repudio de forma absoluta qualquer insinuação de que eu tenha tentado interferir em perícias ou direcionar laudos no caso do meu filho.

Durante todos esses anos, a minha única atuação foi a de um pai devastado, mas determinado a buscar a verdade e a Justiça. Nunca tentei manipular prova e nunca atuei fora dos meios legais e institucionais.

Causa indignação que, depois de quase cinco anos, esse tipo de alegação apareça justamente às vésperas do júri popular. Para mim, isso tem todo o aspecto de mais uma tentativa da defesa de tumultuar o processo, confundir a opinião pública e criar um factóide para tentar adiar o julgamento.

Confio no trabalho das instituições, na atuação das autoridades e no crivo do Tribunal do Júri. Meu compromisso continua sendo com a verdade, com a memória do meu filho e com o devido processo legal”.