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Casamento fisiológico

Com Ciro Nogueira na Casa Civil, Bolsonaro quer barrar o impeachment, conter a CPI da Covid e garantir a sua reeleição. Vai apenas fortalecer o Centrão, grupo que deseja controlar a economia e o Orçamento, podendo abandonar o mandatário em 2022

Crédito:  Isac Nóbrega

CELEBRAÇÃO Ciro Nogueira e Jair Bolsonaro na inauguração de ponte sobre o Rio Parnaíba (PI): união conveniente para os dois (Crédito: Isac Nóbrega)

No xadrez, o sacrifício da rainha é um movimento arriscado. Quando o jogador deseja ousar para obter uma vantagem futura, ele abre mão da dama, a peça de maior valor. Bolsonaro não entende nada do jogo, mas acaba de praticar essa manobra. Antes de sofrer um xeque-mate, cedeu o posto mais estratégico do governo, a Casa Civil, ao líder do Centrão, Ciro Nogueira. Ao entregar a “alma do governo”, como ele mesmo disse, quis afastar o risco de perder o cargo, que cresce com as revelações da CPI da Covid, e pavimentar o caminho para a reeleição, cada vez mais improvável. Já o Centrão saiu em larga vantagem. Desde que foi criado, na época da Constituinte, o grupo fisiológico nunca teve tanto poder. Presidente do PP, Ciro Nogueira chegou ao ápice de sua carreira e fará a articulação política do governo com o Congresso, além de ter controle sobre os ministérios. Decidirá, por exemplo, sobre todas as nomeações, incluindo estatais. Estará em posição privilegiada para mandar no Orçamento e na própria política econômica.

EM BAIXA O general Luiz Eduardo Ramos perdeu a cadeira e Paulo Guedes cedeu a pasta do Trabalho (Crédito:Adriano Machado)

“Chegamos ao fundo do poço e continuamos cavando. É o caos. Não tem como dar certo” Alvaro Dias, líder do Podemos

Para o presidente, o maior problema desse casamento é de imagem. Colocar o PP no coração do Planalto significa entregar a chave do cofre à legenda que esteve no centro dos escândalos do Mensalão e do Petrolão. Nogueira, implicado no esquema do “quadrilhão do PP”, é alvo de cinco inquéritos criminais, apesar de negar qualquer malfeito. Representa a negação da bandeira que elegeu Bolsonaro, a de enterrar o “toma lá, dá cá”. É exatamente o que se espera do novo ministro. Isso levou o mandatário a calibrar o discurso. Nas entrevistas que concede a rádios regionais para tentar recuperar a popularidade, ele se rendeu: “Eu sou o Centrão”. Reconheceu, tardiamente, sua origem no balcão de negócios do baixo clero no Congresso. Sobre os múltiplos processos dos seus aliados, também admitiu que é réu no STF. “Se tivesse de romper com políticos que são réus ou investigados, perderia metade do Parlamento”, afirmou, dando um cavalo de pau no mantra que sempre usou para sua base.

Há dúvidas se esse contorcionismo ideológico vai colar, especialmente no Congresso. Na visão de um senador, “acabar com a crença na nova política” pode terminar respingando na popularidade do presidente. “Chegamos ao fundo do poço e continuamos cavando. É o caos político. Vivemos um populismo corrupto, não tem como dar certo”, diz Alvaro Dias, líder do Podemos no Senado. Para o senador Fabiano Contarato (Rede), a tendência é de esvaziamento crescente da coalizão governista e de declínio na aprovação do mandatário. “Em pouco tempo, nem um PhD do Centrão terá como reverter.” Entre os congressistas, a ida de Ciro para a Casa Civil é vista como uma tentativa de o governo salvar a relação do Executivo com o Congresso. “É uma iniciativa para tentar organizar a situação no Senado”, afirma o ex-presidente da Câmara, Rodrigo Maia. “Bolsonaro fica cada dia mais dependente daqueles que tanto criticou”, dispara. Nos corredores do Senado, Ciro já ganhou o apelido de “primeiro-ministro”.

O novo chefe da Casa Civil disse a interlocutores que considerava a gestão da Casa Civil muito burocrática e que sua prioridade será mudar “o que não está funcionando”. Por isso, já faz um levantamento em diversas áreas do governo e pretende integrar os ministérios. Sua maior prioridade será criar um grande projeto de cunho social, que espera apresentar à cúpula do Congresso no início da próxima semana, antes da posse, marcada para quarta-feira. Com esse objetivo, reuniu-se com o ministro da Cidadania, João Roma, e discutiu o Bolsa Família repaginado. O novo programa, que pode se chamar Renda Cidadã ou Renda Brasil, deve ser sua marca visando viabilizar a recondução de Bolsonaro ao Planalto. A ideia é que comece a operar em novembro, com base em transferência de renda e também uma mudança no Programa de Aquisição de Alimentos (PPA). Habilidoso e conciliador, o senador piauiense também pretende melhorar a imagem do governo, estabelecendo pontes com o STF e o Congresso, na contramão da prática diária do presidente. Tera difculdades para executar essa empreitada, levando-se em conta o histórico do presidente.
Ciro tem dito que deseja “escutar mais do que falar”. Mas a sua chegada já trouxe alguns problemas para Bolsonaro. Provocou um racha na base de apoio, pois o PP abocanhou o principal posto no Planalto acumulando a presidência da Câmara (com Arthur Lira) e a liderança na Casa (Ricardo Barros). A demanda de outros partidos vai ser imediata, avalia um parlamentar, o que enfraquece Bolsonaro. Um senador aponta outros partidos do Centrão que “ficaram de fora”, como o Republicanos e o PTB. “Se derem o Ministério do Turismo para o PL, por exemplo, vão ter que arrumar espaço também para o Republicanos”, explica. De fato, alimentar o bloco será um desafio. O presidente ainda não conseguiu atrair o MDB e não tem o apoio do PSD, as legendas mais fortes no Senado. Para Gilberto Kassab, o objetivo do presidente é político-eleitoral, de olho na reeleição e para aparar as arestas com o Senado. Segundo o presidente do PSD, o comportamento errático na pandemia é uma das principais fontes de desgaste do governo, mesmo com a diminuição no número de óbitos. “Além disso, o governo se desgastou muito com a economia”, afirma. Ao implementar projetos de cunho eleitoral, que gerem mais emprego e renda, Ciro procura modificar o desgaste no campo social, nas classes C, D e E. “Esse segmento perdeu muito e está numa situação difícil”, diz Kassab.

Um ponto fundamental será “desarmar a bomba” da CPI. A tropa de choque do governo, sob o comando de Onyx Lorenzoni, decidiu partir para o confronto com a cúpula da comissão, estratégia da qual Ciro discorda. “Como se negocia a favor do presidente se os apoiadores do Bolsonaro atacam todo dia? É constrangedor”, disse um interlocutor do senador piauiense. Além de não ter esse perfil, Ciro quis evitar atritos com senadores que são próximos a ele, como o relator, Renan Calheiros (MDB). Uma das principais missões vai ser trabalhar para desarticular o G7, grupo majoritário da CPI composto por senadores independentes e da oposição. Depois de Eduardo Braga ter abandonado o G7, senadores próximos ao novo titular da Casa Civil acreditam agora que Ciro vai tentar convencer Otto Alencar (PSD) e Tasso Jereissati (PSDB) a fazerem o mesmo. Outra tarefa será preparar o terreno no Senado para que André Mendonça seja aprovado para a vaga no STF. Pessoas próximas ao senador afirmam que ele avisou que “vai pegar Mendonça pelo braço” para fazer um périplo na busca por apoio. O pastor e ex-AGU precisa disso. Com a desarticulação do governo, ele corre mesmo o risco de não ser aprovado. Davi Alcolumbre, o presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, que virou desafeto do presidente, tem sido um dos principais obstáculos às pretensões de Mendonça, que tem sido visto vagando sozinho pela Casa, batendo em gabinetes.

Um dos principais objetivos de Ciro é ampliar a influência na Economia. Tudo começa pela recriação do Ministério do Planejamento, o que daria a chave do cofre do Orçamento. Os senadores Jorginho Melo (PL) e Eduardo Gomes (MDB) são os mais cotados para assumir essa pasta. Para conter esse movimento, o ministro da Economia sugeriu a recriação do Ministério do Trabalho, entregue a Onyx Lorenzoni (DEM), que cedeu o cargo na Secretaria-Geral para o general Ramos e pode abocanhar até 85% das verbas movimentadas atualmente pela pasta da Economia. Guedes está sendo vencido. A atual mexida confirma o desmonte do seu “superministério”. Outra medida discutida nos bastidores é a volta à Casa Civil do PPI, o estratégico programa de concessões e privatizações. Enquanto essas mudanças não se concretizam, o Centrão come pelas bordas. O grupo já tem o controle das emendas de relator e Ciro deverá destravar as negociações em torno do Fundo Eleitoral de R$ 5,7 bilhões, que pode ser cortado. “Os parlamentares que votaram no fundão vão querer uma compensação. Geralmente isso acontece em emendas. Ou seja, se ele estiver à frente do Orçamento, conseguirá fazer isso mais fácilmente. E essa pressão tende a ser grande, porque estamos perto das eleições de deputados e de um terço do Senado. Os candidatos vão colocar a faca no pescoço do Ciro e do Bolsonaro”, diz um senador.

A posse de Ciro também desaloja os militares, que têm servido de escudo ao presidente. A mudança envolve todo o Planalto. A primeira vítima foi o general Luiz Eduardo Ramos, que cedeu a cadeira para Ciro e foi deslocado para a Secretaria-Geral. Pego de surpresa pela mudança, ele disse que “foi atropelado por um trem”. Tentou até o último momento demover o presidente, mas foi derrotado. Depois de desancar o grupo fisiológico em forma de samba na campanha de 2018 (“Se gritar pega Centrão, não fica um, meu irmão”), outro general que está cada vez mais escanteado é Augusto Heleno, do GSI. Walter Braga Netto, que ocupou a Casa Civil e está atualmente na Defesa, é igualmente atingido. Ele virou alvo do Centrão antes mesmo da indicação de Ciro. O grupo comemorou discretamente o vazamento de sua ameaça às eleições de 2022, episódio que o deixou na defensiva. Sua intimação para explicar as declarações pelo Procurador-Geral, Augusto Aras, ampliou essa sensação de fragilidade. Mais que isso, o grupo fisiológico foi firme para descartar a volta do voto impresso, na contramão de Bolsonaro e seus generais. O próprio Ciro participou do grupo de 11 presidentes de partido que enterrou a proposta. Com os militares afastados do coração do poder, o papel deles, cada vez mais, passa a ser apenas tentar difundir o bolsonarismo nos quartéis. A avaliação de um general muito próximo a Bolsonaro é que esse afastamento vai criar um problema para o presidente. “Bolsonaro usa a presença deles para dizer que tem o apoio das Forças Armadas. A saída vai esvaziar esse discurso. Isso é péssimo. De quebra, o presidente vai ficar ainda mais na mão do Centrão, como era com o PT, que ele tanto criticou.” Bolsonaro não está deixando pelo caminho apenas esse grupo de sustentação. O destino dos militares é semelhante ao do núcleo ideológico, que já tinha sido varrido da Esplanada dos Ministérios com as demissões de Ernesto Araújo (Itamaraty), Ricardo Salles (Meio Ambiente), Abraham Weintraub (Educação) e Fábio Wajngarten (Secom). Apenas Damares Alves (Ministério da Mulher) permanece em Brasília, mas enfraquecida.

Também há um objetivo eleitoral para Ciro. “Com essa manipulação ideológica, a reeleição vai se tornar uma disputa desigual. Candidatos vão ser inviabilizados por uma estrutura de governo que vai oferecer verbas para atender os interesses eleitoreiros do presidente e seus aliados”, reclama um congressista. Para um observador influente do Congresso, Ciro é um político que tem uma atuação muito parecida com a do próprio Kassab. Sempre procura atrair mais gente para o partido dele. Com o atual movimento, está fazendo exatamente isso: atrair quadros para o seu partido para, depois, repartir as fatias do bolo dos recursos do Fundo Partidário e Eleitoral. “Ao mesmo tempo que ele está chegando no governo, também tenta filiar ministros no PP e atrair o próprio presidente para a legenda. O Bolsonaro precisa de uma estrutura partidária forte para disputar as eleições em 2022, principalmente no Nordeste, que é uma das regiões em que é mais vulnerável. Se todo mundo que o Ciro conseguir filiar for disputar a eleição e vencer, aumenta o número de aliados do presidente nos Estados. A ideia do Ciro é justamente essa: fortalecer o seu partido para ter cada vez mais acesso ao dinheiro dos fundos.” Na visão dele, Ciro vai comer pelas beiradas no começo e “cobrar a fatura de Bolsonaro” depois.

A ascensão reafirma o talento de “camaleão” de Ciro. Líder do PP desde 2013, ele era próximo do falecido deputado Severino Cavalcanti, o “rei do baixo clero”, que tentou emplacá-lo no Ministério das Comunicações em 2005, durante o governo Lula. Antes de aderir ao bolsonarismo, o senador apoiou o PT no Piauí, com o qual rompeu para tentar a eleição a governador pelo Estado, em 2022. Agora, Ciro disse que abortou esse projeto. Ele evita reivindicar a posição de vice de Bolsonaro na campanha do próximo ano, mas não nega que esse é um sonho. Tem dito que há outros na fila. Após azeitar a aproximação do Centrão com o presidente no ano passado, ganhou o apelido de “05”. A conversão ainda lhe causa constrangimentos, já que era um dos maiores apoiadores de Dilma Rousseff e Lula (“melhor presidente da história”) e não economizou críticas a Bolsonaro (“fascista, preconceituoso”). Mas a aproximação ao atual governo desde o ano passado já rendeu frutos. Foi um dos patronos da indicação do juiz Kássio Nunes Marques ao STF.

“Bolsonaro tenta organizar a situação no Senado. Fica mais dependente daqueles que tanto atacou” Rodrigo Maia, deputado

PRÊMIO Onyx Lorenzoni vai para o Ministério do Trabalho e deve abocanhar até 85% das verbas da Economia (Crédito:Aloisio Mauricio)

Apesar de Bolsonaro e Ciro terem comemorado o casamento, essa manobra pode não dar certo. O líder do Centrão já virou alvo das milícias digitais bolsonaristas por sua articulação contra o voto impresso, e outros ministros de Bolsonaro foram “fritados” pelos próprios aliados até perderem o cargo, como o general Santos Cruz, Gustavo Bebianno, Sergio Moro e Regina Duarte. Há a própria imprevisibilidade do presidente, que tem comportamento errático e um histórico de deslealdade com antigos aliados. Mais do que isso, há o receio pelos problemas que Ciro enfrenta na Justiça e que podem ser potencializados. Com sua indicação, já veio à tona a informação de que o político é cobrado em R$ 17 milhões pela Receita Federal por suspeita de sonegação e lavagem de dinheiro.
Bolsonaro também se arrisca. Ciro é do mesmo partido de Lira, que tem na sua gaveta 130 pedidos de impeachment. Se o mandatário romper com o novo titular da Casa Civil, pode despertar a retaliação do presidente da Câmara. Ou seja, Bolsonaro ficou ainda mais refém do Centrão. E pode estar repetindo erros de seus antecessores. Quando também estava perdendo sustentação, Dilma Rousseff tentou como manobra desesperada a nomeação de Lula para a Casa Civil. Como se sabe, essa ação foi frustrada e abreviou a sua queda. Antes disso, tentou transformar Michel Temer no seu coordenador político, o que se provou mais um monumental tiro no pé. Roberto Jefferson, ex-líder da tropa de choque de Fernando Collor, compara o momento atual com o colapso do ex-presidente nos anos 90. Naquela época, Collor recriou a Secretaria de Governo para abrigar o PFL, visando conter o impeachment. Mas ficou ainda mais dependente do Congresso, acelerando seu afastamento. Na visão do presidente do PTB, Ciro vai representar o mesmo papel. Alheio à crise, o novo ministro tem dito que “o Brasil precisa de esperança”. É possível que esteja correto. Sem saber, Bolsonaro pode estar acelerando seu próprio fim.