Carta à sra. Xuxa

Respeito a apresentadora, atriz e cantora senhora Maria da Graça Xuxa Meneghel. Não há dúvida de que se trata de uma pessoa essencialmente do bem. E já adianto que a crítica a uma de suas recentes falas, que exporei abaixo, em nada diminui tal respeito.

A senhora Xuxa Meneghel se posiciomou contrária à utilização de animais em testes de medicamentos e cosméticos. Eu endosso a sua tese.

Não endosso, no entanto, sequer em uma vírgula, a solução dada por ela — solução inconstitucional e antiética.
A senhora Xuxa Meneghel propos o seguinte:

“Eu tenho um pensamento (…) pode parecer desumano (…), existem (…) pessoas (…) que estão pagando seus erros num ad aeternum para sempre em prisão, que poderiam ajudar nesses casos aí, de pessoas para experimentos, sabe?”. Em um País, como o nosso, em que as cadeias são locais de drogas, celulares, tuberculose, crime organizado, sarna, pele e osso, nas quais ainda se espalha a cultura da vingança e não da ressocialização e profissionalização,
a proposta da senhora Xuxa Meneghel afronta a dignidade de encarcerados, em particular, e a dignidade da condição humana, em geral, no âmbito físico e espiritual.

Se a população carcerária é esquecida, apodrece e morre nas cadeias, sobretudo as pretas e os pretos, as pobres e os pobres, as desdentadas e os desdentados, as enfermas e os enfermos, deve-se cobrar do Estado uma atuação mais decente. Mas jamais transformar sentenciado em cobaia! Jamais!

A senhora Xuxa Meneghel deveria visitar, de surpresa, instituições prisionais. Fica aqui a sugestão. Ponho-me a refletir quão triste ficaria uma das minhas melhores amigas, advogada criminal brilhante, que já partiu em decorrência da enfermidade degenerativa denominada esclerose lateral amiótrofica, diante de tal proposta. Sobre essa amiga, que acompanhei pessoalmente do primeiro sinal de sua doença até o adeus, os colegas diziam ser dona de um dos mais originais pensamentos como operadora do Direito, sempre nos contornos da
ética e do Devido Processo Legal.

Ela defendia, de graça, presos miseráveis ou injustiçados — e, muitas vezes, também de graça, gente rica. Amava corrigir injustiças. A senhora Xuxa Meneghel já se desculpou pelo que disse, mas não tenho dúvidas de que adeptos da teoria criada pelo cientista inglês Francis Galton se aproveitarão de sua fala. Eu, de minha parte, continuo respeitando a senhora Xuxa Meneghel, não vou cair no jogo fácil da raiva tão cultivada nesse momento de extremismos predatórios que solapam o Brasil. Na democracia e no Estado de Direito, que defendo com convicção, há o diálogo, não o anátema. Tem a apresentadora o direito de dar a sua opinião. Eu tenho, igualmente, o direito de discordar e criticar.


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