Edição nº2577 17/05 Ver edições anteriores

Carolyna, mão de Jaca

Foi no Rio de Janeiro, na Praia do Leblon, na venda da Vanda, bem na frente do posto 12, domingo passado, dia de mar bravo e sol quente, QUE tudo aconteceu.

Bem no meio da bagunça de águas de coco, polvilhos Globo, jogadores de vôlei e futebol, candidatas a sereia, moleques e periguetes; milhares se acotovelando por uma nesga solarenga de areia, que a amiga da amiga me apresentou a chef. Confuso? Também eu. Mas tudo ainda vai melhorar.

Estava tomando sol, sorvendo o fresquinho da água por um ambiental canudinho de papel quando a Carolyna chegou. Vinha cansada porque correu a quase maratona da manhã. Carioca não perde uma oportunidade de sair correndo, né? E sentou pesada numa cadeira de encosto chamando por água, sombra e descanso.

A amiga da amiga, agora já mais amiga, falou: Oi Zé, esta é a Carolyna. É uma chef gourmet muito especial aqui no Rio e está inovando com uma gastronomia super sustentável. Ela reinventou uma receita portuguesa: o Jacalhau.

Jacalhau. E aquela palavra ficou ressoando na lassidão da praia como uma reminiscência ancestral. Por instantes a muvuca carioca emudeceu e até as ondas da Guanabara viraram cinema mudo. J a c a l h a u.

A Carolyna explicou. A Jaca é uma fruta de pobre que nem os pobres querem, mas que na verdade tem um potencial gastronômico verdadeiramente internacional. Tão internacional que faz as vezes de bacalhau. Jacalhau com Natas; Jacalhau à Braz; bolinho de Jacalhau, and so on, um verdadeiro compêndio de Portugal à mesa.

Parabenizei Carolyna, falei que achava lindo (e até um pouco estranho) que hoje, todo o mundo no Brasil estivesse fazendo pontes com a “terrinha” e “amando Portugal”, quando nem três anos atrás, ninguém estava nem aí para a Lisboa e seus arredores. Era um sinal dos tempos. Falei até que uma grande amiga minha tinha passado a infância escondendo os sobrenomes portugueses para não xingarem ela na escola. E falei o nome alto. Raquel Camargo Mendes Pereira. Só usava Raquel Camargo.

Aí o astral subiu e os anjos desceram sobre a praia. Fala outra vez! Disse a chef, em êxtase longo. Raquel Camargo Mendes Pereira, repeti. É a minha prima! Filha da dona Rita, irmã do André e da Inês.

Afinal a Chef era Família. Prima! E o jacalhau não apenas fiel, mas um ancestral amigo.

A chance destas coincidências acontecerem é muito pequena e ainda menor de acontecerem com a gente. Mas quando acontecem ficamos meditando profundamente.

Será que são apenas coincidências, chacras se alinhando, candomblés de Iemanjás, coisas sobrenaturais sem justificação nas leis da ciência ou apenas um sinal claro de que a relação do Brasil com Portugal, dos brasileiros com os portugueses, está mudando para sempre? É que quando Jaca vira Bacalhau isso é no mínimo um sinal divino.

Terminamos esse dia mágico na casa da prima chefe degustando o Jacalhau de todas as formas e feitios. À Braz, com Caril, de strogonoff e até com rebentos de bambu. A mão gastronômica da prima é tão grande quanto a sua generosidade.

Uma verdadeira mão de Jaca.


Sobre o autor

José Manuel Diogo é autor, colunista, empreendedor e key note speaker; especialista internacional em media intelligence,  gestão de informações, comunicação estratégica e lobby. Diretor do Global Media Group e membro do Observatório Político Português e da Câmara de Comércio e Indústria Luso Brasileira. Colunista regular na imprensa portuguesa há mais de 15 anos, mantém coluna no Jornal de Notícias e no Diário de Coimbra. É ainda autor do blog espumadosdias.com. Pai de dois filhos, vive sempre com um pé em cada lado do oceano Atlântico, entre São Paulo e Lisboa, Luanda, Londres e Amsterdã.


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