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Carnaval: fantasias, abusos e respeito

No século 16, venezianos endinheirados adotaram o costume de se misturar ao povo durante o carnaval. Para que pudessem se esbaldar anonimamente, nobres e burgueses preservavam suas identidades cobrindo os rostos com máscaras. O tempo passou e a tradição iniciada no Renascimento ganhou o mundo, evoluindo para fantasias – de pierrô, colombina, pirata, Lula presidiário… É sintomático que fantasia, palavra tão associada às vestimentas alegóricas usadas nos desfiles e bailes, também signifique sonho, desejo, fetiche – e forme a expressão que traduz caprichos da imaginação erótica: fantasia sexual. Embora não sejam exclusividade do período carnavalesco, fantasias sexuais encontram na liberalidade típica dos foliões um clima propício para se consumar. A maior exposição do corpo, a catarse provocada pela música e o excesso de álcool se somam para abolir os limites do tolerável e criar a sensação de que tudo é permitido no reinado de Momo. Não é, mas as estatísticas mostram que casos de assédio, violência física e psicológica vêm aumentando a cada período carnavalesco.

No ano passado, enquanto ativistas condenavam o teor supostamente machista e racista das marchinhas que fizeram a alegria das multidões antes de o politicamente correto estragar a festa, um movimento muito mais urgente e necessário tentava ocupar as ruas. Se todos os dias milhares de mulheres são vítimas de algum tipo de violência sexual no Brasil, as estatísticas evoluem de maneira brutal no período carnavalesco. Para reagir aos assédios e abusos, um grupo de mulheres criou um canal seguro para as vítimas em Olinda e Recife. A campanha #AconteceuNoCarnaval distribuiu fitinhas semelhantes às do Senhor do Bonfim com um número de telefone para acolher denúncias. Foram 60 queixas em 2017. Agora, a iniciativa chega a outras cidades, que não apenas divulgam o número 180 (exclusivo para registros de violência, assédio ou abuso) como espalham frases educativas. Em Juiz de Fora, a Câmara Municipal distribui panfletos bem-humorados que vão direto ao ponto. Um deles traz impressa a frase “Ela chapou os coco e tá doidona? Aproveite… para ajudar e ser um cara legal”, seguida da advertência: “Sexo sem consentimento é estupro. E estupro dá cadeia”.

Ao mesmo tempo em que as marchinhas com letras preconceituosas começam a cair em desgraça, surgem as adaptações de clássicos do passado para os tempos atuais. O samba “Eu fiz tudo pra você gostar de mim”, imortalizado por Carmem Miranda na década de 1930, agora é cantado com os seguintes versos: “Taí, eu saí só pra curtir o carnaval/ Veja bem, não venha com mão boba não/ Você tem, você tem que entender que não é não”.

“Taí, eu saí só pra curtir o carnaval/ Veja bem, não venha com mão boba não/ Você tem, você tem que entender que não é não”

 

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