Capitão, pegue o quepe e vá embora

Crédito: Montagem sobre fotos por Iézio Júnior montagem sobre Foto: Jorge William

(Crédito: Montagem sobre fotos por Iézio Júnior montagem sobre Foto: Jorge William)


Com o atraso de uma eternidade de duzentos mil mortos, a Anvisa aprovou a requisição da Fiocruz para importação excepcional de dois milhões de doses da vacina produzida pela Universidade de Oxford em parceria com o laboratório AstraZeneca. Fez isso ao apagar das luzes do ano que se acabou, não as luzes de Natal porque essas mal se acenderam, mas ao apagar das luzes como forma de expressão daquilo que em vida aprendemos a chamar de tempo — sobretudo quando se está sob a perspectiva do vírus e da morte a um milímetro das narinas. O ato da Anvisa é sinal de que finalmente a vacinação vai deslanchar no Brasil por parte do governo federal? Não, claro que não, mas é vital que conservemos um fio, o mais tênue fio de esperança para não enlouquecermos de vez — fio que não sai da meada do Planalto, porque Jair Messias Bolsonaro é a antiesperança, mas, sim, fio que há em nosso inato espírito de sobrevivência. Não se trata do “otimismo tolo” nem do “pessimismo chato”, mas do “realismo esperançoso” que compõem o sábio ensinamento deixado pelo dramaturgo Ariano Suassuna. O problema é que, na estrada desse realismo, tem a pedra da burocracia da Anvisa, tem a pedra da inoperância do Ministério da Saúde, tem a pedreira, bruta e fria, de Bolsonaro. Os brasileiros de boa-fé e boa vontade dormiram na noite de 31 de dezembro sob o signo da estupidez, malevolência e iniquidade de Bolsonaro; acordaram no 1 de janeiro sob idêntico signo, e só não podemos dizer que o presidente ultrapassou todos os limites, nos últimos dias, porque iniquidade, malevolência e estupidez não têm fronteiras. Cerca de cinquenta países, mais de um quarto dos existentes, já imunizam suas populações. E, aqui, esparrama-se a erva daninha da inépcia das autoridades federais na área da saúde. O número de óbitos está alto e subirá ainda mais quando os incautos turistas retornarem das praias, mas Bolsonaro anda mais interessado em elogiar torturadores e cobrar que Dilma Rousseff exiba o raio-X de sua mandíbula fraturada sob suplício pela ditadura militar. Como se sabe, o torturador da ex-presidente foi o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, quando chefe do Doi-CODI do II Exército, em São Paulo. Era disso que Bolsonaro falava recentemente enquanto o número de mortes no País saltava 64% no dia 30 de dezembro. Como se vê, o fio de esperança ainda é mesmo fio d’água. É isso: o lúgubre e lôbrego Bolsonaro é de fato a antiesperança.

O escritor francês Antoine de Saint-Exupéry definiu magistralmente o futuro: “Não é um lugar para o qual se está indo; é um lugar que se está construindo”. Sob o comando de um capitão que tem o demagógico populismo como estratégia política e o negacionismo como idiossincrasia do temperamento, é visível que não se está construindo futuro algum no País. O mais humilde dono da mais humilde lojinha da mais humilde esquina sabe o que é a lei da oferta e da procura. Pois bem, o “Mito”, que só pode ser mito para ignorantes, não a conhece. Vacinas? Os laboratórios é que têm de vir a seus pés, jamais eles caminharem atrás de imunizantes para salvar os brasileiros.

Essa foi uma de suas frases lapidares nesse começo de janeiro. Desconhece, o grande “Mito” (só rindo), o princípio que diz: quando a procura é muito maior que a oferta, quem quiser determinado produto é que terá de se mexer. O desengonçado Bolsonaro tem pés empacados, pés que só se movimentam para sapatear sobre a dor daqueles cujas famílias esvaziaram porque vidas se esvaíram. O “Messias” não sofre, não: caiu no mar na cidade do litoral paulista de Praia Grande e, na água, causou aglomeração. E ironizou: “Mergulhei de máscara para não pegar Covid nos peixinhos”. Bolsonaro nada em um mar de mortos no País. Mais: enquanto o ministério do general Eduardo Pazuello e a Anvisa do contra-almirante Antônio Barra Torres expunham pela primeira vez à população o ridículo de terem esquecido de comprar seringas e agulhas, numa demonstração do quanto o Brasil se desmancha, Bolsonaro apunhalava a Nação na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). A questão das seringas e agulhas esbugalha o desdém, o descaso, a irresponsabilidade, o total e abrangente desgoverno que toma conta do Brasil. Está-se falando há um ano sobre um vírus letal e que a vacinação é a única chance de derrotá-lo. Para os mandões federais, no entanto, seringas e agulhas para quê? Foi tamanha a pancada em nossa cara, que Bolsonaro decidiu cortar a exportação desses insumos. Providência tardia, lerda, inútil. Providência de néscio e asselvajado.

Agora, vamos à LDO: Bolsonaro vetou a proibição imposta pelo Congresso de bloqueios e contingenciamentos de recursos destinados à saúde e combate ao coronavírus. Faz isso no momento em que a área da saúde mais carece de dinheiro — é coisa de gente ruim. O Planalto justificou com a baboseira de que a Constituição já prevê o não contingenciamento e, portanto, seria chover no molhado deixar tal item na LDO. Desculpa esfarrapada, e tanto é assim que outros pontos também já constantes na Constituição não foram vetados. Não se alterou uma vírgula na esfera da defesa: esse ministério poderá contar com a dinheirama que quiser para a construção de um submarino nuclear. Bolsonaro agiu como o bombeiro alucinado que manda cortar a água no momento de apagar o fogo. É indene de dúvidas que essas ações que causam espetáculo e deixam a plateia estupefata têm um destino pouco digno, mas o têm: ir desviando, cada vez mais, a atenção da população diante das falcatruas nas quais dois de seus filhos estão apantanados; ir desviando a atenção do show de horror de um desgoverno — e já se foi o primeiro tempo dessa partida de várzea de gestão. Os parlamentares podem derrubar os vetos do presidente, mas, para isso, precisam esquecer os conchavos visando à eleição dos novos presidentes das Casas e se concentrarem na dor da Nação. Aqui morre-se, fácil, fácil, de Covid; aqui morre-se, fácil, fácil, de fome: hoje são quatorze milhões de desempregados. O mandatário, com seu mecanismo psicológico projetivo, culpa os próprios desempregados pela situação: “Parte dos brasileiros não tem preparação para fazer quase nada”.

Fazendo tudo aquilo que seu mestre manda, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, acaba de criar a expressão “covidismo” – e, assim, com estultices, isola ainda mais o Itamaraty do restante do mundo. A insensatez é tamanha que ele ainda se dá ao luxo de explicá-la: “quando você compra a biopolítica do ‘fique em casa’, talvez você esteja ajudando o narcotráfico”. Fez sentido? Nenhum! Não se apoquente: o ministro Ernesto não tem pés nem cabeça. Deixemos agora Ernesto em seu porão no edifício dos intelectuais e fiquemos, no último andar, com o economista e cientista político nipo-americano Francis Fukuyama. Em 1989 ele publicou o seu famoso artigo “O fim da História?”, criando a polêmica teoria de que chegara ao término a evolução sociocultural da humanidade diante da formação de diversas democracias liberais e do renascimento do liberalismo econômico, tudo isso em decorrência do desmoronamento do totalitário e horroroso bloco comunista. Fukuyama nem errou nem acertou, a questão está no ar, mas houve retrocessos nas próprias democracias e o Brasil de Bolsonaro serve de exemplo. Bolsonaro fez crescer o Estado patrimonialista e (saindo-se agora do campo da saúde) tal estilo de governar atinge em cheio outros setores — sobretudo o da educação, como mostra Fukuyama em “Political order and political decay”. A teoria veste feito luvas no capitão: ao estabelecer os vetos na LDO, cuidando de interesses particulares como se o Estado fosse seu quintal, além do contingenciamento das verbas da saúde ele colocou também no prego o dinheiro destinado à educação, escangalhada em sua administração. Lógico que o “Mito” jamais leu Fukuyama e, se o lesse, não o entenderia. Negacionista e protetor de corruptos que é, Bolsonaro não teria mandado Antoine Laurent-Lavoisier para a guilhotina por corrupção, como o fez a Revolução Francesa, mas, sim, por ter sido ele um dos cientistas mais fenomenais da humanidade (“na natureza nada se cria e nada se perde, tudo se transforma”). O capitão também não chega sequer aos pés da estatura intelectual de Lavoisier. Ficou claro, então, que só nos resta mesmo o fiozinho de esperança do qual se falou no início desse editorial, importante para a nossa luta psíquica e física pela vida, luta contra o vírus da pandemia, luta contra o vírus do governo federal. Dá-nos alento um trecho de um poema de Kathleen O’ Meara (1869): “e na ausência de pessoas que viviam de maneiras ignorantes, sem sentido e sem coração, a Terra começou a se curar”. O Brasil se cura da Covid e das mazelas sociais, econômicas e políticas se o ausente for Bolsonaro. Ele declarou que “o Brasil está quebrado; eu não consigo fazer nada”. Pois bem, capitão, é hora de ir embora. É hora de renunciar. Em nome da nossa cura, é hora de pegar o quepe e partir para o ostracismo público e político.

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