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Capitão América

O roqueiro Jon Bon Jovi troca os palcos pelos projetos sociais e lança um álbum inspirado nas grandes mazelas dos EUA

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Jon Bon Jovi, de 59 anos, não é super-herói, mas também quer ajudar a América a se livrar de seus vilões. Enquanto colegas famosos aproveitavam a quarentena para fazer lives direto de suas luxuosas mansões, ele e a mulher, Dorothea, arregaçaram as mangas e investiram nos projetos sociais de sua ONG, a JBJ Soul Foundation. O músico também usou o período afastado dos palcos para finalizar o novo álbum, “2020”, bela coleção de canções com letras inspiradas nas grandes mazelas americanas. Nas horas vagas, ajudou na campanha que elegeu o presidente democrata, Joe Biden.

A ligação de Bon Jovi com a filantropia é antiga. Voltada para as áreas de habitação e alimentação, sua ONG foi fundada em 2006, bem antes da chegada do coronavírus. Os projetos incluem a construção de casas populares para moradores em situação de rua e o fornecimento de alimentação gratuita em três restaurantes comunitários batizados de “Soul Kitchen”. Com a pandemia, a fundação montou um banco de alimentos que atendeu a cinco mil pessoas por mês e reduziu a crise de abastecimento na região de Long Island, perto de Nova York, onde o casal tem casa de veraneio. O roqueiro e a mulher chegaram a trabalhar diariamente no local. “Enquanto alguns doam dinheiro e dizem ‘olha como sou legal’, nós preferimos nos dedicar durante mais de seis meses”, conta à ISTOÉ.

“Ainda estou me recuperando de uma lesão no ombro e da cirurgia de hérnia que desenvolvi por carregar muito peso e passar horas em pé lavando pratos. Colocamos a mão na massa.”

Novo álbum

Um dos músicos mais bem sucedidos da história, Bon Jovi não se dedica atualmente apenas a projetos sociais. O álbum “2020”, produzido por John Shanks, é o primeiro lançamento de sua banda desde 2016. Além de abordar problemas como a divisão política dos EUA e os tiroteios em massa, as canções foram inspiradas pela crise sanitária, a morte de George Floyd e o forte apoio ao movimento “Black Lives Matter”.

‘Tive a ideia para ‘Do What You Can’ enquanto servia refeições no Soul Kitchen”, conta Bon Jovi. Com uma mensagem positiva e emocionante, a música acabou virando uma espécie de hino de superação da pandemia. “Embora eu mantenha a distância social / O que o mundo precisa é de um abraço / Quando você não pode fazer o que tem de fazer/ Você faz apenas o que pode”. Acostumado a turnês mundiais e estádios lotados, o artista admite que não sente falta das viagens em si, mas do contato direto com os fãs. “Estou frustrado porque ainda não pude ver a reação do público às novas canções”, diz. O problema deve acabar apenas em 2022, quando a banda voltar às turnês – isso, claro, se os vilões deixarem.

ENTREVISTA • Jon Bon Jovi
“Não preciso virar político para ajudar os EUA”

O ano passado é para ser esquecido. Por que você usou 2020 para batizar o álbum?
Quando começamos a gravar, em 2019, a ideia era usar “20/20”, expressão médica que significa “visão perfeita”. Como passamos por mudanças, a exemplo da saída do guitarrista Richie Sambora, a “visão perfeita” representaria o sentimento de que estávamos no caminho certo.

Também era um ano de eleições nos EUA.
Sim, era uma mensagem de duplo sentido. Mas outros temas começaram a ganhar força, como tiroteios em massa e a divisão política do país. O álbum tomou outro rumo.

E daí veio a pandemia.

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Interrompemos as gravações e cancelamos a turnê. Quando George Floyd foi morto e a Covid-19 fechou o mundo inteiro, decidi reescrever as letras. O sentido inicial de “visão perfeita” mudou completamente.

A canção “Story of Love” é sobre sua família. Como a pandemia afetou as relações com seus filhos?
Foi um dos episódios marcantes de 2020: todos nós passamos mais tempo com nossas famílias. Admito que eu não era tão próximo dos meus quatro filhos como sou hoje, embora achasse que era. Passar o lockdown junto me fez compreender melhor quem eles são.

Como considera o rock hoje? Muita gente acha que o estilo tornou-se parte do sistema e perdeu a rebeldia.
Quando eu era criança e ouvia Beatles e Rolling Stones, o rock era rebelde. Mas o que significa isso hoje? Eu via meu pôster do Led Zeppelin e sonhava: “quero ser mais famoso que eles”. É triste, mas o mercado da música mudou muito.

O ator Ronald Reagan foi presidente dos EUA. Não está na hora de um músico ocupar esse cargo? Você já está com cara de presidente.
Eu? Um presidente de jaqueta de couro que passa o dia dando entrevistas em um belo apartamento em Nova York?

Você está parecido com Bill Clinton, mas mais jovem.
Bill Clinton é muito mais um astro do rock que eu. Posso fazer mais com meus projetos sociais do que pedindo apoio em Washington ou arrecadando dinheiro para uma campanha. Não preciso virar político para ajudar os EUA.

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