Cantù e o soneto 116

A maioria dos países carrega mentiras em sua história — e o Brasil não foge a essa regra. Muitas nações transformam tais mentiras em historiografia oficial, e, igualmente, nosso País não é exceção. As mentiras ficam, perpetuam-se seja qual for o establishment de plantão. As mentiras asseguram o status quo, e é aí que a porca torce o rabo — o que é mentira, a porca não torce nada não, a coitada já nasce com o rabo torcido. A mentira é o x do problema, e também isso é mentira, porque problema não tem x, quem tem x é equação. Vamos então a uma equação, a resposta certa está ao final desse artigo, e sei que o leitor não irá olhar a solução antes de tentar resolvê-la — pura mentira, o leitor vai rapidinho olhar a conclusão antes de quebrar a cabeça:

• Em uma bifurcação, um dia fica um homem que só fala verdade, em outro dia fica um homem que só fala mentira.
• Da bifurcação sai um caminho que leva à morte e outro que mantém a vida.
• Você não sabe qual dos homens está na bifurcação: se é o que mente ou o que diz a verdade.
• Que pergunta você faria a ele para se manter vivo? Você perguntaria qual o caminho que leva à morte ou indagaria qual é o caminho que mantém a vida?

Mas por qual motivo o signatário está com essa fixação em mentira? Confesso a vocês que de fato andei relendo nos últimos tempos o filósofo italiano Cesare Cantù, que no século XIX escreveu a monumental “Storia Universale”, obra que reúne setenta e dois volumes. Reli todos, mas isso é mentira, só reli mesmo o que fala que “a verdade não é o oposto da mentira”. Podem pensar nisso, leitores, e terão de pensar mesmo porque essa resposta não darei no pé do texto. Pois bem, não tinha eu como não pensar na mentira depois que um ex-ministro passou feito um raio pelo Ministério da Educação. Se queria entrar para a história, entrou. E pela porta giratória de um País no qual a decretação da República nasceu de uma mentira: deposto por Marechal Deodoro o Visconde de Ouro Preto da chefia do Gabinete Ministerial da monarquia, o republicano Benjamin Constant espalhou a mentira de que ocuparia
o cargo Silveira Martins. Deodoro não o tolerava porque Martins ficava “azarando” (na época dizia-se “arrastar uma asa”) a sua esposa. Deodoro foi à Câmara e decretou a República, que, assim, nasceu de uma mentira. Deu no que deu.

Eis agora a resposta da equação proposta acima: a pergunta que deve ser feita é “qual o caminho que leva à morte”. Se for o homem que fala a verdade, é só seguir o outro caminho, porque ele será verdadeiro em indicar a morte. Se for o homem mentiroso, é também só seguir o caminho que ele indicar, pois, como mente, indicará o caminho da vida. Se tudo o que eu disse não for verdade, então nenhuma palavra escrevi e ninguém nunca mentiu.

“A verdade não é o oposto da mentira” Cesare Cantù, historiador italiano

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