Câncer de pulmão: diagnóstico tardio eleva mortalidade

Estudo nos EUA mostra que quase metade dos pacientes com a doença não recebe cuidados essenciais, impactando a sobrevida

Câncer de pulmão: diagnóstico tardio eleva mortalidade

Um estudo nacional recente, publicado em maio no JAMA Oncology, revela que quase metade dos pacientes com câncer de pulmão nos Estados Unidos não recebe tratamento. A análise, que avaliou mais de 250 mil pessoas entre 2006 e 2021, destaca a grave realidade de diagnósticos tardios e a falta de acesso a cuidados essenciais para uma das neoplasias com maior mortalidade.

O que aconteceu

  • Quase metade dos pacientes com câncer de pulmão nos EUA não recebe nenhum tratamento contra a doença, evidenciando falhas no sistema de saúde.
  • Cerca de um terço dos diagnosticados morre em até 90 dias, e muitos não chegam a ser consultados por um oncologista.
  • O consumo de derivados de tabaco está associado a aproximadamente 85% dos casos no Brasil, onde o diagnóstico tardio também é um problema crônico.

O estudo populacional avaliou mais de 250 mil pessoas ao longo de 15 anos, entre 2006 e 2021, a partir de dados do Surveillance Epidemiology and End Results (SEER) e do Medicare, programa de seguro de saúde do governo dos EUA. Os indivíduos eram portadores de câncer de células não pequenas, o tipo mais comum de câncer de pulmão.

No Brasil, esse é o terceiro tumor mais comum em homens e o quarto em mulheres, sem contar o câncer de pele não melanoma, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca). É o que mais mata entre os homens e o segundo entre as mulheres. Cerca de 85% dos casos estão associados ao consumo de derivados de tabaco. A persistência do tabagismo, apesar da queda, ameaça as metas de saúde para 2030, mantendo o risco de doenças como o câncer de pulmão.

Qual a relação entre o tabagismo e o câncer de pulmão?

Embora esse tipo de estudo populacional não investigue as causas por trás dos achados, é possível apontar algumas possibilidades. “Não se sabe se é porque a doença era muito agressiva, se foi rapidamente fatal, se não houve tempo…”, especula o oncologista Gustavo Schvartsman, do Einstein Hospital Israelita. Também não fica claro se deixar de se tratar foi uma opção dos próprios pacientes.

Mas a pesquisa alerta para um problema comum: o diagnóstico tardio. “Às vezes, há uma demora no sistema de saúde para fazer todas as etapas do diagnóstico, referenciar ao oncologista e conseguir tratamento em tempo”, analisa Schvartsman.

Por outro lado, sabe-se que o câncer de pulmão demora a causar sintomas, por isso frequentemente é flagrado em estágios avançados. No Brasil, apenas cerca de 15% dos casos são diagnosticados em estágio inicial, quando a doença ainda está localizada e não se espalhou para outros órgãos. Quando o diagnóstico é feito em estágio inicial, a taxa de sobrevida em cinco anos é de 56%; quando é detectada mais tarde, esse índice cai para 18%.

Como o diagnóstico tardio impacta a sobrevida?

Segundo um documento com orientações para rastreio publicado por várias sociedades médicas brasileiras, um dos motivos para o atraso no diagnóstico é que nem sempre exames como a tomografia computadorizada estão facilmente acessíveis. Além disso, os tratamentos mais modernos, como a imunoterapia, que estimula o próprio sistema imunológico a combater a doença, e as terapias-alvo, em que drogas são direcionadas especificamente às células tumorais, dependem de avaliação das mutações presentes no tumor.

No Brasil, o diagnóstico em estágio inicial também é mais frequente em pessoas brancas que nunca fumaram, e a mortalidade cai quanto maior a escolaridade, mostra um estudo retrospectivo publicado na Revista de Saúde Pública. Os autores compararam dados sobre tabagismo, registros de câncer e distribuição da mortalidade da doença no país. Essa disparidade nos indicadores de saúde remete à discussão sobre fatores de risco para outras doenças graves, onde a idade e condições sociais também desempenham um papel crucial.

A importância do rastreamento para detecção precoce

“Acho que talvez o grande problema ainda seja um diagnóstico tardio e, possivelmente, falhas do sistema em conseguir levar esse paciente com suspeita inicial a um diagnóstico assertivo de forma rápida e precisa, para que tenha oportunidade e possa começar o tratamento caso queira”, avalia o oncologista. Celebridades como Andre Marques, que comemorou dois anos sem fumar, exemplificam a luta individual contra o tabagismo, que é um dos principais fatores de risco para o câncer de pulmão.

O rastreamento do câncer de pulmão — por meio do exame anual de tomografia de baixa radiação — deve ser feito em fumantes e ex-fumantes com 50 anos ou mais, com carga tabágica maior que 20 anos-maço (calculado a partir do número de maços fumados por dia pelo número de anos) e que tenham parado de fumar há menos de 15 anos.

Da IstoÉ com Agência Einstein.