O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, defendeu nesta quinta-feira (17), em discurso no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, o aprofundamento das relações entre seu país e a União Europeia (UE). Carney afirmou que uma eventual aliança entre o Canadá e o bloco europeu poderia servir de referência para outras democracias globais. A proposta visa à resiliência e à construção de uma ordem internacional mais justa e próspera.
Primeiramente, o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, propõe uma aliança Canadá-UE como modelo para democracias, focando em resiliência e não em dominação.
- A proposta abrange áreas como comércio digital, segurança energética com gás natural liquefeito (GNL) e hidrogênio, e cooperação científica e educacional.
- A iniciativa gerou debate político no Canadá e provocou forte reação do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que ameaçou impor tarifas.
Carney esclareceu que a proposta não tem como objetivo criar um novo bloco de poder para rivalizar com outras potências. “Não buscamos o poder de dominar os outros”, declarou, enfatizando que o foco é a busca por resiliência para proteger mercados abertos, soberania e integridade territorial das democracias.
O premiê canadense destacou que a combinação dos recursos e capacidades de Canadá e Europa poderia contribuir significativamente para uma ordem internacional “justa, estável e próspera”. Ele reiterou que “uma aliança entre o Canadá e a UE serviria como um farol para outras democracias”.
Mark Carney também fez menção ao escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe, citando sua visão sobre a contínua necessidade de preservar os valores democráticos. “Goethe compreendeu que os valores não se defendem sozinhos; a liberdade deve ser conquistada todos os dias”, afirmou.
Ao discorrer sobre os laços transatlânticos, o primeiro-ministro invocou o conceito de “afinidade eletiva”, originado da química e popularizado por Goethe, para descrever a atração intrínseca entre elementos diferentes. “O Canadá e a Europa não estão unidos pela geografia; estamos unidos por uma afinidade eletiva que é escolhida, renovada e, por isso mesmo, ainda mais forte”, explicou Carney.
Ele sublinhou a ideia de que “Juntos, o Canadá e a Europa são mais fortes” e expressou o interesse de Ottawa em se tornar o primeiro membro associado da União Europeia. Carney citou pesquisas que indicam um apoio majoritário dos canadenses a relações mais estreitas com o bloco.
Quais os pilares da aliança proposta?
Entre as áreas prioritárias para essa cooperação, o premiê destacou o comércio digital, o intercâmbio educacional e a colaboração em ciência e tecnologia. Carney defendeu a participação canadense em programas como o Erasmus Plus e em futuras edições do programa Horizon, focados em pesquisa e inovação.
Em seu pronunciamento, o primeiro-ministro também sublinhou o potencial do Canadá para fortalecer a segurança energética europeia e para consolidar cadeias de abastecimento de matérias-primas e produtos estratégicos. Carney mencionou a capacidade canadense de fornecer gás natural liquefeito (GNL) e hidrogênio em larga escala à Europa.
Ele também citou investimentos em infraestrutura portuária, tanto no Extremo Norte quanto na costa leste do país, para viabilizar essa colaboração. A proposta, conforme o premiê, permitiria ao Canadá expandir suas capacidades de processamento avançado, enquanto a Europa teria acesso a fontes confiáveis de energia e materiais críticos.
Aprovação política e reações internacionais
Em coletiva de imprensa ao lado da presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, Mark Carney informou que a proposta de criar uma aliança com a UE será submetida a um debate político no Canadá. “Naturalmente, haverá um debate no Canadá sobre a aliança com a UE”, disse o primeiro-ministro.
Ele acrescentou que uma votação no Parlamento canadense será necessária para formalizar a parceria. Os detalhes e contornos dessa colaboração, segundo Carney, deverão ser definidos durante uma cúpula agendada para o final de outubro.
Carney argumentou que uma cooperação mais estreita aumentaria a autonomia estratégica de Canadá e Europa, preparando-os melhor para eventuais choques econômicos, comerciais e geopolíticos.
A possível aproximação entre Canadá e UE provocou uma reação incisiva do então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Ele declarou que poderia impor tarifas “muito elevadas” sobre produtos europeus ou até mesmo cortar relações comerciais com o bloco caso a proposta de associação canadense avançasse.
“Eu imporia tarifas muito pesadas sobre produtos vindos da Europa. Fazer isso só pioraria a situação”, afirmou Trump, que posteriormente classificou a proposta como “ridícula” e considerou-a um possível ato hostil.
Em resposta, a Comissão Europeia esclareceu que a iniciativa não era dirigida contra os Estados Unidos. Um porta-voz do órgão afirmou que, conforme havia explicado a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, o objetivo da parceria com o Canadá era o “fortalecimento mútuo”.
Mark Carney rebateu Donald Trump, salientando que “uma aliança é um processo positivo”. Ele argumentou que “um Canadá mais forte e resiliente é um parceiro mais eficaz também para os Estados Unidos, e o mesmo vale para a UE”.
Para o premiê, o processo de parceria “fortalecerá a soberania do Canadá”, pois “os canadenses já estão unidos. Ninguém lhes impõe um idioma, nem impõe restrições à cultura ou a parcerias”.
(Da IstoÉ com ANSA)
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