Campanhas recalibram estratégia após debate desgastante entre Lula e Flávio

Pesquisas qualitativas apontam rejeição à agressividade do candidato do PL e percepção de cansaço do presidente; indecisos seguem sem definição a cinco dias do segundo turno

Campanhas recalibram estratégia após debate desgastante entre Lula e Flávio

As campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) entraram na reta final do segundo turno revisando a estratégia para o próximo debate, marcado para sexta-feira (23), na TV Globo. O movimento ocorre após avaliações internas e pesquisas qualitativas indicarem que o primeiro confronto, realizado pela Band, frustrou parte dos eleitores indecisos.

O diagnóstico que circula entre aliados dos dois candidatos é semelhante: Lula foi percebido como cansado, hesitante e pouco propositivo em momentos decisivos. Flávio, por sua vez, transmitiu segurança ao falar sobre segurança pública, mas perdeu pontos pelo tom considerado agressivo, pelas interrupções e pelas provocações dirigidas ao adversário.

Indecisos rejeitam confronto e não definem voto

Grupos de eleitores acompanhados por institutos de pesquisa apontaram que o debate foi visto como excessivamente tenso e pouco esclarecedor. Termos como “desgastante”, “triste” e “decepcionante” apareceram nas avaliações dos participantes, segundo pesquisadores ouvidos pela reportagem.

A leitura predominante é de que o encontro não alterou de forma relevante o cenário eleitoral. Os indecisos permanecem disputados e, em parte, demonstraram incômodo com a falta de propostas concretas e com a ênfase nas acusações pessoais.

Para Renato Dorgan, do instituto Travessia, o primeiro bloco foi particularmente negativo. Na avaliação do pesquisador, Flávio passou uma imagem de arrogância, enquanto Lula foi percebido como alguém que teve dificuldade para reagir aos ataques.

Já o presidente do Instituto Locomotiva, Renato Meirelles, avaliou que Lula teve desempenho irregular, mas que o comportamento do adversário pode ter pesado mais entre eleitores que buscavam uma alternativa ao atual governo.

Flávio deve reduzir provocações e apresentar propostas

Na campanha do senador, a principal preocupação é evitar que a postura adotada no debate seja interpretada como excesso de confiança. Integrantes da equipe avaliam que as ironias e interrupções mobilizam o eleitorado já fiel, mas podem afastar quem ainda não tomou uma decisão.

A orientação para o encontro da Globo é manter a firmeza nos ataques ao governo, porém com respostas mais diretas e espaço maior para a apresentação de propostas. A campanha também pretende reforçar temas nos quais considera ter melhor desempenho, como segurança pública e economia.

Aliados reconhecem que Flávio deixou perguntas sem resposta e, em alguns momentos, recorreu a desvios de assunto. A avaliação é que a estratégia precisa ser ajustada para que o candidato se apresente menos como opositor e mais como alternativa de governo.

Lula tenta recuperar iniciativa e falar sobre futuro

No núcleo da campanha petista, a avaliação é de que Lula teve dificuldade sobretudo no primeiro bloco, quando a audiência estava mais concentrada. Pesquisas internas apontaram que o presidente não respondeu a algumas acusações com a firmeza esperada por seus apoiadores.

Outro ponto de autocrítica é a ausência de uma mensagem mais clara sobre um eventual novo mandato. Lula destacou realizações de governos anteriores e defendeu políticas sociais, mas aliados admitem que será necessário traduzir essas entregas em propostas concretas para os próximos quatro anos.

A campanha pretende explorar nas redes sociais questões levantadas durante o debate, como o desafio para abertura de sigilos bancários e telefônicos e respostas que, na avaliação petista, Flávio evitou dar.

Última semana concentra agendas nos maiores colégios eleitorais

Além do debate de sexta-feira, os dois candidatos devem intensificar viagens e atos públicos em estados estratégicos. São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, os três maiores colégios eleitorais do país, concentram a atenção das campanhas.

Flávio deve iniciar a semana com compromissos no Norte e no Nordeste antes de retornar ao Sudeste. Lula terá agendas no Sul, Nordeste e Sudeste, com previsão de atos no Rio de Janeiro e em São Paulo na véspera da votação.

A eleição será decidida no próximo domingo (25). Com os indecisos ainda em disputa, o último debate televisionado se tornou uma das principais apostas das campanhas para corrigir a percepção deixada pelo primeiro confronto.

Da IstoÉ