Nesta terça-feira, dia 24, São Paulo recebe mais uma edição da Caminhada Luiz Gama. O ato público marca o significado concreto e simbólico da caminhada na vida do advogado abolicionista, escritor e jornalista Luiz Gonzaga Pinto da Gama, seja ao longo dos seus 52 anos, seja no percurso do seu legado histórico.

Este ano o tema do ato será “Caminhada de Luiz Gama chega ao cinema”, para celebrar a mais recente conquista do ativismo urbano em defesa do legado de Luiz Gama: a produção do longa-metragem “Doutor Gama”, do diretor Jeferson De, que entrou em cartaz nos cinemas no último dia 5.

“Luiz Gama chega aos cinemas após 181 anos caminhando”, diz o jornalista e escritor Abilio Ferreira, um dos organizadores da Caminhada Luiz Gama, se referindo ao percurso que Gama fez aos 10 anos, quando subiu a pé a Serra do Mar rumo a São Paulo, onde conquistou sua liberdade aos 17 anos, após ser vendido ilegalmente pelo próprio pai em Salvador, em 1840. “Jeferson De contou que boa parte do interesse dele por Luiz Gama partiu do livro ‘A luz de Luiz’, do jornalista Oswaldo Faustino, um dos organizadores da Caminhada. Para nós é uma grande realização a Caminhada estar conectada a essa conquista”, comenta Abilio.

A Caminhada de Luiz Gama é realizada regular e espontaneamente, com alguns períodos de interrupção, desde 1991 e remonta não só à subida da Serra do Mar, mas também ao enterro de Gama, que faleceu em 24 de agosto de 1882. Na ocasião, dezenas de pessoas que iniciaram o seu funeral decidiram realizar o cortejo a pé, do Brás, onde ele morava, até o Cemitério da Consolação, para dar oportunidade a todas de se revezar às alças do caixão. Até o fim do percurso, cerca de quatro mil pessoas (cerca de 10% da população paulistana na época) acompanharam o cortejo fúnebre.

Neste ano a caminhada começa no Cemitério da Consolação, no túmulo de Luiz Gama (Quadra 04, Rua 12, Jazigo 17), às 18h, passa pelo Sindicado dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, na Rua Rego Freitas, e se encerra por volta das 22h30 no Largo do Arouche, onde fica o busto de Luiz Gama, instalado em 1931.

O ativismo pelo reconhecimento, preservação e valorização da memória do abolicionista que libertou mais de 500 pessoas escravizadas vem colecionando conquistas nos últimos anos: Gama foi oficialmente reconhecido como advogado pela OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), em 2015, e como jornalista pelo Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, em 2018, tendo sido também homenageado com  Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos em 2020 ; foi nomeado no Livro de Heróis e Heroínas da Pátria do governo federal, em 2018, e agora em 2021 reconhecido como intelectual, ao ser o primeiro brasileiro negro a receber o título de doutor honoris causa da USP (Universidade de São Paulo).

A organização da Caminhada tem natureza coletiva e conta com um grupo diversificado de pessoas, pertencentes a diferentes segmentos sociais. Algumas dessas pessoas: Cristina Adelina (cofundadora e coordenadora do Slam da Guilhermina), Flavio Carrança (membro da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial, Cojira-SP), Oswaldo Faustino (autor do livro “A luz de Luiz”), Max Muratório (produtor cultural, responsável pela exposição: “Memorial Luiz Gama” sobre Luiz Gama na Caixa Econômica Federal em 2015) e Abilio Ferreira (escritor, coautor do livreto Rhumor Negro, publicado em 1991).

“A valorização da história de Luiz Gama acontece dentro de um marco inédito do movimento antirracista no Brasil e no mundo, que é a associação da violência do estado contra a população negra com a presença de estátuas escravocratas nas cidades”, diz Abilio. “A discussão da violência e das desigualdades racial costumava acontecer de forma separada da questão simbólica, mas desde o movimento “Black Lives Matter” com o assasinato de George Floyd, as duas coisas estão sendo associadas: que o simbólico afeta a gente fisicamente.”