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Cali, o coração da ira popular na Colômbia

Cali, o coração da ira popular na Colômbia

Manifestantes em barricada durante protesto contra o governo da Colômbia em Cali, em 2 de junho de 2021 - AFP


A noite avança, e as barricadas de Cali, que concentram a raiva popular contra o governo da Colômbia, exalam medo. Os tiros “são de madrugada”, dizem os manifestantes.

Os jovens são assediados por policiais que, durante o dia, reprimem e, à noite, “quando andam à paisana”, atiram, testemunham à AFP “Rojo” e outros 12 membros da chamada resistência.

Fora das trincheiras, alguns apontam os narcotraficantes que estariam minando o protesto, exasperados com os bloqueios que reduzem suas atividades.

Os ataques vêm de “vans blindadas” que se aproximam das barricadas no escuro. “Somos como zumbis, não dormimos”, diz o homem de 33 anos que não revela seu nome por medo de represálias. Quando remove a máscara de gás, seu rosto revela noites sem dormir.

“Rojo” está em Puerto Resistencia, um dos pontos mais ativos do protesto em Cali, a terceira cidade do país com 2,2 milhões de habitantes.

Empobrecida pela pandemia, a classe média explodiu nas ruas em 28 de abril, quando o presidente Iván Duque quis aumentar os impostos.

Embora o presidente tenha retirado a proposta, a repressão desencadeou um movimento de protesto sem precedentes que deixa pelo menos 61 mortos. Somente em Cali houve 18 mortes na primeira semana.

A Defensoria do Povo, que documenta os casos, afirma que a força pública está supostamente envolvida em oito homicídios, enquanto a polícia conta um morto e 17 feridos por tiros em suas fileiras.

O governo ordenou o envio de tropas de apoio à polícia, denunciada por múltiplos abusos perante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), em visita extraordinária à Colômbia até sexta-feira.

– Ilhotas de anarquia –

Apesar da abundância de vídeos virais de picapes, das quais tiros teriam sido disparados contra os manifestantes, a polícia não recebeu nenhuma denúncia.

“As pessoas não confiam na institucionalidade”, reconhecem dois oficiais.

Segundo uma fonte médica, que atendeu vítimas de cinco ataques noturnos e que pede para não ser identificada devido a ameaças, os feridos pedem para não serem levados para os hospitais para não serem “processados”.



Durante o dia, a calma prevalece no acampamento Puerto Resistencia. Os meninos jogam vôlei, e os moradores visitam a pequena biblioteca montada pelos manifestantes em uma delegacia de polícia destruída.

Quando cai a noite, porém, em torno dessas “ilhotas de anarquia”, assim batizadas pelo governo, o assédio policial é permanente: buscas que terminam em espancamentos, humilhações, prisões arbitrárias.

A ONG Human Rights Watch (HRW) denunciou a brutalidade policial e fala em até 20 homicídios cometidos por agentes estatais em todo país.

Aqui, “estamos todos dispostos a sacrificar nossas vidas”, garante “Byron”, de 30 anos. “Nos rebelamos pela falta de oportunidades (…) A cada dia fica mais difícil comer”, acrescenta.

Alguns dos que ficam acordados até tarde na “linha de frente” afirmam possuir armas para repelir os ataques, outros exibem escudos improvisados, paus e pedras.

– Mão do narcotráfico –

Uma autoridade civil, um líder de bairro e um trabalhador humanitário acreditam que a violência não seja apenas de agentes do Estado. Os três, que solicitaram anonimato diante da gravidade da crise, concordam que o narcotráfico também decidiu reprimir o protesto.

Os traficantes foram afetados pela semiparalisia da cidade. Os clientes não entram mais nos bairros por medo dos distúrbios.

Diante dessa situação, alguns se infiltraram nos acampamentos “para cometer crimes, como tráfico, consumo, tudo que tenha a ver com entorpecentes”, afirma o general Juan León, comandante da polícia local.

Vários dos dez bloqueios que sufocam Cali estão nas “fronteiras invisíveis” impostas pelas gangues em uma das cidades com a maior taxa de homicídios do mundo: 47,9 por 100.000 habitantes em 2020.

Estigmatizar as manifestações seria, no entanto, um “erro histórico”, avisa o prefeito, Jorge Iván Ospina.

Os manifestantes têm entre 15 e 35 anos. São trabalhadores informais, estudantes, ou profissionais desempregados, devido à pandemia que colocou 3,5 milhões de colombianos na pobreza.

Esses “jovens (…) sempre foram bucha de canhão” para grupos ilegais, mas agora contam com o apoio das classes populares, pois “a pandemia os fez sentir que a causa era comum”, explica o arcebispo Darío Monsalve.

O governo, que ainda não chegou a um acordo com os manifestantes, tenta acabar com os bloqueios à força. Mas, “se não encontrar uma” solução fundamental para os problemas, “é uma questão de dias, horas e meses para termos” novos bloqueios, diz Ospina.

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