Pela primeira vez em sua história, o tradicional Calendário Pirelli escolheu a Índia como cenário e inspiração. A edição de 2027, apresentada nesta sexta-feira (23), em Nova Délhi, reúne trabalhos do fotógrafo norueguês Solve Sundsbo e da indiana Avani Rai, combinando imagens de personalidades conhecidas internacionalmente com registros da vida cotidiana do país.
O projeto marca a 53ª edição do calendário e carrega um significado especial para Avani. Ela assumiu parte da produção após a morte de seu pai, Raghu Rai, um dos principais nomes da fotografia indiana, que havia aceitado o convite para participar do trabalho antes de falecer, no fim de abril.
O resultado apresenta duas abordagens visuais distintas, mas complementares: uma dedicada à relação entre identidade, natureza e representação feminina; outra voltada às ruas, às pessoas comuns e à memória familiar.
Mulheres indianas são protagonistas da edição
Solve Sundsbo fotografou nove personalidades da moda e do entretenimento em paisagens naturais do Rajastão, no noroeste da Índia. Entre as participantes estão as atrizes Freida Pinto e Aditi Rao Hydari, além da apresentadora e escritora Padma Lakshmi.
A proposta do fotógrafo foi apresentar essas mulheres em um ambiente distante dos grandes centros urbanos e da estética cosmopolita com a qual costumam ser associadas.
Conhecida internacionalmente por sua participação no filme Quem Quer Ser um Milionário?, Freida Pinto afirmou que o trabalho representa uma oportunidade de mostrar a diversidade da sociedade indiana e questionar percepções simplificadas sobre suas mulheres.
Segundo a atriz, ainda existe uma tendência de retratar as indianas como pessoas com características e comportamentos semelhantes, frequentemente associadas à submissão e ao silêncio.
Para ela, as fotografias ajudam a apresentar identidades individuais que não podem ser reduzidas a estereótipos culturais.
Fotógrafo buscou fugir de estereótipos sobre a Índia
Sundsbo contou que recebeu o convite com entusiasmo, mas também com preocupação sobre a responsabilidade de representar um país de grande diversidade cultural.
O norueguês reconheceu que sua origem europeia poderia influenciar, mesmo involuntariamente, a maneira como enxergava o ambiente e as pessoas fotografadas.
Por isso, decidiu priorizar conversas com as participantes antes de realizar os ensaios. A intenção era construir retratos mais próximos da personalidade de cada mulher, sem transformar a Índia em um cenário meramente decorativo.
O fotógrafo também destacou uma mudança em sua trajetória profissional. Se antes privilegiava produções elaboradas, com forte presença de tecnologia e elementos artificiais, atualmente busca imagens mais espontâneas e naturais.
Inteligência artificial entra no debate sobre fotografia
Durante a apresentação, Sundsbo também comentou o avanço da inteligência artificial na produção de imagens.
Embora considere a tecnologia uma ferramenta que pode ser utilizada no processo criativo, o fotógrafo afirmou que não pretende permitir que ela determine os rumos de seu trabalho.
Ele comparou o debate atual ao surgimento da fotografia, quando havia receio de que a nova técnica substituísse a pintura.
Na avaliação do artista, diferentes formas de expressão podem coexistir, preservando suas características e possibilidades criativas.
Avani Rai transforma memória do pai em homenagem
Enquanto Sundsbo privilegiou retratos de mulheres conhecidas, Avani Rai voltou suas lentes para cenas comuns da Índia.
Seu trabalho inclui skatistas, músicos de rua, famílias, ambientes comerciais e pessoas reunidas nas calçadas. A proposta é mostrar um país em transformação a partir de situações que muitas vezes passam despercebidas.
A fotógrafa também incorporou imagens produzidas por Raghu Rai ao projeto, estabelecendo um diálogo visual entre o trabalho do pai e sua própria interpretação da realidade.
A homenagem representa uma maneira de lidar com a perda familiar, mas sem abandonar sua identidade artística.
Avani afirmou que decidiu preservar sua visão pessoal, mesmo diante da importância da trajetória do pai. Para ela, receber uma herança artística não significa reproduzi-la sem questionamentos.
A fotógrafa também defendeu o papel da documentação visual em uma sociedade marcada por mudanças rápidas. Na sua avaliação, registrar acontecimentos cotidianos é uma forma de preservar a memória e revelar aspectos da realidade que poderiam desaparecer.
Calendário Pirelli amplia olhar sobre diversidade cultural
Conhecido por reunir grandes nomes da fotografia e do entretenimento, o Calendário Pirelli passou por transformações ao longo das décadas, incorporando temas relacionados à identidade, à diversidade e à representação cultural.
A escolha da Índia para a edição de 2027 reforça essa proposta, ao apresentar diferentes perspectivas sobre um mesmo país.
De um lado, os retratos de personalidades reconhecidas internacionalmente destacam trajetórias individuais e questionam estereótipos. De outro, as fotografias de rua valorizam experiências cotidianas e a memória coletiva.
A combinação dos dois trabalhos também transforma a edição em uma homenagem a Raghu Rai, cuja contribuição para a fotografia indiana permanece presente no olhar da filha.
Da IstoÉ Gente e Ansa