Cadê o Brasil?

Os quatro amigos se reuniam, todas as segundas-feiras, no mesmo bar há mais de vinte anos.

Em comum, tinham pouca coisa, além de terem estudado no mesmo colégio, na época que “Ensino Médio” se chamava “Ginásio”. Cada um partiu para uma profissão diferente.

Um advogado, um engenheiro, um dentista e um que não se formou em nada e vivia de bicos.

Na mesa do bar, antes da pandemia, falavam de tudo. De futebol à política, passando por economia, casamento e o que mais estivesse na pauta da semana.

Durante a quarentena, adotaram as happy hours por videoconferência.

Não era a mesma coisa, mas quebrava o galho.

Aos poucos as videoconferências passaram a ser monotemáticas. Só falavam do presidente ou de sua família e a cada encontro surgiam novos fatos. As rachadinhas, a insistência com a cloroquina, a reunião dos ministros, o Queiroz, os depósitos na conta da primeira-dama, o gabinete do ódio. Invariavelmente, as conversas terminavam da mesma maneira:

– O que eu não entendo é como ninguém faz nada — dizia o advogado.

– Cadê a oposição? — perguntava o engenheiro.

– Cadê o Brasil? — filosofava o que vivia de bicos.

O dentista não falava nada.

Apenas fazia não com a cabeça, sem entender como chegamos nisso.

Segunda-feira passada foi o dia que o ministro Ricardo Salles derrubou diversas normas do Conselho Nacional do Meio Ambiente.

– Hoje passou a boiada — disse o advogado, em referência à frase que o ministro usou na reunião de abril.

Os amigos concordaram com a cabeça.

– E ninguém faz nada. — disse o engenheiro

– Cadê o Brasil? — questionou o que vivia de bicos.

Não entendiam. Por muito menos, presidentes foram impichados. Por fatos muito menos graves o povo foi às ruas.
– Agora nada. Ninguém tá nem aí. — lamentou o advogado.

– Cadê o Brasil?

O dentista, sempre calado tamanha a decepção, finalmente deu seu veredito:

– Quer saber? Não adiante resmungar. Sabe por quê? Porque também não fazemos nada. Apenas sentamos aqui e reclamamos.

– Ué? E o que você quer que a gente faça? — perguntou o engenheiro.

– Ora, a gente não quer o povo na rua? Então pronto. Vamos nós. – respondeu o dentista.

– Uma passeata de quatro pessoas? — riu o advogado.

– Isso. Quatro pessoas. Vamos de máscara e mantemos dois metros de distância. Levaremos placas de “Basta!” e faremos nossa parte.

– Mas que besteira. Você acha que alguém vai dar bola para isso? – perguntou o advogado.

– Não vamos para a rua para que alguém dê bola. Vamos porque é nosso dever cívico. Esse país está indo para o buraco e alguém tem que tomar uma atitude. — respondeu o engenheiro, que já tinha comprado a ideia.
Os outros três concordaram.

Marcaram para quarta-feira a passeata dos quatro.

Combinaram de ir vestidos de branco, na Paulista.

No dia, cada um chegou de um canto da cidade.

Às 18h se encontraram no MASP. Foi aí que aconteceu.

Por uma dessas mágicas que acontecem uma vez na vida, de todos os cantos da avenida começaram a surgir outros pequenos grupos de amigos.

Gente que, sem combinar, também decidiu que à hora de ir as ruas contra os desmandos de Brasília havia chegado.
Meia hora depois, já eram milhares. Todos vestindo branco.

Todos de máscaras. Todos mantendo dois metros de distância.

Não seria a pandemia que iria deter a vontade do povo.

O dentista foi o primeiro a soltar o grito de guerra:

– ACORDA! JÁ SÃO 8 DA MANHÃ.

O que faz bico acordou com a mulher gritando no seu ouvido.

Se deu conta que era só um sonho.

Olhou para mulher e, resignado, perguntou:

– Cadê o Brasil?

O ministro Ricardo Salles derrubou diversas normas do Conselho Nacional do Meio Ambiente: a intenção é passar a boiada

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