Cultura

Will Smith e Sidney Poitier representam gerações diferentes de atores negros que venceram em Hollywood

O sucesso de público e crítica dos atores negros de diversas gerações revela que o racismo não tem mais força para barrar em Hollywood a trajetória daqueles que têm talento

Crédito: Divulgação

Quem se lembra dos videoclipes toscos do rapper Fresh Prince nos anos 1980 dificilmente poderia imaginar que ele se transformaria em um dos maiores astros da história de Hollywood. Nascido na Filadélfia, Will Smith mudou-se para Los Angeles, tentando a vida como rapper, mas logo teve uma ideia que mudaria sua carreira para sempre: um programa de TV sobre um rapper que se muda da Filadélfia para Los Angeles. Não era um reality show: exibido de 1990 a 1996, The Fresh Prince of Bel-Air (Um Maluco no Pedaço) foi sucesso e abriu caminho para a bem-sucedida carreira do ator americano.

Na sequência, Smith protagonisou de Bad Boys e Independence Day, até que atingiu o ápice da popularidade com Men in Black – Homens de Preto. Desde então, passou a frequentar a lista dos atores mais bem pagos da indústria: de R$ 2 milhões, que ele ganhou por Bad Boys, seu cachê saltou para R$ 100 milhões em 2012 – US$ 20 milhões de cachê e porcentagem da bilheteria -, por Homens de Preto 3. Tornou-se, assim, o ator negro mais bem pago da história. E o ano de 2022 começou com uma excelente notícia: ele deixou de ser apenas um astro com grande popularidade e passou também a ser respeitado pela crítica.

Recebeu no domingo 9, o Globo de Ouro por King Richard – Criando Campeãs, produção em que interpreta o pai das tenistas Venus e Serena Williams, e tornou-se um dos favoritos ao Oscar. Por esse trabalho, recebeu US$ 40 milhões — doou parte do cachê aos colegas do elenco, após problemas com a produção que ocasionaram perdas na receita dos outros atores. O sucesso que transformou Will Smith em um dos mais poderosos players de Hollywood não veio da noite para o dia.

MESTRE Sidney Poitier: o primeiro a ganhar o Oscar de Melhor Ator (Crédito:Divulgação)

O pioneiro a romper a barreira do racismo e se tornar uma grande estrela de cinema foi Sidney Poitier, o primeiro ator negro a conquistar o grande prêmio da Academia por A Voz nas Sombras, de 1964. Poitier, que faleceu no início de janeiro aos 94 anos, foi o símbolo da luta dos profissionais negros por igualdade salarial, uma guerra que só obteve vitórias significativas no final do século 20.

Nos anos 1980, um comediante negro se tornou o ator mais famoso do planeta pela primeira vez: depois de ganhar o público como um policial durão em 48 Horas, Eddie Murphy assumiu a comédia e quebrou recordes de bilheteria com Beverly Hills Cop, de 1984. Ao longo dos anos, seguiu emplacando filmes de sucesso como Um Príncipe em Nova York, Professor Aloprado (remake de Jerry Lewis) e Dr. Dolittle — ao contrário de Will Smith, no entanto, Murphy nunca foi recompensado por seu talento dramático.

Nesse quesito, o ator negro mais bem-sucedido de todos os tempos é, sem dúvida, Denzel Washington. Ele não apenas atingiu status de estrela em grandes bilheterias, como teve boa aceitação pela crítica desde o início da carreira. Isso se deve a sua formação como ator de teatro, onde estreou com destaque na Broadway, em 1979, com a peça Coriolanus, de William Shakespeare. Recebeu elogios ainda por outras peças do dramaturgo britânico, como Ricardo III e Júlio César. Denzel logo levou a vocação shakespeariana para o cinema, onde se destacou em Muito Barulho por Nada (1993), dirigido pelo britânico Kenneth Branagh. As premiações vieram com o tempo: foi agraciado com todos os prêmios possíveis, entre eles três Globos de Ouro e dois Oscars, um por Tempo de Glória, de 1989, e outro por Dia de Treinamento, em 2001. Voltou a encenar Shakespeare na nova versão de Macbeth, de Joel Coen, que estreia essa semana no streaming AppleTV+. Em 2020, o jornal The New York Times o elegeu o maior ator do século 21, até agora. No palco, na tela ou no streaming, o talento dos atores negros importa — e mostra cada vez mais sua força.