Cachaça e carnaval

Crédito: José Manuel Diogo

(Crédito: José Manuel Diogo)

Um dia, o político Ulysses Guimarães, um dos principais opositores à ditadura militar e presidente da Assembleia Nacional Constituinte de 1987-1988 que inaugurou a nova ordem democrática, após 21 anos sob o Regime Militar, falou assim — “Enquanto houver cachaça, samba, carnaval, mulata e futebol, não haverá rebelião no Brasil. O Corinthians segura mais o povo do que a Lei de Segurança Nacional”. Outro dia, o Presidente Richard Nixon, o primeiro e até hoje único presidente a renunciar o cargo, recebendo os jornalistas na Casa Branca, brincou — Algum dos senhores tem aí perguntas para as minhas respostas? Risada geral, seguiu a rodada.

Os jornalistas fizeram suas perguntas, mas Nixon, como todos os políticos profissionais que nunca se intimidam, falou apenas o que quis, como quis, quando quis. Nem mais uma sílaba. Seria preciso um Watergate para demonstrar o contrário. Foi sempre assim que — em ditaduras mais ou menos absolutas e em democracias mais ou menos musculadas — os políticos usaram a comunicação para conquistar, manter e aumentar seu poder, controlando assim o povo. Primeiro com armas e paradas militares, depois com discursos e novelas e hoje com o WhatsApp, o Twitter e o Instagram.

Foi sempre assim, os políticos usaram a comunicação para conquistar,
manter e aumentar seu poder, controlando e abusando do povo

É um saber antigo. O primeiro a dizê-lo foi Nicolau Maquiavel, no sec. XV — “Aqueles que vencem, não importa como vençam, nunca carregam vergonha”, depois António Gramsci, logo no início do século XX formulou — “O presente contém todo o passado”. Mas é no meio século XX, depois da II Grande Guerra, com a chegada da TV, que tudo se torna evidente. Winston Churchill afirma — “Não existe opinião pública, existe opinião publicada”. Já este século, Tony Blair desabafa — “A mídia caça em bando. É uma besta feroz rasgando pessoas e reputações.” Tudo certo na dor de Blair, até hoje lutando contra as notícias que fazem dele o principal cúmplice da invasão do Iraque. Mas foi ele quem validou, junto com Portugal e a Espanha, a primeira guerra originada pelas modernas fake news.

Só que hoje, quando as mídias sociais se tornaram o “único” meio de comunicação política, a possibilidade de praticar essas fraudes estão ao alcance de muitos, democratizando — por baixo — o acesso ao poder a gente indiferenciada, impreparada e sem qualquer sentido de Estado. A vitória de Bolsonaro — o primeiro político da história contemporânea a ganhar uma eleição sem usar a TV — é a prova que não há mais chance de Watergate enquanto as mídias sociais estiverem sem lei.

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Sobre o autor

José Manuel Diogo é autor, colunista, empreendedor e key note speaker; especialista internacional em media intelligence,  gestão de informações, comunicação estratégica e lobby. Diretor do Global Media Group e membro do Observatório Político Português e da Câmara de Comércio e Indústria Luso Brasileira. Colunista regular na imprensa portuguesa há mais de 15 anos, mantém coluna no Jornal de Notícias e no Diário de Coimbra. É ainda autor do blog espumadosdias.com. Pai de dois filhos, vive sempre com um pé em cada lado do oceano Atlântico, entre São Paulo e Lisboa, Luanda, Londres e Amsterdã.


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