Brasil

Cabeças a prêmio

Presidente começa a deixar seus parceiros pelo caminho e aceita colocar na guilhotina os ministros da área ideológica a pedido do Centrão

Crédito: Arte: Nilson Cardoso

ESTORVO Ernesto Araújo foi cortado do governo depois de atrapalhar negociações internacionais (Crédito: Arte: Nilson Cardoso)

A guilhotina de Bolsonaro está absolutamente afiada. Diferente do sofisticado ritual da Revolução Francesa, o corte de cabeças por aqui tem um enredo tragicômico. O presidente está frágil e entregou o pouco poder que tinha ao Centrão. Após uma gestão pífia, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, foi o primeiro demitido nessa reforma ministerial atabalhoada que aconteceu de maneira intempestiva. O cientista político Rubens Figueiredo diz que “a turma do mimimi está sendo substituída por ministros com trânsito na classe política”.

NA BERLINDA Ambientalistas aguardam a possível demissão de Ricardo Salles (Crédito:CHARLES SHOLL)

Além do corte da cabeça de Araújo e da crise criada pelo ex-capitão nas Forças Armadas, com a demissão ameaçadora à democracia do ministro da Defesa, estão na linha de tiro outros ministros desafetos do Centrão: Ricardo Salles (Meio Ambiente); Milton Ribeiro (Educação); Gilson Machado Neto (Turismo); e Bento Albuquerque (Minas e Energia). A ideia é acomodar indicações do presidente da Câmara, Arthur Lira, e do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, os principais porta-vozes do Centrão.

O imbróglio mais difícil de resolver foi o do ministro de Relações Exteriores. O chanceler ficou balançando no cargo por bastante tempo. A ofensiva contra Araújo veio de todos os lados. Mais de 300 diplomatas subscreveram uma carta pedindo a saída do ministro que causou graves prejuízos à imagem do País. O Brasil sempre teve ao seu favor as boas relações internacionais. Ele destruiu isso. Além da relação externa, Araújo conseguiu desagradar quase que a totalidade dos políticos e integrantes da sociedade civil. Ele acusou a senadora Kátia Abreu de fazer lobby para uma empresa chinesa que participará do leilão do 5G, o que levou-a a responder com energia: “o Brasil não pode mais continuar tendo, perante o mundo, a face de um marginal”. Foi a senha para a queda. Araújo até que durou muito. No Congresso, a frase mais ouvida foi, “já vai tarde”. Para o seu lugar foi escolhido Carlos Alberto Franco. Ele mantém o alinhamento ideológico com o clã Bolsonaro, mas será um novo problema, pois o diplomata nunca esteve à frente de uma embaixada sequer.

DESCASO Milton Ribeiro ignorou a necessidade de inclusão digital (Crédito:Claudio Reis)

Dança das cadeiras

Bolsonaro aproveitou o caos instaurado por ele no País e promoveu mudanças ajustadas ao interesse da base aliada e aos seus propósitos autoritários. A deputada Flávia Arruda foi para a Secretaria de Governo; Luiz Eduardo Ramos para a Casa Civil; o delegado da Polícia Federal, Anderson Gustavo Torres, foi para o Ministério da Justiça e Segurança Pública; enquanto André Mendonça retornou para Advocacia-Geral da União. Na AGU, o ministro José Levi pagou o preço de se recusar a assinar o pedido contra as medidas restritivas adotados pela Bahia, Distrito Federal e Rio Grande do Sul.

 

“O Brasil não pode mais continuar tendo, perante o mundo, a face de um marginal” Kátia Abreu, senadora (Crédito:Marcos Oliveira)

Com o objetivo de enfraquecer a ala ideológica do governo, o Centrão quer agora as cabeças dos ministros que mais irritam os parlamentares por suas posturas incorretas: os ministros do Meio Ambiente e da Educação são os mais cotados para terem as cabeças decepadas. A cientista política Juliana Fratini avalia que “para reestabelecer a confiança, o governo pode rifar Salles e Ribeiro”. O ministro da Educação foi duramente criticado por não fazer nada a favor do PL 3477/2020 que tratava da inclusão digital para estudantes durante a pandemia e foi vetado pelo governo. A relatora do PL, deputada Tábata Amaral disse que o ministro precisa cair porque a pasta é conduzida por “ideologização, negligência e incompetência”. A demissão de Salles parece ser a mais difícil. A coordenadora de Políticas Públicas do Greenpeace Brasil, Mariana Mota, disse que “a saída de Salles não é o suficiente”. O senador Fabiano Contarato, afirma que “o ministro já entrou para a história como protagonista da tragédia ambiental que sua gestão promoveu por ação e por omissão”. Cabeças ainda vão rolar