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Bruno Mortari quer repetir feito do pai com título mundial no basquete


Bruno estava a caminho quando Cláudio Mortari foi campeão do mundo como treinador pelo Sírio, em outubro de 1979. Agora, aos 42 anos, o técnico do São Paulo, que nasceu em janeiro de 1980, pode repetir o feito com pouco tempo de trabalho. Ele assumiu o lugar do pai há cinco meses, conquistou o título da Champions League Américas no começo de abril e garantiu o time do Morumbi na disputa da Copa Intercontinental, o Mundial de Clubes.

Em entrevista ao Estadão, o treinador admite que ainda não conseguiu dimensionar o tamanho da conquista para o projeto do São Paulo, que nasceu em 2018, e que pensa todo dia na possibilidade de repetir o feito do pai. Ele elogia ainda Marquinhos e Shamell e fala do momento de Bruno Caboclo e do retorno de Lucas Bebê. Confira os principais trechos da entrevista:

Após 17 dias da conquista, já é possível ter o tamanho da importância do título da Champions League Américas para o projeto do São Paulo?

Ainda não sei te responder. Realmente é um título muito grande. Times demoram anos apenas para conseguir participar desse campeonato. É muito difícil e conseguimos, em um curto espaço de tempo, ganhar o título. Então, te respondendo, eu acho que ainda não. Não temos o tamanho real deste feito.

Essa conquista pode abrir o caminho para que o basquete possa caminhar com suas próprias pernas no clube, sem depender do futebol?

São etapas. No primeiro ano foi necessário o suporte do clube. O start já com patrocínio é sempre muito difícil de acontecer. Agora, com esse resultado, por tudo que representa no São Paulo, porque é como uma Libertadores do basquete, em um clube acostumado com este tipo de título, o próximo passo é agregar esses patrocínios. A repercussão foi enorme. As empresas precisam olhar como investimento, porque é um ótimo investimento.

Qual foi o fator preponderante para o São Paulo conquistar o título?

A concentração que entramos no campeonato. Durante o NBB (Novo Basquete Brasil) focamos na Champions League. Nós usamos os jogos do NBB que antecediam uma viagem para se preparar. Sabíamos que não dava para ir 100% nas duas competições porque o espaço de tempo era muito curto. Nós jogávamos na sexta e no sábado já viajávamos para o Uruguai, Argentina… Estar 100% focado nesta competição trouxe o resultado. Não esperava, claro, ser campeão invicto, mas conseguimos colher frutos desta opção que fizemos.

Você já se imagina como campeão mundial, igualando o feito do seu pai?

Penso nisso todo dia. Agora, deixou chegar, vamos buscar… E muito novo também. Meu pai era jovem (31 anos) quando foi campeão mundial. Estou apenas no começo do meu trabalho. Vamos buscar isso, com certeza.

Como é este convívio com o Cláudio?

Falamos de basquete o tempo todo. Ele assiste todos os jogos e estamos sempre analisando. É o assunto de casa, não tem como escapar. Ele costuma dar o macro, tipo o time tal está jogando bem e precisa marcar essa peça. Agora diretamente, tipo coloca o Bennett para marcar tal jogador, isso não. No pontual ele não costuma interferir.

Você sente pressão para seguir o legado do seu pai?

Não muito. Eu sempre convivi com isso. Desde criança eu acompanhava o meu pai, nunca tive medo de encarar isso. Virei técnico por causa dele. Tudo que sei eu aprendi com ele. Não me sinto pressionado. Quem me conhece, sabe do meu trabalho. Estou preparado para isso, sempre me achei preparado e, por isso, não me sinto pressionado.

E ouvir comparações, incomoda?

Não tem problema nenhum. Não me incomoda em nada. Talvez esta pressão fosse para eu conseguir resultados e, por isso, esse título veio em uma boa hora para mim. Tenho apenas cinco meses de trabalho. Cheguei em uma final de (Copa) Super 8 (torneio mata-mata com os melhores times do primeiro turno do NBB), que infelizmente perdemos no detalhe (para Minas, na última bola), e agora conquistei este título. As pessoas já te enxergam com outros olhos, sabem que está no sangue, que não é balão de ensaio. Essa conquista veio para dar tranquilidade para continuar o trabalho no mesmo caminho.

O fato de ter sido um jogador que tinha uma ótima leitura do jogo ajudou na formação como treinador?

Isso ajuda, mas o mais importante é saber lidar com o grupo. Como eu fui jogador por muito tempo com o meu pai (de técnico), eu não podia deixar o grupo rachar, o que acontece, porque iria estourar nele. Então fui aprendendo a conduzir o máximo de jogadores pensando da mesma maneira.

Ter Shamell e Marquinhos na equipe, ambos ex-companheiros nos tempos de jogador, ajudou no trabalho?

Eles me ajudam bastante. O Shamell, mesmo lesionado, eu peço para ele ficar no banco para me auxiliar, porque entende muito do jogo. O Marquinhos também sabe tudo de basquete, ajuda inclusive nos treinos. O grupo é muito bom. É um grupo vencedor. O próprio Elinho é um dos caras que mais ganhou títulos nos últimos tempos. O Tyrone, raça 100%. O Coelho, outro jogador raçudo, o Bennett… O grupo foi muito bem equalizado. As peças se encaixaram bem. Eles entendem o que temos passado e executam da melhor maneira possível.

O grupo anterior, que não conseguiu os títulos, tinha jogadores talentosos, como Georginho, Lucas Mariano, Renan Lens… Ter um grupo com jogadores vencedores fez o São Paulo campeão?

A mensagem passada desde o Paulista este grupo abraçou melhor. A experiência, claro, conta. Os títulos que eles trazem também. Mas perdemos excelentes jogadores e trouxemos excelentes jogadores. É mais a capacidade deste grupo de buscar o algo a mais e isso fez a diferença para conquistar esses títulos.

Como você trabalhou para motivar o Bruno Caboclo? Muita gente considerou um retrocesso na carreira dele voltar ao Brasil…

O que ele veio fazer no São Paulo e está fazendo era o que precisava ser feito. Era o momento da carreira dele de ter tempo de quadra, de participar do jogo, algo que ele não teve oportunidade na NBA e na Europa. Foi vendido isso para ele e ele abraçou da melhor maneira possível. Ele precisava dar esse passo para dar dois para frente depois. Ele foi muito cedo para a NBA e não teve oportunidade de jogar. Aqui ele tem chance de jogar e do jeito que ele quer. Hoje eu vejo ele mais preparado para o que o mundo apresenta para ele, porque é um garoto sensacional.

E o Lucas Bebê, que voltou ao São Paulo… Como é lidar com esta montanha-russa?

A única coisa difícil dele é essa montanha-russa. De resto, ele é sensacional. Ele ajudou na conquista do Paulista, na Champions… Eu fiz de tudo para inscrevê-lo no NBB. Ele estava decidido em se aposentar e não teve jeito. É um cara de 2,13m que jogou na NBA, jogou de fato na Europa, tem uma experiência enorme. Inteiro e querendo jogar é um cara que desequilibra qualquer campeonato. Tem essa montanha-russa, mas agora acho que ela está só subindo, entrou no eixo.

O título da Champions League Américas aumenta a pressão para o São Paulo no NBB?

Dirigir o São Paulo é pressão sempre, até quando você vai enfrentar o último colocado. Mas sobre essa pressão (com o título) não altera muito. Agora, a expectativa altera demais. Sabemos que o NBB é uma competição muito difícil. Nosso primeiro objetivo, que era ficar entre os quatro, foi alcançado. Um passinho por vez. Agora vamos enfrentar um grande time, que é o Bauru, pelas quartas de final. Será uma série muito equilibrada. O fator torcida pode ser determinante. O ginásio está sempre cheio, eles abraçaram o time, sabem o momento certo para incentivar.

Assim como o seu pai, você é são-paulino desde pequeno?

Sempre torcia para o time que ele ia. Mas eu nasci no Morumbi, sou sócio do São Paulo desde os três anos. É um clube que está no coração, é um clube maravilhoso, não existe melhor lugar para se trabalhar.