Ediçao Da Semana

Nº 2742 - 12/08/22 Leia mais

Desde o massacre da Praça da Paz Celestial, em 1989, a deputada Nancy Pelosi se mostra uma defensora aguerrida de reformas na China. Desta vez, a presidente da Câmara dos EUA pode ter cruzado uma linha perigosa da política externa americana. Tornou-se a mais alta autoridade dos EUA a visitar Taiwan em 25 anos, deixando o regime de Pequim furioso. Para a China, a ilha que se considera independente é uma província rebelde. A visita de Pelosi causou temor, mas afinal não levou a um desastre nuclear, como o mundo chegou a temer. As escaramuças militares dos dois lados acabaram diluídas em declarações fortes do governo chinês e a um apaga-fogo por parte dos EUA. Mas a atitude belicosa da política de 82 anos, que declarou ostensivamente ter ido apoiar a democracia local, provocou reações imediatas de Pequim. Taiwan está cercada por mar e ar e sofrendo sanções econômicas, como o corte de importações. Para as autoridades taiwanesas, a palavra para isso é bloqueio.

O presidente Joe Biden se mostrou ambíguo: ainda em junho, chegou a criticar a insistência da líder da Câmara em ir a Taiwan, mas não tentou dissuadir a correligionária. Enquanto outros parlamentares democratas se manifestavam contra a visita inoportuna, o ex-secretário de Defesa John Kirby já se antecipava a uma crise diplomática ao dizer que a visita à ilha não entraria em conflito com a política americana em relação à China. O suspense se manteve até o início do “tour”, que mencionava apenas o arco Filipinas-Singapura-Coréia do Sul-Japão.

“ A China tomará todas as medidas para salvaguardar sua soberania ” Nota do governo Xi Jinping (Crédito:Kevin Frayer)

Para Roberto Goulart Menezes, professor do Instituto de Relações Internacionais da UnB, a viagem de Pelosi reforça a presença dos EUA no Pacífico, onde o país tem várias bases militares desde a Segunda Guerra Mundial. “É bom para o governo Biden, que passará por um teste em novembro, com as eleições legislativas de meio de mandato. Enquanto a China eleva a temperatura, ele segue cozinhando em banho-maria”, observa. Ou seja, enquanto Pelosi se expõe, ele não se compromete, mas espera que a atitude da deputada ajude os democratas. “Desde a crise de 2008, há um consenso entre a elite política americana de que a China é cada vez mais ameaçadora, além de inimiga.”

Risco de conflito

Pelosi é a segunda na linha de sucessão da Presidência dos EUA, depois de Kamala Harris, a vice de Biden. Por isso, o mais significativo de sua passagem “carnavalesca”, como citaram alguns, foi o encontro com a presidente Tsai Ing-wen, chefe do governo local desde a eleição de 2016 — o que aumentou a pressão militar e diplomática sobre a ilha. Ainda há grande controvérsia internacional sobre o status de Taiwan, nação que é considerada de certa forma um resquício da Guerra Fria. Em 2005, a China aprovou lei que permite intervenção armada em caso de declaração formal de independência por parte do governo local. Se a democrata deu sua missão por cumprida e levantou vôo, seguida por navios e aviões americanos, continua em aberto o que ainda esperar da China em relação ao episódio. Por enquanto, a reação levou ao cerco da ilha, com exercícios militares em manobras marítimas e áreas e armamento real, o que inclui o lançamento de mísseis a partir do continente.

Biden parece mostrar um certo arrependimento pela crise ocasionada por sua correligionária, que de toda forma não esteve sozinha em sua decisão, na avaliação de Flavia Loss, professora de Ciência Política da FESPSP. “Pode até ter havido um certo voluntarismo por parte dela, que faz parte de um grupo dentro do Partido Democrata conhecido por provocações. Mas foi uma viagem desnecessária no momento. Não é o que o mundo precisa”, argumenta. Inclusive porque EUA e China mantêm interdependência econômica, principalmente em manufatura e tecnologia — o que ficou ainda mais evidente durante a pandemia. “Não faz sentido alimentarem uma escalada de animosidade”, observa.

Mesmo assim, o episódio ainda pode ter desdobramentos. Os EUA e a Europa dependem da neutralidade da China em relação à guerra na Ucrânia. Se Xi Jinping auxiliar decisivamente Vladimir Putin com recursos e armas, o conflito na Europa pode se somar a outra frente de tensão na Ásia, com uma nova Guerra Fria entre EUA e o gigante chinês, com ondas de choque globais.