Economia

Brexit, temporada 2: em busca de um acordo comercial

Brexit, temporada 2: em busca de um acordo comercial

(Arquivo) Corretor trabalha na Bolsa de Londres - AFP/Arquivos

A União Europeia entrará no sábado na segunda fase das negociações com Londres, a referente à relação futura, em particular em nível comercial.

Veja qual é a situação atual diante dessas discussões que prometem ser intensas.

– “Missão impossível” –

Os britânicos entrarão em um período de transição até 31 de dezembro, durante o qual continuarão a aplicar as regras europeias. É durante esse período que o novo relacionamento terá que ser negociado.

A Comissão apresentará em 3 de fevereiro um mandato de negociação, que deverá ser aprovado pelos Estados-membros em uma reunião ministerial em 25 de fevereiro. As discussões poderão então começar oficialmente.

Primeira etapa: 1º de julho. Até essa data, será decidido se o período de transição será estendido ou não – e, portanto, o período de negociação – por um ou dois anos. Mas o primeiro-ministro britânico Boris Johnson já rejeitou essa extensão e a consagrou em lei.

Se considerarmos o tempo necessário para a ratificação de um acordo, Londres e Bruxelas devem, portanto, ter no máximo apenas oito meses, de março a outubro, para chegar a um acordo. “Missão impossível”, resume um diplomata europeu.

– Acordo limitado –

Dadas essas restrições, a UE não poderá alcançar seu objetivo inicial de um “acordo global” que cubra todos os aspectos do relacionamento futuro (comércio de bens e serviços, migração ou até política externa).

“É a escolha britânica apressar o tempo das discussões”, disse o negociador-chefe da Comissão, Michel Barnier, no Sunday Journal.

Mas algumas questões terão que ser resolvidas, “caso contrário, criarão uma situação de ruptura”, alertou.

A prioridade de Bruxelas é alcançar, em 2020, compromissos em matéria de pesca, segurança interna e externa e, sobretudo, comércio de mercadorias. O restante será negociado mais tarde.

Em matéria comercial, Londres não aspira, de forma alguma, a um simples acordo de livre comércio, como os negociados pela UE com o Canadá ou o Japão.

A UE quer que o acordo inclua um mecanismo para resolver disputas, que possa impor sanções ou até suspender o futuro “acordo” em caso de não cumprimento de suas disposições.

– Barnier manobra –

“Uma dúzia de mesas de negociação” será aberta “em paralelo”, disse Michel Barnier, cujo colega britânico deve ser David Frost.

Segundo uma fonte europeia, apenas “oito a dez ciclos de negociação de uma semana” poderão ser organizados, “ou cerca de quarenta dias de pura negociação”.

Parece muito pouco quando levaram anos para chegar a um entendimento com o Canadá, um parceiro muito menor que o Reino Unido.

“Daremos duas ou três semanas a cada assunto e veremos o que será possível. Se o bloqueio for muito importante, passaremos a outra coisa. Haverá temas bem avançados, outros não chegarão a lugar algum”, antecipa um diplomata.

– Regras do jogo –

A principal preocupação de Bruxelas: garantir que Londres não desregule sua economia em questões ambientais, sociais, fiscais ou de auxílio estatal e comercialize seguindo condições equitativas.

Alguns Estados membros gostariam que os britânicos se alinhassem às regras da UE nessas quatro áreas e depois se adaptassem automaticamente às mudanças na legislação. Uma demanda considerada essencial, dada a proximidade geográfica e econômica do Reino Unido.

Mas Johnson “deixou claro que deseja um acordo de livre comércio no estilo canadense sem alinhamento”, recorda uma autoridade britânica.

“O ponto de partida são padrões excepcionalmente altos”, acrescenta.

– “Manter a unidade” –

“Será difícil manter a unidade europeia”, estima um diplomata europeu, com as prioridades das capitais não sendo as mesmas.

Os países do Leste Europeu atribuem grande importância aos bens industriais. Outros, como o Luxemburgo, aos serviços financeiros.

França, Dinamarca, Irlanda, Bélgica e Holanda desejam manter o acesso às águas britânicas para pescar, um assunto altamente simbólico que será examinado por outros países, preocupado com as concessões em Londres.

A pesca deve animar ainda mais as discussões, uma vez que Bruxelas parece condicionar a abertura de negociações puramente comerciais a um acordo nesta área.

As duas partes também prometeram chegar a um acordo sobre a pesca antes de 1º de julho.