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Brexit: por que ninguém quer essa batata quente?

Principais nomes da campanha pela saída do Reino Unido da União Europeia, Nigel Farage e Boris Johnson renunciam à liderança de seus partidos e aumentam a instabilidade do país

Crédito: Mary Turner/Getty Images

ABANDONO Nigel Farage (à esquerda) e Boris Johnson (à dir.): depois do “não” à UE, o “não” à liderança (Crédito: Mary Turner/Getty Images)

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NOVA TATCHER Theresa May é agora a favorita para suceder o primeiro-ministro, David Cameron

Desde que os britânicos decidiram sair da União Europeia (UE), em 23 de junho, a condução da política no Reino Unido tem parecido uma batata quente. Um dos principais defensores do “Brexit”, o ultranacionalista Nigel Farage renunciou à liderança do Partido pela Independência do Reino Unido (Ukip, na sigla em inglês) na segunda-feira 4. Embora não tenha tanta representatividade em Westminster, o Ukip tem 24 cadeiras no Parlamento Europeu e foi o principal responsável por forçar o primeiro-ministro, David Cameron, a convocar o plebiscito há três anos. Farage seguiu o mesmo caminho do conservador Boris Johnson, aliado na campanha pela ruptura com a UE, que abriu mão de se tornar o próximo premiê depois que Cameron renunciou e deixou o caminho livre para ele. Num momento crucial de sua história e de sua economia, Londres se vê sem uma liderança forte – nas palavras de Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, Farage e Johnson “abandonaram o barco”.

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“O resultado do plebiscito pegou muitos políticos de surpresa”, afirma Jan Gerhard, analista de política da consultoria IHS. “E parte do eleitorado se sente cada vez mais frustrada com a elite política e preocupada com tanta instabilidade.” A consulta popular também revelou novos cismas políticos. “A antiga divisão entre esquerda e direita tem sido gradualmente substituída”, disse à ISTOÉ Charlie Cadywould, especialista em política doméstica do Demos, centro de pesquisas de Londres. “Podemos falar em ‘abertos’ contra ‘fechados’ ou ‘liberais’ contra ‘comunitários’, mas essa separação tem potencial para dividir os dois principais partidos.” Para ele, a coalizão do Partido Trabalhista que inclui a classe média, liberais progressistas e trabalhadores que são socialmente mais conservadores parece mais vulnerável que nunca, assim como a do Partido Conservador que une eleitores do Sul e de áreas rurais, que, em sua maioria, votaram para sair da UE, e parlamentares apoiados pela City de Londres (centro financeiro), que tinha interesse na permanência.

Na ausência de um líder decisivo, o governo tem adiado questões-chave, como a tentativa de continuar participando do mercado comum, o que só aumenta a instabilidade dos mercados. Na semana passada, o Banco da Inglaterra divulgou um relatório em que admitia que a economia britânica havia entrado num “período de incertezas”. Ainda que a instituição não tenha colocado uma data, os cidadãos já sabem que esse período não vai acabar antes de outubro, que é quando deverá assumir o novo premiê. Na quinta-feira 7, a disputa interna dos conservadores para nomear o sucessor de Cameron chegou a uma convicção: pela primeira vez desde Margaret Thatcher, que deixou o governo em 1990, o próximo primeiro-ministro será uma mulher. O partido deverá indicar Theresa May, ministra do Interior e favorita ao cargo, ou Andrea Leadsom, ministra da Energia, e colocar nas mãos de uma delas o desafio de definir que tipo de relação Londres terá com a UE.