Edição nº2543 14/09 Ver edições anteriores

Bravos defensores do ensino público

Outro dia vi na internet uma foto pitoresca: cadeiras empilhadas até o teto, sem nenhuma ordem. De imediato, não consegui atinar com a finalidade daquilo, mas depois vim a saber que a foto fora clicada na Faculdade de Filosofia da USP, e que o monte de cadeiras — chamado “cadeiraço” — é uma nova modalidade de arruaça desenvolvido por grupelhos radicais para impedir o acesso dos professores às salas de aula. Os professores da Faculdade divulgaram um manifesto, protestando, com a devida veemência, contra as agressões de que frequentemente são alvo.

Práticas como essa surgem todo ano e confesso que tenho dúvidas quanto à utilidade de comentá-las. Acontece, infelizmente, que estamos falando da USP, a principal universidade brasileira. Quem a frequenta, ou teve oportunidade de lá estar alguma vez, sabe que o campus é magnífico, tão bonito e adequado a suas finalidades como o de muitas das melhores universidades do mundo. Acrescente-se que os estudantes lá admitidos recebem um benefício extraordinário, o de fazer seus estudos superiores sem pagar um décimo de um real. Sim, porque, como todos sabemos, a USP é uma universidade pública, portanto gratuita. Gratuita tanto para filhos de famílias ricas, de alta renda, como para pobres, filhos da pequena classe média ou de pais efetivamente pobres, mas ninguém ignora que entre os lá admitidos a proporção dos primeiros é muito maior que a dos segundos.

Não sei se os estudantes mais propensos à arruaça são principalmente os mais ricos ou mais pobres. Mas proponho uma hipótese. Quem fizer um levantamento entre os pais dos vinte por cento mais ricos provavelmente constatará que eles trocam de carro todo ano. Que não abrem mão de pelo menos uma viagem anual a Miami ou a Nova York. E que concordam inteiramente com o princípio da gratuidade. Resistem bravamente contra toda proposta de reformar o ensino superior brasileiro no sentido de torná-lo menos injusto. Muitos provavelmente se consideram “de esquerda” ou “marxistas”, mas sempre passaram batido sobre uma observação feita por Marx na “Crítica ao Programa de Gotha”, obra de 1875, onde ele diz que o ensino superior gratuito é uma forma escandalosa de privilegiar a burguesia com recursos extraídos de toda a sociedade sob a forma de tributos.

Muitos dos universitários mais ricos provavelmente se consideram “de esquerda” ou “marxistas”, mas passam batido sobre
a “Crítica ao Programa de Gotha”, obra de Karl Marx


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