Brasilêro de Coimbra

“Brasilêro” é uma das fontes brasileiras mais populares de todos os tempos. O projeto tipográfico começou com a análise de centenas de letreiros feitos à mão encontrados em diversas cidades brasileiras, numa tentativa de traduzir o impacto dessa cultura visual popular em uma tipografia digital. Coimbra é uma das cidades onde mais brasileiros moram em Portugal. E com muita probabilidade uma das que mais estudantes e doutores tem fora do Brasil. A Universidade de Coimbra está eternamente ligada ao Brasil, sendo uma das referências principais na construção dos pilares da nossa história, génese social, matriz cultural e barafundas políticas. Foi quando o meu avô materno veio para cá — como milhares de outros portugueses — ainda antes da segunda guerra mundial, procurando sonhos maiores do que Portugal permitia, que o Brasil entrou no meu coração, embora eu ainda nem tivesse nascido e muito tempo ainda haveria de passar para que eu o soubesse. Meu avô Fernandes ficou 11 anos sem dar notícias, e na sequência a reputação do Brasil ficou péssima junto da família. Falar do Maranhão e do Pará, ou de qualquer outro estado, praia, serra ou cidade brasileira, causava imediato conflito.

Na verdade, a minha mãe Piedade, que Deus bem a guarde, foi a principal prejudicada pela diáspora familiar. Primeiro, porque a ida dele lhe trouxe sorte; então a filha mais nova dos 5 irmãos da família, ganhou guarida junto de uns tios abastados que a criaram até ser menina e moça como uma princesa. Depois porque quando ele voltou — e a resgatou pela primeira vez para o seio familiar — ela culpou o Brasil pelas mordomias perdidas e não o pai, que acabava de voltar dessa peregrinação. Aconteceu muitos anos antes de eu nascer, mas esta história teve na minha vida uma importância fundamental. Foi por causa dela que desenvolvi uma extraordinária curiosidade por tudo o que acontecia na terra que fez o meu avô deixar para trás a mulher e os filhos e viajar milhares de quilómetros para tentar a sorte. Foi ela que me “apresentou” aos conceitos — família, fidelidade, certo, errado, poder, machismo, silêncio, raiva, vergonha e até vingança.

O Brasil entrou no meu coração, embora eu ainda nem tivesse nascido — e muito tempo ainda haveria de passar para que eu o soubesse

Mas mais importante que tudo, maior que todos os rancores que os Fernandes mantiveram entre si durante muitas gerações, foram os valores que compreendi ao mesmo tempo que conhecia a palavra Brasil: o amor e a liberdade. Talvez seja por isso que, muitas vezes, na minha vida pessoal e profissional, ainda antes de saberem meu nome, as pessoas já me saibam “brasilêro”.


Sobre o autor

José Manuel Diogo é autor, colunista, empreendedor e key note speaker; especialista internacional em media intelligence,  gestão de informações, comunicação estratégica e lobby. Diretor do Global Media Group e membro do Observatório Político Português e da Câmara de Comércio e Indústria Luso Brasileira. Colunista regular na imprensa portuguesa há mais de 15 anos, mantém coluna no Jornal de Notícias e no Diário de Coimbra. É ainda autor do blog espumadosdias.com. Pai de dois filhos, vive sempre com um pé em cada lado do oceano Atlântico, entre São Paulo e Lisboa, Luanda, Londres e Amsterdã.


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