Brasileiros acham que governo Lula gasta muito e querem limitação de supersalários

Pesquisa do Instituto Ideia mostrou ainda que 76% apoiam redução das emendas parlamentares

O presidente Lula (PT) e Fernando Haddad (PT), ministro da Fazenda
O presidente Lula (PT) e Fernando Haddad (PT), ministro da Fazenda Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

A maioria da população avalia que a gestão do Orçamento público é um problema grave e que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) gasta mais do que pode. Os dados são de pesquisa do Instituto Ideia, antigo Ideia Big Data, encomendada pelo Movimento Orçamento Bem Gasto.

Por outro lado, grande parte dos brasileiros defende o pagamento de benefícios atrelados ao salário mínimo e a manutenção dos pisos de Saúde e Educação, que pressionam as contas públicas. Também há a percepção de que o governo deveria cortar as emendas parlamentares e os supersalários do funcionalismo público.

Corrupção é principal problema das contas públicas

Segundo o levantamento, 60% dos brasileiros consideram que a gestão do Orçamento público é um problema grave do país. Para 55% dos entrevistados, o governo Lula gasta atualmente mais do que pode.

A corrupção é apontada como o principal problema do país por 31%. A economia — com temas como inflação, desemprego, aumento de impostos e pobreza — aparece em segundo lugar, com 17%.

No campo das contas públicas, a corrupção também lidera (39%), seguida de má gestão e desperdício (19%), gastos excessivos (15%), dívida pública elevada (8%) e arrecadação insuficiente (4%).

A dívida do governo federal, que atingiu 78,7% do PIB em 2025 e deve se aproximar de 84% do PIB em 2026, é considerada um problema muito grave por 58% dos entrevistados.

Sete em cada dez apoiam total ou parcialmente a criação de uma regra para controlar o crescimento dos gastos públicos. Atualmente, o governo adota o arcabouço fiscal, aprovado em 2023, mas muitos economistas avaliam que a regra se sustenta apenas até 2027, sendo necessária, depois disso, uma mudança ou um ajuste fiscal mais robusto.

Para 78% dos entrevistados, os benefícios pagos pelo governo deveriam ser reajustados anualmente de acordo com o salário mínimo. Benefícios previdenciários, o BPC (Benefício de Prestação Continuada), o seguro-desemprego e o abono salarial são vinculados ao mínimo e estão entre as despesas que mais crescem no Orçamento.

Apesar do apoio majoritário à vinculação, 31% defendem totalmente uma mudança na regra para organizar as contas públicas, e outros 31% apoiam parcialmente. Em 2024, o governo propôs, e o Congresso aprovou, uma regra que mantém a vinculação ao salário mínimo, mas limita o crescimento real (acima da inflação) a 2,5% ao ano — o mesmo teto previsto no arcabouço fiscal.

Situação semelhante ocorre com os pisos constitucionais de Saúde e Educação, que vinculam os gastos à arrecadação e crescem acima de outras despesas submetidas ao arcabouço, reduzindo o espaço para demais gastos.

Entre os entrevistados, 63% defendem a existência de um valor mínimo obrigatório de investimento. Ao mesmo tempo, 60% apoiam total ou parcialmente mudanças que deem mais liberdade ao governo para remanejar esses recursos.

‘Conta não fecha’, diz economista

Para o economista Fabio Giambiagi, pesquisador associado do FGV/Ibre, a pesquisa evidencia a necessidade de o governo explicar à população as medidas necessárias, inclusive durante as eleições.

Se você perguntar para qualquer pessoa: você quer pagar mais ou menos imposto? Ela vai dizer: vou querer pagar menos. Você quer que o governo gaste mais ou menos com Saúde e Educação? Ela vai dizer: que gaste mais. Quando você coloca tudo isso no conjunto, a conta não fecha“, afirmou.

Além disso, o economista defendeu alterar a regra de vinculação da despesa obrigatória em Saúde, para que o gasto passe a seguir o teto do arcabouço, e promover a estabilização real da despesa com pessoal e dos repasses ao Fundeb (Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica), que passariam a ser corrigidos apenas pela inflação.

“O governante tem o papel pedagógico de expor essas questões à sociedade, definir a agenda e estabelecer prioridades. Não será o Legislativo que vai pautar essa agenda. Isso começa por tratar as pessoas, o eleitor e o cidadão como adultos capazes de perceber as contradições e a necessidade de fazer escolhas”, disse.

Emendas e supersalários são mal vistos por brasileiros

Na pesquisa, 76% dos brasileiros disseram apoiar total ou parcialmente a redução do valor das emendas parlamentares. O Congresso aprovou R$ 62 bilhões para 2026, mas o presidente Lula vetou uma parte e bloqueou outra para recompor o caixa dos ministérios.

O Orçamento prevê R$ 50 bilhões em emendas diretamente controladas pelos congressistas em 2026, ano eleitoral. Elas representam cerca de 20% das despesas discricionárias do Executivo federal.

Outro gasto sob questionamento são os supersalários pagos acima do teto constitucional do funcionalismo público. O STF (Supremo Tribunal Federal) determinou o fim dos chamados “penduricalhos” – verbas que ultrapassam o limite – e discute com o Congresso uma transição para implementar a medida.

Mais da metade da população (55%) apoiaria totalmente a criação de uma lei para limitar os supersalários. Considerando também os que apoiariam parcialmente, o porcentual chega a 73%.

Segundo Giambiagi, as emendas têm peso relevante nas despesas e precisam ser revistas. Já os supersalários têm impacto menor no Orçamento, mas sua limitação é importante para conferir legitimidade a outras medidas.

“Cortar os supersalários não será a solução para o desequilíbrio fiscal. Porém, do ponto de vista da legitimidade das propostas, é impossível mexer em temas controversos sem tratar dessa questão”, afirma o economista. “O trabalhador que ganha um salário mínimo, e que, segundo alguns de nós, não pode ter reajustes na velocidade atual, vai questionar: ‘Vocês insistem para que eu não receba R$ 20 a mais por ano, mas por que não vão atrás de quem recebe metade do rendimento fora do contracheque?’.”

Tarifa zero

Outro tema abordado foi a possibilidade de o governo financiar a gratuidade do transporte coletivo em todo o País. O presidente Lula encomendou ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad, um estudo sobre a medida.

Especialistas estimam custo superior a R$ 90 bilhões para os cofres públicos. A Secretaria de Política Econômica do ministério emitiu parecer favorável a um projeto que abre caminho para o benefício, mas ressaltou que não há posição oficial da pasta sobre o tema.

A tarifa zero conta com apoio de 73% dos brasileiros, entre favoráveis e muito favoráveis. Ainda assim, 40% não aceitariam pagar mais impostos para financiar a medida. Outros 24% aceitariam se fosse comprovado que a iniciativa melhora a cidade, e 17% concordariam desde que o valor adicional fosse pequeno.