O Brasil precisa “dar um passo à frente e sair da armadilha do populismo” após a conclusão do terceiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), segundo Paulo Hartung (PSD), ex-governador do Espírito Santo.
Em entrevista à IstoÉ, o economista defendeu que a organização das contas públicas do país depende de uma “liderança disposta” a fazer reformas impopulares no Palácio do Planalto.
“Estamos em um ciclo populista, que não começou com o atual governo [Lula], mas o populismo não dá caminhos. A sociedade brasileira tem maturidade para isso [ajuste fiscal], mas dependemos de uma liderança“, disse Hartung, que chefiou três vezes o Executivo capixaba, foi senador, prefeito de Vitória e se consolidou como conselheiro buscado por políticos do centro à direita.
Brasil pode cuidar das contas e enfrentar pobreza, diz Hartung
Candidato à reeleição, Lula começa o último ano de mandato com o menor desemprego da série registrada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a extrema pobreza reduzida a 3,5% da população e os brasileiros que ganham até R$ 5 mil por mês isentos de pagar o Imposto de Renda.
Ao mesmo tempo, o Governo Central registrou um déficit primário de R$ 61,69 bilhões, pressionado pelo aumento de gastos em Previdência Social e BPC (Benefício de Prestação Continuada), as estatais geraram um prejuízo de R$ 8,6 bilhões aos cofres públicos e a carga tributária da população, que aumentou, deve crescer ainda mais.
Na avaliação do ex-governador, o cenário de aparente dicotomia entre responsabilidade fiscal e desenvolvimento social é uma farsa e reflete os caminhos equivocados do Executivo. “Só cuida das pessoas quem cuida das contas. Não adianta fazer um ciclo de desenvolvimento artificial e empurrar os problemas, que serão pagos pelo sucessor e pelo povo“, disse.
“Quando você desorganiza as expectativas na economia, há efeitos colaterais, como uma taxa Selic a 15%, que só se vê na Ucrânia, um país em guerra. Os juros elevados pegam a dona de casa, que resolve trocar o fogão e paga dois fogões e meio em parcelamento. Cortar gastos não é atingir os programas sociais. Pelo contrário, reduzir o desperdício no setor público permite que você tenha recursos para melhorar esses programas“, afirmou Hartung, citando políticas dos governos de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Michel Temer (MDB) como exemplos de responsabilidade com as contas públicas.

Paulo Hartung participa do IstoÉ Entrevista: ‘Brasil aperta botão do caminho fácil reiteradamente’
Apesar das críticas ao “ciclo de populismo” da política brasileira, o ex-governador apontou novas lideranças capazes de promover a superação desse modelo ao chegar à Presidência “em 2026 ou 2030”. Mais à esquerda, foram citados na entrevista o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), o governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT), e o prefeito do Recife, João Campos (PSB).
No outro espectro, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e os governadores do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), e do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD), todos pretendentes ao Planalto neste ano e seus colegas de partido — ambos aparecem atrás de Lula e Flávio Bolsonaro (PL), porém, nas pesquisas de intenção de voto.
No seu próprio caso, Hartung afirmou à IstoÉ que se dedica à construção de um programa de caráter nacional e à formação de novas lideranças para o PSD e decidirá entre julho e agosto sobre sair ou não candidato em outubro — ele é cotado para concorrer novamente ao Senado pelo Espírito Santo.
Assista à entrevista
Leia a íntegra
IstoÉ O terceiro governo Lula tem números positivos na redução da pobreza e negativos nas contas públicas. Como romper essa aparente dicotomia?
Paulo Hartung Cunhei uma frase que, de certa forma, caminha na direção desta resposta: ‘Só cuida das pessoas quem cuida das contas’. Não adianta fazer um ciclo de desenvolvimento artificial, aquilo que nós economistas chamamos de voo de galinha, porque pode ser até que você não pague a conta, mas o governo sucessor e o povo vão pagar.
Por isso, nós precisamos sair desse populismo prolongado que estamos vivendo. O populismo gosta muito de falar nos pobres, mas os erros de política econômica geram uma conta a ser paga justamente pela população mais pobre, como mostram eventos do passado brasileiro.
Mesmo com crescimento de receita, a carga tributária brasileira teve um aumento superior à inflação [em 2025] e a dívida-PIB cresce na direção de chegar aos 80% de tudo que o país produz. Quando você desorganiza as expectativas na economia, há efeitos colaterais. Um deles é a taxa Selic em 15%, o que só se vê no mundo na Ucrânia, um país que foi invadido pela Rússia e está em guerra. Dizem que isso é sentido apenas pelo grande empresário, mas não é verdade: a dona de casa, quando resolve trocar o fogão de casa, está pagando essa taxa de juros ao ter de pagar dois fogões e meio [em juros sobre o parcelamento].
“O populismo gosta de falar dos pobres,
mas quem paga a conta dos erros de política econômica são eles”.
É necessário cortar desperdícios na máquina pública. No meu último ciclo como governador [de 2015 a 2018], enfrentei uma recessão brutal, a maior redução da atividade econômica da história do país. Eu implantei dois programas, chamados Escola Viva e Regime de Colaboração, e onde arranjei dinheiro para isso? No desperdício da própria Secretaria de Educação.
O desperdício no setor público brasileiro é brutal, em todas as áreas. Muita gente fala que cortar gastos públicos atinge os programas sociais, mas na realidade é o contrário: se você corta um gasto, viabiliza recursos para melhorar um programa de transferência de renda, por exemplo. Na vida, há o caminho fácil e o caminho certo. O Brasil, reiteradamente, tem escolhido o caminho fácil.
IstoÉ Os governos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e os dois primeiros do presidente Lula promoveram desenvolvimento social e responsabilidade fiscal de forma equilibrada, mas houve uma ruptura nas gestões seguintes. Por que o Brasil retrocedeu neste sentido?
Paulo Hartung Se estamos em um regime presidencialista, precisamos que nosso líder maior ajude a conduzir o país nesta direção. Fernando Henrique criou a Lei de Responsabilidade Fiscal [em 2000], eu era senador na época, votei e ajudei na tramitação.. O [Michel] Temer, quando chegou [à Presidência da República, em 2016], com a desorganização fiscal do país, fez o teto de gastos. Você pode discutir essas ferramentas, mas ambas entregaram resultado.
Quando há uma liderança no Executivo disposta a organizar essas questões, consegue apoio no Parlamento, na Justiça, na sociedade, no Ministério Público, nas outras instituições de governo. Isso depende muito do líder. Nós estamos dentro de um ciclo populista — não começou com o atual governo, vamos ser honestos intelectualmente, estamos num ciclo. Nós dependemos muito da liderança. A sociedade brasileira tem maturidade para isso [reformas fiscais]? Claro que tem. Se você tiver um líder conversando, explicando, convencendo.
É por isso que eu torço para a evolução desse ciclo populista para um ciclo de novas lideranças. Em 2018, não havia [novas lideranças], mas hoje há. Quando você olha para os governos subnacionais, tem muita gente qualificada e que deseja ser presidente da República, agora ou em um futuro próximo. É trabalhar para que o país dê um passo à frente e saia dessa armadilha do populismo.
“Tem muita gente nos governos qualificada e disposta a presidir a República“.
IstoÉ Quem são essas lideranças?
Paulo Hartung É um grupo diverso. No Rio Grande do Sul, tem o governador Eduardo Leite, que é um belo líder. Mas no Ministério da Fazenda, o [Fernando] Haddad, promissor para o país. Em São Paulo, o Tarcísio [de Freitas], um técnico que está fazendo um bom governo, mas no Piauí, há um governador inovador [Rafael Fonteles] que é do PT. No paraná, o Ratinho [Júnior] está no segundo mandato e faz uma belíssima administração, de muito impacto. O governador de Goiás [Ronaldo Caiado], um parlamentar vivido, faz um bom trabalho.
Nas prefeituras municipais, você tem um Eduardo Paes [do PSD, prefeito do Rio de Janeiro], indiscutivelmente um bom gestor, capaz de executar as coisas, e em Pernambuco, o João [Campos, do PSB] na prefeitura do Recife, e ainda a Raquel [Lyra, do PSD] no governo. Todos são bons quadros, qualificados e de diferentes posições ideológicas. É uma nova geração que vai presidir o Brasil a partir deste ano ou a partir de 2030.
Temos um agronegócio que entrega muito para o país, assim como o setor de minerais e o de combustíveis fósseis, com 3,8 milhões de barris sendo produzidos diariamente; o setor de árvores cultivadas movimentou R$ 15 bilhões em 2025. O Brasil tem o que ninguém tem. Se as lideranças que estão emergindo conseguirem romper esse ciclo populista, teremos condições de aproveitar as oportunidades que o mundo nos apresenta.

Ratinho Júnior, Ronaldo Caiado e Eduardo Leite, do PSD: Hartung os citou como lideranças com potencial para presidir o país
IstoÉ No governo, o senhor enfrentou um motim da Polícia Militar e teve uma reação proporcional, determinando punições e se opondo à anistia. Parte desses governadore citados apoia a anistia a condenados por uma tentativa de golpe de Estado para não arriscar o apoio de Bolsonaro. Falta a esses políticos coragem para assumir posições corretas, ainda que impopulares?
Paulo Hartung Todos eles, ao longo de seus anos de governo, enfrentaram problemas e têm treinamento para isso [tomar decisões impopulares]. Um líder precisa, acima de tudo, ter boa capacidade de comunicação. No governo Temer, a retomada da discussão da Reforma da Previdência [aprovada em 2019] só aconteceu porque se encontrou uma narrativa. O governo mostrou que havia desperdício e as pesquisas mostraram que, pouco a pouco, os brasileiros foram aprovando.
Vamos pegar o exemplo do Eduardo [Leite]. Ele é o primeiro governador reeleito do Rio Grande do Sul, depois de promover reformas que não parecia que os gaúchos aceitariam. Houve movimentos contrários, mas ele conseguiu aprovação na Assembleia [Legislativa] e reestruturou muita coisa no estado dialogando e defendendo. A batalha principal é a da comunicação.

Ex-governador do ES em participação no IstoÉ Entrevista: ‘Principal batalha da política é a comunicação’
IstoÉ O governo Lula registrou recordes de queimadas na Amazônia e pressionou o Ibama para explorar petróleo na Margem Equatorial. Quais são as credenciais dessa gestão para ostentar as bandeiras da boa política ambiental, como fez na COP30?
Paulo Hartung A legislação [ambiental] pode ser aperfeiçoada. Não vejo problema nenhum quanto a isso e não há razão para precipitação. A gente tem que olhar a ciência — ou a gente acredita na ciência, ou usa a ciência para fazer política, e isso não vale a pena.
O governo [Lula] tem pontos positivos na área de meio ambiente? Tem, indiscutivelmente. Tem problemas? Tem. A devastação ambiental tem um tamanho no Brasil que ainda desafia o governo, [que] mesmo tendo tecnologia e agências, não está dando conta do recado 100%. Mas eu não tiro o mérito.
O que nós precisamos pensar é onde foi parar essa agenda no mundo. Isso me preocupa mais. Um amigo meu, falando da COP30, disse: ‘Parece que é uma coisa que aconteceu há três anos atrás’. Parece que saiu da agenda, e essa é uma preocupação.
O mundo vinha numa cadência de fortalecer a agenda ambiental, climática, da biodiversidade e que trata da desertificação, e em algum momento essa agenda perdeu força. É o trumpismo [movimento do governo Donald Trump, dos Estados Unidos], mas não é só isso. Tem que olhar isso, porque nós precisamos ter engenho e arte para trazê-la de volta. Ela é inescapável, na minha opinião. Nós planetários temos que enfrentá-la.
“A agenda ambiental perdeu força em algum momento. É o trumpismo, mas não só“.
IstoÉ O PSD tem três pré-candidatos à presidência da República e ligações tanto com Lula quanto com Bolsonaro. Qual será seu papel no partido nas eleições de 2026? Será candidato a algum cargo?
Paulo Hartung O Gilberto Kassab [presidente do PSD] me convida a entrar partido desde a fundação. Neste último convite [que foi aceito], ele me pediu para ajudar no trabalho programático do partido. O PSD está sendo craque em juntar gente, mas precisa construir uma linha programática forte para pensar o Brasil de hoje e do futuro.
Desde que a legislação proibiu coligações proporcionais e criou a cláusula de desempenho [em 2017], o número de partidos está diminuindo. Isso é bom e impõe que cada um deles se esforce para ser programático e formar novas lideranças — que foi o segundo pedido que o Kassab me fez. Estou cumprindo esta missão.
Não descarto disputar uma nova eleição, mas também posso continuar trabalhando no campo das ideias ou atuar como cabo eleitoral no meu estado, ajudando jovens a chegarem na Assembleia Legislativa, na Câmara dos Deputados, Senado ou governo. Meu tempo [para definir a candidatura] é diferente, porque estou na iniciativa privada e não preciso me desincompatibilizar. Ele vai de 20 de julho a 5 de agosto [período das convenções partidárias], quando terei de decidir se coloco o barco para navegar ou sigo trabalhando no campo das ideias, porque nunca vou deixar a política, mesmo sem disputar mandato eletivo.
Entre julho e agosto, tomarei essa última decisão. Mas me sinto muito feliz. Disputei oito eleições na vida e exerci oito mandatos. Só não consegui ser presidente da República ou vice-presidente — o que seria até mais compatível para um líder de um estado com eleitorado pequeno, como é o Espírito Santo. O mais importante é seguir contribuindo para que o Brasil consiga evoluir, parar de repetir erros e transformar seu potencial em oportunidade para os seus filhos, principalmente os mais jovens.