Edição nº2496 12.10 Ver edições anteriores

Brasil Livre? Nem tanto…

Que fique claro, há tempos dispenso o mais absoluto desprezo por essa molecada do MBL incapaz de articular algo que não desague no Fla-Flu ideológico. Habitualmente condeno o fato de a nossa juventude ser pouco interessada em política, mas nesse caso abriria uma exceção.

Feito o disclamer, admito, perdi dois minutos irrecuperáveis assistindo a um vídeo em que o tal de Kim Kataguiri defende o boicote estimulado pelo grupo à exposição Queermuseu, promovida em Porto Alegre pelo Santander Cultural. O discurso é de uma pieguice lapidar — a mostra seria intolerável por explicitar pedofilia, zoofilia e “ofensas à fé cristã” —, entretanto, também sintomático: a menção final ao “pessoalzinho de esquerda” deixa claro o norte estratégico e moral do movimento.

É óbvio que tal postura foi asquerosa. Mesmo levando-se em conta os padrões de um pessoal habituado a flertar com o clã Bolsonaro.

Aliás, não bastasse o desinteresse pelo direito alheio de apreciar diferentes tipos de manifestações artísticas e a alta dose de provincianismo, ainda por cima tentou-se argumentar que, ao incentivar um boicote desse tipo, o grupo não incita à censura, mas tão somente exerce “pressão popular”.

Como se pode perceber, honestidade intelectual e uma visão de mundo menos estreita não são pontos fortes das vacas premiadas da nossa direita imberbe, dentre as quais o próprio Kataguiri, Fernando Holiday e os herdeiros de Bolsonaro. Porém, não é só. Também falta uma pauta. E talvez seja essa a sua carência mais alarmante.

No fundo, o objetivo dessa turma é apenas beber na fonte do anti-esquerdismo para impulsionar seus projetos eleitorais. Quanto mais conseguirem elevar o tom para rivalizar com a esquerda estabelecida, melhor para eles e pior para o país, uma vez que ambos os lados se alimentam do antagonismo mútuo.

Honestidade intelectual e uma visão de mundo menos estreita não são pontos fortes das vacas premiadas da nossa direita imberbe

Trocando em miúdos, o projeto de poder do Movimento Brasil Livre não inclui o Brasil. Tampouco um país que seja livre, como ficou claro durante a semana. Teve a sorte de surgir em um momento oportuno e, ao invés de trazer o debate para um ponto maduro, apenas se preocupa em espelhar suas estratégias nas de seus rivais políticos, empobrecendo ainda mais o debate. Resta torcer para que a sociedade desista de apostar em extremismos. Tanto os já conhecidos quanto os reacionários.


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