Semanal

Brasil e Índia: governantes omissos

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Bolsonaro e embaixador da Índia, Suresh Reddy (Crédito: Divulgação)

O Brasil e a Índia, ambos membros do antes promissor bloco de países em ascensão, os “Brics” – compostos por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul -, estão mal das pernas. O Brasil com a sua desastrosa falta de planejamento em todos os âmbitos da pandemia: falta do isolamento, do distanciamento social, do uso de máscaras, da compra de imunizantes, e, sobretudo, um discurso presidencial que até poderá levar o presidente a responder por crimes contra a humanidade em tribunais internacionais, além de punições na CPI. Já Narendra Modi, primeiro-ministro indiano, celebrou a vitória sobre a Covid-19 cedo demais.

No início das infecções, Modi adotou medidas draconianas de lockdown, deixando muitos habitantes que trabalhavam em outros estados sem transporte para voltarem para as suas casas. Mas, apesar de pequenos erros, a medida parece ter dado certo e o país de 1,3 bilhão de pessoas parecia ter o vírus sob controle, ou seja, os hospitais não estavam sobrecarregados. O mundo se perguntava como um país como a Índia, com uma população gigantesca, sem saneamento básico e rincões de pobreza extrema, estava tão imune à pandemia? Houve até quem aventasse, de maneira politicamente incorreta, de que uma população que se banhava no rio Ganges, um dos mais poluídos do mundo, possuía anticorpos misteriosos.

No entanto, nada disso era verdade e quando a população indiana começou a sair de suas casas, principalmente em grandes aglomerações em festivais religiosos, a verdade veio à tona em forma de uma segunda onda cruel: só no dia 24 de maio foram registradas 4.087 mortes e esse número pode ser muito maior, já que muitas pessoas não possuem certidão de nascimento e os hospitais enfrentam o completo caos e a falta de testes. Imagens do Ganges com corpos boiando em suas margens ou piras de cremação chocaram o mundo. E ali surgia a agora conhecida “variante indiana”, mais forte até que a “variante de Manaus” e que chegou ao Brasil de forma avassaladora, provocando o recrudescimento da pandemia por aqui.

Assim como o presidente Jair Bolsonaro, o primeiro-ministro Narendra Modi possui uma grande parcela de apoiadores, que tanto lá como cá, diminui a cada dia. Eleito em 2014 com promessas de aumentar o crescimento econômico, gerar empregos, oferecer eficiência administrativa e assim aumentar a estatura da Índia no cenário global, ainda não conseguiu cumprir nada disso. Na mesma situação encontra-se Bolsonaro, cuja credibilidade cai a cada dia e que terá muita dificuldade de se reeleger, principalmente porque está cada vez mais claro que ele é o responsável direto pelo Brasil ter chegado nesta terça-feira à trágica marca de 450 mil mortos. E as previsões indicam que esse número poderá chegar em julho a quase 700 mil, ou a um milhão até o final do ano, principalmente porque as vacinas, que deveriam ter chegado no final do ano passado, ainda estão chegando a conta gotas.

Apesar do drama de milhares de famílias, Bolsonaro ri da tragédia, diz que não é coveiro, que a culpa não é sua e passeia de moto como se celebrasse a vitória de uma copa do mundo. Modi, por seu lado, simplesmente sumiu da mídia e de eventos públicos. Mal faz pronunciamentos e se isola, não faz o que se esperaria de um líder indiano no maior desastre que seu país vive desde a independência do domínio colonial britânico, em 1947. Os dois poderiam poderiam muito bem usarem o papel de chefes de estado para tomar as medidas adequadas, com a adoção de medidas sanitárias, que troquem a cloroquina por vacinas, para conter a expansão do vírus. Poderiam sinalizar consolo e esperança às suas nações, visitar hospitais e fazer até o impossível para comprar mais imunizantes, com mais celeridade. Infelizmente, decidiram negar a realidade esperando que o vírus simplesmente suma naturalmente, por força divina. A omissão tem um preço e eles deverão pagar por isso.