Brasil avança em indicadores de desigualdade, mas desafios persistem

Relatório do Observatório Brasileiro das Desigualdades 2026 aponta progressos em 71% dos indicadores analisados

Brasil avança em indicadores de desigualdade, mas desafios persistem

O Observatório Brasileiro das Desigualdades 2026 revela que o Brasil registrou avanços em 34 (71%) dos 48 indicadores analisados no último ano, no processo de enfrentamento das desigualdades sociais. Apesar da melhoria de renda média, aumento do mercado de trabalho e redução da pobreza, a análise aponta que mecanismos que perpetuam disparidades ainda persistem no país.

  • O Brasil avançou em 71% dos indicadores de desigualdade social em 2025, conforme o relatório 2026 do Observatório Brasileiro das Desigualdades.
  • Melhorias foram notadas em áreas como renda média, mercado de trabalho, redução da pobreza, segurança alimentar, acesso a serviços básicos, saúde e educação.
  • Apesar dos progressos, oito indicadores pioraram, revelando a persistência de mecanismos que reproduzem disparidades de renda, gênero, raça e território.

Entre os progressos observados, destacam-se a melhoria da renda média e o crescimento do mercado de trabalho, contribuindo para a redução da pobreza e o aumento da segurança alimentar e do acesso a serviços básicos.

Outras áreas que apresentaram melhorias significativas incluem a saúde, com a diminuição da desnutrição infantil e de idosos; a educação, evidenciada pela queda do analfabetismo; e a segurança pública, com a redução da taxa de homicídios registrados entre jovens de 15 a 29 anos.

Desafios persistentes: onde o Brasil piorou?

Apesar dos avanços gerais, o relatório também aponta um cenário de piora em oito indicadores e a estabilidade em outros seis. Os retrocessos incluem a ampliação da diferença salarial entre homens e mulheres, com remuneração inferior para o público feminino, e o agravamento da concentração de renda.

Outros pontos críticos são a manutenção de uma tributação que penaliza os de menor renda e beneficia os de maior poder aquisitivo, as condições mais desfavoráveis enfrentadas pela população negra e o acentuado aumento da concentração dos piores indicadores sociais nas regiões Norte e Nordeste do país.

Para os responsáveis pela pesquisa, esses indicadores em declínio evidenciam que os principais mecanismos de reprodução das desigualdades sociais permanecem em pleno funcionamento.

“O crescimento econômico beneficiou diferentes grupos sociais, mas não foi suficiente para reduzir as disparidades históricas de renda, gênero, raça e território”, destaca o relatório.

Metodologia e atualização dos dados

A edição atual do relatório é a quarta desde sua primeira publicação em 2023. A análise se baseia em indicadores de 2025, com ressalvas para algumas bases de dados que não são atualizadas anualmente.

Um exemplo notável é a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), que oferece dados sobre gastos com transporte e carga tributária a cada dois anos. O Indicador de Analfabetismo Funcional (Inaf) também segue um ciclo de atualização mais longo, tendo sido divulgado em 2024 após seis anos.

Adriana Marcolino, diretora técnica do Pacto Nacional pelo Combate às Desigualdades, explica que essa defasagem temporal de alguns dados não compromete a comparabilidade do relatório. “Nesses casos, a gente olha o dado em comparação com o mesmo dado do ano anterior, então isso não cria um viés de tempo. Os indicadores que a gente acompanha já indicam tendências pelo fato de já termos quatro anos de relatórios”, afirma.

No prefácio da publicação, Betina Ferraz Barbosa, coordenadora da Unidade de Desenvolvimento Humano do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) Brasil e economista-chefe do PNUD Brasil, ressalta a complexidade da análise. A avaliação dos indicadores vai além do conceito de desenvolvimento humano focado apenas em aspectos econômicos, de saúde e educação.

“Os números médios escondem uma realidade mais complexa: os avanços foram reais e, ao mesmo tempo, profundamente desiguais”, destaca Barbosa.

Da IstoÉ