SÃO PAULO, 24 DEZ (ANSA) – Por Beatriz Farrugia – Crime ambiental, mudanças climáticas, queimadas, aquecimento global, Amazônia. Foi praticamente impossível passar o ano de 2019 sem ouvir pelo menos um desses termos no noticiário. No Brasil, o ano começou com a tragédia da mineradora Vale, em Brumadinho, Minhas Gerais. Na tarde do dia 25 de janeiro, a barragem da mina Córrego do Feijão se rompeu, despejando 14 milhões de toneladas de rejeitos de minério de ferro sobre o município mineiro. Depois de 11 meses do crime ambiental, 257 mortes foram confirmadas, mas 13 pessoas ainda continuam desaparecidas debaixo da lama. Ninguém foi preso até o momento.   

Nos meses seguintes, o tema ambiental voltou várias vezes à tona no noticiário devido aos embates do presidente Jair Bolsonaro e do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que divulgou dados que apontavam um aumento significativo do desmatamento e das queimadas na Amazônia.   

Após as críticas de Bolsonaro às pesquisas do Inpe e os questionamentos sobre a veracidade das informações, então diretor do instituto, Ricardo Galvão, acabou exonerado. No auge da polêmica, em agosto, o presidente francês, Emmanuel Macron, tentou mobilizar os países-membros do G7 a adotarem medidas de proteção da Amazônia, o que irritou mais ainda o governo Bolsonaro, que acusou o europeu de interferir na soberania nacional. “O presidente Jair Bolsonaro, por linhas tortas, colocou o tema ambiental como destaque na agenda. Tanto na grande mídia quanto na agenda interna e no cenário internacional”, disse à ANSA Marcio Santilli, sócio-fundador do Instituto Socioambiental (ISA) e presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai) entre 1995 e 1996.   

No segundo semestre de 2019, uma nova crise ambiental atingiu o Brasil com o derramamento de óleo em dois mil quilômetros do litoral das regiões nordeste e sudeste. Até outubro, mais de 200 localidades, em nove estados, tinham sido contaminadas. Segundo o Ministério Público Federal (MPF), trata-se do maior desastre ambiental já registrado no litoral brasileiro. Até agora, não se sabe a origem do derramamento, mas Bolsonaro chegou a acusar a ONG GreenPeace de envolvimento no caso.   

“A contaminação pelo óleo é um claro reflexo de uma omissão e de um retardamento na resposta das autoridades”, disse à ANSA Pedro Roberto Jacobi, professor do Programa de Pós Graduação em Ciência Ambiental da USP e presidente do IICLEI.   

Ao longo de 2019, Bolsonaro também acusou o ator Leonardo Di Caprio de doar dinheiro para criminosos que provocam queimadas na Amazônia e chamou a ativista sueca Greta Thunberg de “pirralha”, um dia antes da jovem ser eleita “Personalidade do Ano” pela revista Time. “Desde que o governo começou, em janeiro, o presidente já acenava em sair do Acordo de Paris e de desfazer o Ministério do Meio Ambiente. Algumas das promessas não aconteceram de fato porque houve pressão da sociedade civil. Mas o esvaziamento dos órgãos, como o ICM-Bio e o Ibama, e a perseguição à ciência, que se reflete na demissão do presidente do Inpe, criam um discurso que estimula as operações ilegais que se refletem nas queimadas e no desmatamento”, comentou Jacobi.   

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Já o ministro Ricardo Salles gerou polêmica nas redes sociais ao ironizar as emissões de gás carbônico, ao mesmo tempo em que participava da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 25) em Madri, na Espanha. O ministro publicou uma foto de um churrasco com a legenda “para compensar nossas emissões na COP, um almoço veggie”. O ano de 2019 acabou com dois índios guajajara mortos em um ataque a tiros no interior do Maranhão, no dia 7 de dezembro, e com a Polícia Civil do Pará indiciando quatro brigadistas pelos incêndios na Área de Proteção Ambiental de Alter do Chão, no dia 21 de dezembro. “É lamentável que o país esteja nessa situação. Porém, também vai se abrindo uma oportunidade para que se tenha um entendimento bem maior por parte da população para temas ambientais. O interesse nesse assunto foi quase inédito. Grande parte da sociedade brasileira que nunca esteve ligada diretamente a esse tema passou a tomar posições públicas, a se articular”, afirmou Santilli. “Se, por um lado, as ameaças cresceram exponencialmente, por outro, cresceu também a capacidade de resistência da sociedade brasileira”, acrescentou.   

“Mas a tendência é de polarização em 2020: o governo avançando no lado dele, e a resistência também”, apostou Santilli, do ISA.   

“No fim do dia, quando olharmos para 2019, terá sido um ano péssimo para o meio ambiente. E as perspectivas para 2020 também não são boas”, finalizou Jacobi. (ANSA)


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