Cultura

Bowie e Iggy Pop em Berlim rumo ao Olimpo

A mitologia grega nos ensina que nem os deuses da Antiguidade agiam sozinhos. Não era raro que divindades da estirpe de Zeus, Afrodite ou Atena recorressem a mortais para botar seus desígnios em prática. Pois haveria de ser diferente entre os deuses da cultura pop, um par de milênios mais tarde?

Quis o destino que dois desses deuses se mudassem para Berlim Ocidental em 1976. A ideia, hoje, soa curiosa: os amigos David Robert Jones e Jim Newell Osterberg Jr. foram para a capital alemã para fugir um tanto das bad trips da fama e da cocaína, botar a vida nos eixos e encontrar um pouco de sossego e paz para trabalhar. Pelo visto, o plano funcionou: os dois anos e pouco que ambos passaram em Berlim seriam decisivos no caminho de David Bowie e Iggy Pop rumo ao Olimpo.

Entre as “pedrinhas miudinhas” que cruzaram o caminho de Bowie e Iggy nessa época estava o engenheiro de som Eduard Meyer. Hoje com 73 anos, Meyer havia começado a trabalhar poucos meses antes no Hansa Studio, quando Bowie chegou para a parte final da produção do álbum Low. Apesar da fama que já conquistara no Reino Unido e nos EUA (já emplacara clássicos como Space Oddity, Life on Mars e Rebel Rebel), Bowie ainda era virtualmente anônimo na Alemanha. “Ele chegou ao Hansa como um novo cliente, sem grande badalação”, conta Meyer. “Acabei indo trabalhar com eles porque era quem falava melhor inglês.”

Eles, no caso, eram sobretudo Bowie, sua amiga e assistente Corine “Coco” Schwab, o produtor Tony Visconti e o multi-instrumentista Brian Eno, além de Iggy. “Com David, o primeiro take estava sempre certo”, lembra Meyer, enquanto mostra as escadas onde ele e Visconti posicionavam microfones para conseguir “o som ambiente”. Além de tarefas como essa – e de fazer café para a trupe -, Meyer acabou tocando violoncelo na faixa Art Decade.

Foi nessa época que Bowie apelidou o estúdio de “the big hall by the wall”, “a grande sala junto ao muro”. É preciso certo esforço para tentar imaginar o que isso significava na época. Se hoje a vizinha Potsdamer Platz é um centro pulsante da Berlim turística, na época o Hansa ficava em uma área quase descampada, literalmente o fim do mundo (capitalista, ao menos) – apenas 273 passos separavam o estúdio do famigerado Muro de Berlim. Da janela da ilha de edição se via uma das torres de vigilância dos soldados soviéticos.


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Em certa noite do verão de 1976, essa mesma janela estava aberta por conta do calor, e Bowie e Visconti conversavam sobre o muro. “Resolvi pregar uma peça neles”, diverte-se Meyer. “Virei a luminária na direção da torre em que os guardas estavam e comecei a piscar a luz. Imediatamente, David e Tony se jogaram no chão”, ri. “Então eu os tranquilizei, dizendo: ‘Eles não vão fazer nada!’.”

No estúdio, havia um canto favorito de Iggy Pop. “Enquanto trabalhávamos em Low, Jim (Meyer só se refere a ele com seu nome verdadeiro) se deitava aqui com um caderninho e trabalhava nas letras das canções que estariam no ano seguinte em Lust for Life, também gravado por Meyer. Ali nasceu uma de suas mais clássicas músicas, The Passenger, inspirada pelas viagens de Iggy pelos metrôs e trens de Berlim.”

Mas nem só de trabalho eram os dias no Hansa. “Certa vez, três belas garotas apareceram aqui no estúdio atrás de Bowie”, conta. Ele sorriu, pediu para as garotas esperarem e disse para Iggy: “Jim, escolha a que preferir, eu fico com as outras duas”, lembra Meyer aos risos.

Bowie e Iggy viveram em Berlim até 1978. Desse período, ainda sairiam do Hansa os álbuns The Idiot e Lust for Life (gravado em inacreditáveis oito dias), de Iggy, e Heroes, de Bowie – três clássicos absolutos. Uma curiosidade da faixa-título, cuja inspiração veio quando Bowie viu Visconti abraçado à namorada junto ao muro, foi a participação relâmpago do guitarrista Robert Fripp: durou exatamente um dia. Veio de Nova York, gravou e tomou o avião de volta para casa.

Meyer – que desde que se aposentou em 2003 voltou para sua Lübbecke natal – e Bowie ainda trabalhariam juntos no disco Baal (1982), com músicas da peça de Brecht. O engenheiro conta que demorou um bom tempo para perceber que tinha feito parte de algo grandioso. “Com o tempo fui percebendo a importância de David, mas na época não tínhamos, nem de longe, essa noção. Fico feliz e agradecido de ter participado de discos tão importantes.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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