Aliados de Boulos acusam militantes de dividir partido e apontam fogo amigo no PSOL

Acusação ocorre após dissidentes da Revolução Solidária afirmarem que Boulos iria para o PT; ministro nega saída e diz que futuro político ainda está em discussão

Guilherme Boulos
Guilherme Boulos, ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, nega que deixará o PSOL imediatamente Foto: Divulgação/SGPR

Aliados do ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, avaliam que a carta enviada por membros do PSOL que o atacam representa um episódio de fogo amigo dentro do partido. Em documento obtido pela ISTOÉ, integrantes da corrente Revolução Solidária, comandada por Boulos, negam mudança imediata de legenda, acusam militantes de dividir o partido e afirmam que parte da sigla “não quer crescer”.

A reação ocorre após dissidentes da própria Revolução Solidária divulgarem uma nota em que afirmam que o ministro teria comunicado ao grupo a intenção de deixar o PSOL e migrar para o PT. O texto acusa Guilherme Boulos de ter articulado a saída ainda no ano passado e de usar o debate sobre federação partidária como pretexto para a mudança. Como mostrou a ISTOÉ, a proposta de federação foi rejeitada pela executiva do PSOL.

A nota provocou forte reação entre aliados de Boulos. Segundo interlocutores próximos ao ministro, o episódio foi interpretado como fogo amigo e ataque pessoal. A aliados, Boulos classificou o conteúdo como “de baixo nível” e acusou oportunismo e disseminação de informações falsas a seu respeito e sobre a corrente Revolução Solidária.

A avaliação foi reforçada em carta divulgada pela corrente nesta sexta-feira, 20. O documento aponta que há uma perseguição interna contra Boulos desde que ele assumiu o cargo no governo Lula e critica setores do partido que, segundo o grupo, preferem manter o PSOL como “consciência crítica da esquerda”, sem disputar poder institucional.

“A verdade é que, desde que Guilherme Boulos se tornou ministro, esses companheiros, agora dissidentes, se alinharam com os mesmos que assinaram artigo na Folha intitulado: ‘O PSOL é o futuro da esquerda’, defendendo que Boulos não fosse ministro. O debate de federação apenas evidenciou a posição que, infelizmente, encontra maioria no PSOL hoje: querem o partido apenas como consciência crítica da esquerda, não querem crescer e disputar poder. Querem, para sempre, apontar problemas sem participar da solução”, afirma a carta.

Boulos também negou uma mudança imediata de partido, mas não descartou a possibilidade de migração no futuro. Em nota, o ministro afirmou que o tema segue em discussão. Na última semana, a ISTOÉ antecipou que ele e a deputada Erika Hilton mantêm conversas com o PT, ainda em fase inicial. A informação foi confirmada por ao menos cinco interlocutores das duas legendas.

Leia a nota completa da Revolução Solidária

NOTA DA REVOLUÇÃO SOLIDÁRIA

Contra a mentira e a tentativa de confundir a militância

A nota intitulada “Nunca foi sobre federação” é mentirosa, perversa, cheia de insinuações, versões distorcidas e ataques pessoais.

Não se trata de divergência honesta. Trata-se de construir uma narrativa artificial para tentar deslegitimar uma posição política que não conseguiram derrotar no debate franco.

A federação esteve, sim, no centro da discussão. Foi defendida publicamente, debatida nas instâncias e apresentada como um caminho estratégico para enfrentar a extrema-direita, reeleger Luiz Inácio Lula da Silva e ampliar o campo progressista. Negar isso agora é reescrever os fatos de forma oportunista. Fato é que alguns poucos militantes não aceitam métodos democráticos, se acham iluminados, donos da verdade e, quando não convencem (porque não têm base), iniciam linchamento público e tentativas de divisionismo.

A verdade é que, desde que Guilherme Boulos se tornou ministro, esses companheiros, agora dissidentes, se alinharam com os mesmos que assinaram artigo na Folha intitulado: “O PSOL é o futuro da esquerda”, defendendo que Boulos não fosse ministro. O debate de federação apenas evidenciou a posição que, infelizmente, encontra maioria no PSOL hoje: querem o partido apenas como consciência crítica da esquerda, não querem crescer e disputar poder. Querem, para sempre, apontar problemas sem participar da solução.

A tentativa de reduzir esse debate a uma suposta “operação” pessoal de Guilherme Boulos é, além de falsa, politicamente pobre. Ignora deliberadamente que estamos falando de uma discussão que atravessou o partido, envolveu centenas de militantes, dirigentes e parlamentares, e que respondeu a um problema real: como a esquerda se organiza para disputar poder no Brasil.

É especialmente grave a forma como a nota tenta lançar insinuações sobre Natália Boulos. Ao recorrer a esse tipo de ataque, sem qualquer prova, os autores abandonam completamente o terreno político e apelam para a desqualificação pessoal um expediente baixo, que não contribui em nada para o debate e revela mais sobre quem acusa do que sobre quem é acusado. Natália é dirigente nacional da Revolução Solidária, uma liderança popular forjada nas lutas, e não em acordos de gabinete e é justamente isso que parece incomodar.

A militância da Revolução Solidária não é massa de manobra de uma teoria conspiratória. Nossa militância é forjada na luta. Quem milita, constrói base, disputa eleição e organiza o partido sabe que as decisões políticas são fruto de acúmulo coletivo, não de roteiros secretos inventados depois dos fatos.

As acusações de pressão, promessas e “fundos e mundos” não passam de ilações sem prova, usadas para tentar gerar medo e confusão. É um recurso conhecido: quando falta política, sobra insinuação.

O debate sobre os rumos da Revolução Solidária foi apenas iniciado na Coordenação Nacional. O ministro Guilherme Boulos, junto com nossos parlamentares, e a nossa militância, farão os debates necessários de forma conjunta e com responsabilidade política. Em breve, teremos uma decisão.

A história não se constrói com boatos. Constrói-se com posição, coragem e compromisso político!