Lançado nesta quarta-feira, 28 de janeiro, o novo álbum de Borges, “O Sol Também Chora”, chega como um dos projetos mais profundos, ambiciosos e simbólicos do rap nacional recente. Com participações inéditas de Emicida, BK, Teto, Duquesa e Ryu The Runner, o disco ultrapassa o território musical e se consolida como um manifesto sócio-político, espiritual e geracional.
Mais do que rimas, Borges entrega discurso. O álbum representa o homem preto que venceu o improvável, mas que compreende que sua vitória ainda é exceção dentro de um sistema estruturalmente desigual. Suas letras caminham pela tensão entre sobrevivência e propósito, fé e fúria, glória e culpa, revelando um artista consciente do peso simbólico que carrega.
Borges fala do gueto não como quem quer fugir, mas como quem o carrega nas costas. Essa postura o aproxima de pensadores e líderes como Malcolm X, Martin Luther King, Nelson Mandela, além de referências brasileiras como Abdias do Nascimento, Lélia Gonzalez e Mano Brown — todos enxergando o negro como agente de transformação, e não apenas como símbolo da dor.
A faixa “Guetto Gospel” sintetiza esse espírito ao declarar: “Eu sou Martin, não sou Gandhi, eu tenho uma arma comigo.”
A frase evoca o enfrentamento de Malcolm X, mas logo se cruza com o dilema de Martin Luther King: a fé, o sofrimento e o desejo de redenção. Essa dualidade atravessa todo o álbum e faz de “O Sol Também Chora” uma obra que transcende o rap para se tornar a voz de uma geração.