Os bombardeios israelenses na Faixa de Gaza e um novo fogo cruzado entre Israel e o movimento pró-iraniano Hezbollah na fronteira com o Líbano reacenderam os temores de uma conflagração regional nesta sexta-feira (21).

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, afirmou que o Líbano não deve se tornar “outra Gaza” e denunciou a “retórica belicista” de Israel e do Hezbollah, que gera temores de uma catástrofe “inimaginável”.

O Exército israelense indicou que, durante a noite, interceptou um objeto aéreo “suspeito” lançado do Líbano. A mídia libanesa, por sua vez, noticiou bombardeios israelenses no sul do país.

A fronteira entre os dois países registra duelos quase diários de artilharia desde o início da guerra entre Israel e o movimento islamista palestino Hamas, no poder em Gaza, em 7 de outubro de 2023.

As forças israelenses intensificaram nesta sexta seus bombardeios no estreito território palestino, de 2,4 milhões de habitantes, apontaram testemunhas.

“Foi um dia difícil e muito violento na Cidade de Gaza. Até agora, cerca de 30 mártires foram levados ao hospital Al Ahli”, declarou o médico Fadel Naim, diretor do estabelecimento dessa localidade do norte da Faixa.

Testemunhas também reportaram bombardeios no centro do território e em Rafah, no sul.

Dos 1,4 milhão de pessoas que viviam em Rafah, a grande maioria deslocada pela guerra, mais de um milhão fugiram desde 7 de maio, quando começou a operação terrestre israelense na cidade, indicou a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Segundo essa agência da ONU, no dia 17 de maio restavam apenas 750 pessoas no centro urbano de Rafah, e entre 60 e 75 mil pessoas permaneciam na zona de Al Mawasi, a cerca de dez quilômetros da cidade fronteiriça com o Egito.

– A ‘existência’ de Israel –

O conselheiro de Segurança Nacional israelense, Tzachi Hanegbi, e o ministro israelense dos Assuntos Estratégicos, Ron Dermer, reuniram-se com o chefe da diplomacia americana, Antony Blinken.

Nesse encontro, Blinken “reiterou o compromisso inabalável dos Estados Unidos com a segurança de Israel”, segundo o seu porta-voz, Matthew Miller.

O secretário de Estado destacou, no entanto, “a importância de se evitar uma nova escalada no Líbano” por meio de uma “solução diplomática que permita às famílias israelenses e libanesas” deslocadas “retornarem às suas casas”, acrescentou.

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, disse na quinta-feira que Israel trava “uma guerra por sua existência” e precisa das armas dos Estados Unidos, seu aliado histórico.

“Nenhum outro país faz mais para ajudar Israel a se defender da ameaça do Hamas”, respondeu o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional, John Kirby.

Por sua vez, o chefe do Hezbollah, Hassan Nasrallah, alertou na quarta-feira que “nenhum lugar” em Israel estaria a salvo se o governo israelense abrisse uma frente na fronteira norte.

O comandante do Exército israelense, general Herzi Halevi, respondeu que seu país tem “capacidades infinitamente superiores” às do Hezbollah.

– ‘Nenhum impacto’ –

Depois de mais de oito meses de guerra, a situação na Faixa de Gaza é crítica e a população está à beira da fome, adverte a ONU.

A ajuda humanitária chega aos poucos e a “pausa” diária anunciada pelo Exército israelense nas operações no sul não tem “nenhum impacto” no encaminhamento dos suprimentos, disse nesta sexta-feira o doutor Richard Peeperkorn, funcionário da OMS para os territórios palestinos ocupados.

O Exército israelense anunciou na semana passada uma pausa nas operações “das 8h00 às 19h00 [das 2h00 às 13h00 no horário de Brasília] todos os dias e até novo aviso” na área de Kerem Shalom, uma passagem de fronteira no extremo sul de Gaza, até o hospital europeu de Rafah, mais ao norte.

A guerra eclodiu em 7 de outubro, quando milicianos do Hamas mataram 1.194 pessoas, a maioria civis, e sequestraram 251 no sul de Israel, segundo um balanço baseado em dados oficiais israelenses.

O Exército israelense estima que 116 pessoas permanecem em cativeiro em Gaza, 41 das quais teriam morrido.

Em retaliação, Israel lançou uma ofensiva contra o território que deixa, até ao momento, 37.431 mortos, também civis na maioria, segundo os últimos dados do Ministério da Saúde do governo do Hamas.

Nesta sexta-feira, o Exército israelense anunciou a morte de dois soldados em combate no centro de Gaza, elevando para mais de 310 o número de soldados mortos desde o início da operação terrestre, em 27 de outubro de 2023.

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