Entrevista

Rui Costa, Governador da Bahia

Bolsonaro usa o aparelho do estado para perseguir adversários

NILTON FUKUDA

Bolsonaro usa o aparelho do estado para perseguir adversários

Marcos Strecker
Edição 04/09/2020 - nº 2643

Eleito governador da Bahia em 2014, o economista Rui Costa se destaca na esquerda entre os que defendem uma aliança ampla para derrotar Jair Bolsonaro em 2022, mesmo que seu partido, o PT, não ocupe a cabeça de chapa. Com isso, contrariou algumas das principais lideranças petistas, como o ex-presidente Lula. No governo, destacou-se por reformas modernizantes e pela austeridade, o que criou atritos com os servidores. O investimento em parcerias público-privadas também confrontou bandeiras da esquerda, mas colocou a Bahia em segundo lugar entre os estados que mais investiram nos últimos três anos. Sua gestão garantiu a reeleição em 2018 com aprovação de 75,71%. Costa mantém boa relação com adversários, incluindo o prefeito de Salvador, ACM Neto, presidente do DEM. Nas eleições municipais, aposta em uma oficial da PM, mas nega que a escolha tenha a intenção de enfrentar a onda de nomes da área de segurança que surgiram com Bolsonaro.

O sr. defende uma frente ampla para derrotar o presidente Bolsonaro em 2022, inclusive com partidos que não são aliados do PT. Como seria essa união?
Como a eleição nacional é em dois turnos, cada conjunto de partidos poderá apresentar seu projeto. Não devemos esperar o segundo turno para conversar. Um programa que busque retomar a credibilidade do Brasil, com valores democráticos, compromisso com a imprensa livre, o Estado de Direito, garantindo justiça fiscal e aumento de renda e emprego. Não teríamos dificuldades de atrair muitos partidos, incluindo os de centro, para essas teses. Isso já é um grande salto em relação ao que temos hoje.

Isso inclui PSDB e PDT? O PT sempre mostrou muita resistência aos tucanos, e o candidato Ciro Gomes diz que não confia mais no PT.
Minha mãe dizia: Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura. Serei persistente nessa tese. Tenho absoluta certeza de que não estou sozinho. Outros governadores do PT, outras lideranças do partido concordam comigo. Inclusive do PDT. Não é com rancor e mágoa que vamos construir uma nação respeitada. Falta uma coalizão, um conjunto de forças políticas que coloquem o Brasil em primeiro lugar antes de suas vaidades pessoais. Em 2022 precisamos derrotar o ódio.

O PT tem esse desprendimento?
Logo após as eleições deste ano, precisamos intensificar o diálogo. Não precisamos afunilar para um nome somente em acordos de bastidores. Podemos ter quatro nomes, mas com um projeto mínimo. Um compromisso prévio de que, seja quem for legitimado nas urnas, possa receber o apoio dos outros para um governo de coalizão. Recebi várias ligações de governadores, prefeitos e deputados concordando com esse raciocínio.

O PT sempre resistiu a ter papel secundário, mas recentemente o ex-presidente Lula declarou que a legenda pode não ser cabeça de chapa em 2022. O sr. aprovou?
Queria parabenizar o presidente Lula, porque quem deseja receber apoio tem que se dispor a apoiar também. Esse é o entendimento. Se você senta com outras forças políticas para conversar, e quer cativá-las, precisa estar disposto a apoiar.

Mas são poucas as cidades em que o PT vai compor chapa nas eleições municipais deste ano. Em São Paulo, Jilmar Tatto está bem atrás nas pesquisas do candidato do PSOL, Guilherme Boulos, e não quer abrir mão da candidatura.
Haverá afunilamento em várias capitais para candidaturas que estejam mais encorpadas. Não se pode pulverizar tanto que não passe a ideia de ser algo consistente para a população. E nem precisa afunilar tanto que frustre a vontade de partidos ou de pessoas. É preciso encontrar um meio termo.

Em São Paulo, a presidente do PT, Gleise Hoffmann, sugeriu punição aos nomes históricos de PT que apoiaram o candidato do PSOL. O sr. concorda?
Não queria comentar casos específicos de outros estados para não me intrometer. Tenho minha opinião pessoal, que manifesto internamente no partido. Outros governadores também têm essa opinião. O que penso está um pouco expresso na formulação que fiz anteriormente. Precisamos dialogar mais. A sociedade precisa se sentir parte desse projeto. Se ficarmos reduzidos a projetos partidários ou pessoais não vamos ter a adesão da população.

Sua candidata em Salvador nas eleições municipais, a Major Denice Santiago, vem da Polícia Militar. A escolha tem a ver com esse momento de Bolsonaro no País, que atraiu novos nomes vindos da área de segurança?
Não tem a ver. Ela é uma mulher negra que nasceu na periferia da cidade. Achar que todo policial é violento e tem práticas ilegais é um preconceito que eu não alimento. Ela fez uma belíssimo trabalho como comandante da ronda Maria da Penha, que criamos aqui, para dar garantia às mulheres agredidas pelo marido. Isso tem tudo a ver com nossa história. Causa até controvérsia com esses bolsonaristas, que são militares e defendem a truculência e a violência. Ela é a negação disso.

O sr. tem alta popularidade na Bahia, inclusive em Salvador, assim como o prefeito ACM Neto, que preside um partido no campo político oposto, o DEM. Ao contrário do que acontece em outros Estados, vocês têm uma boa convivência. Sua candidata vai conseguir superar a alta popularidade dele, que apoia o vice, Buno Reis?
Essa é a coisa boa da democracia. Fico feliz que o povo baiano não legitime nem referende essa política de ódio do governo federal. O povo baiano quer gestão, um governo que cuide das pessoas e realize obras. Se os dois estão fazendo isso, são reconhecidos. Essa é a boa política. Nos países civilizados há rodízio nos governos, com alternativas de lideranças e partidos. Cada um tem que mostrar sua capacidade ao governar. É uma boa disputa, positiva.

O presidente Bolsonaro está investindo em inaugurações no Nordeste. Ele vai ocupar o espaço do PT?
Rezo para que ele venha mais. Mas, das próximas vezes, espero que traga investimentos novos, e não venha inaugurar obras que já tinham sido inauguradas. Foi o que aconteceu em Campo Alegre de Lourdes, em julho, obra que eu já tinha entregue em 2018, antes da eleição dele. Em outros estados ele também está inaugurando obras construídas por Lula e pela Dilma.

O Renda Brasil de Bolsonaro vai ser melhor do que o Bolsa Família?
Espero que seja. Defendo um programa de renda mínima, que seja uma política de Estado, e não de governo. Não importa o nome. Que seja permanente, sustentável, dentro do equilíbrio fiscal, com muita fiscalização. E que não faça mais parte da disputa entre candidatos no futuro. Que traga um impacto positivo na economia. O auxílio emergencial fez a venda em supermercados crescer na Bahia, assim como a venda de materiais de construção. Não acredito em aprisionar as pessoas pelo estômago e pela fome como uma forma de ganhar votos.

O sr. acha que vai durar a nova fase “paz e amor” do presidente?
Não acredito. Ele tem dado sucessivas manifestações de que a estratégia sempre foi se fortalecer pelo confronto, pela calúnia, pelas fake news, pela agressão. É a história política dele e da sua família, de se sustentar na base do conflito, do xingamento, da ofensa. É o estilo miliciano de ser. É a essência política deles e não mudará. Ao contrário, na medida em que se sintam mais fortes, a imprensa vai ser mais coagida. Hoje acontece no Brasil o que a imprensa relatava, de forma correta, em outras nações: o aparelho de Estado sendo usado para perseguir os adversários.

O presidente tenta responsabilizar os governadores e prefeitos pela crise da pandemia. Vai conseguir?
É uma missão impossível. O povo acompanhou. Ele é o grande responsável não só pelo grande número de mortes, de contaminados, mas também pelo impacto na economia. Outras nações conseguiram controlar em menos tempo. Controlando, há uma retomada mais rápida. Estamos há 180 dias nos arrastando com índices altos de óbitos, com o segundo lugar no mundo de contaminados. Se a gente tivesse tomado um remédio amargo por 30 dias, não precisava sofrer 180 dias.

O sr. defende a responsabilidade fiscal e o enxugamento da máquina pública. O teto de gastos é vital?
A imprensa e a própria lei se preocupam mais em fixar tetos do que em discutir a qualidade do gasto. Qualquer recurso mal empregado é muito ruim para a sociedade. Na Bahia criei um comitê para medir a qualidade dos gastos. Assim, conseguimos economizar R$ 5,6 bilhões em custeio. Mesmo tendo a vigésima arrecadação per capita, a Bahia conseguiu ficar em segundo lugar entre os estados com maior investimento, atrás apenas de São Paulo. Em saúde, somos o primeiro.

O sr. é a favor da reforma administrativa?
Sou a favor de uma reforma administrativa. A do Bolsonaro não conheço, pois não vi o texto. Acho que precisamos modernizar a forma de contratar servidores públicos. Não sou a favor de procurar modelos precários de remuneração, ao contrário. Precisamos olhar o modelo que as nações desenvolvidas usam. Modernizar as relações de trabalho no serviço público, valorizando a dedicação. Criei na área de segurança um prêmio de desempenho policial, com metas.

A defesa da modernização vai contra bandeiras tradicionais de esquerda, isso não causa problemas para o sr.?
Defendo as parcerias público-privadas. São uma forma de atrair investimentos privados e melhorar os serviços públicos. Há militantes que questionam, mas não é isso o que a esquerda defendeu? Saúde gratuita e de excelência? É o que os indicadores aqui mostram em unidades com essa gestão. Não podemos ter apego a ideologias que prejudiquem a população. Precisamos encontrar ferramentas para ir ao encontro do que sempre defendemos.

O sr. cogita ser o candidato do PT a presidente em 2022?
Quero ser um agente transformador. Não vou mudar minha filiação partidária. Quero debater com meu partido e outras legendas um projeto de nação, sem nenhum apego. As pessoas não devem colocar sua vaidade pessoal acima do projeto para o País. Quero contribuir.

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