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Bolsonaro, um nostálgico da ditadura que sonha com a presidência

Bolsonaro, um nostálgico da ditadura que sonha com a presidência

Jair Bolsonaro - AFP

Com declarações misóginas e homofóbicas e uma suposta nostalgia da ditadura militar, o deputado Jair Bolsonaro desponta como um dos candidatos favoritos na corrida presidencial.

Seus críticos o acusam de agravar a forte polarização do país. Mas seus defensores o consideram um salvador em meio à crise. Seu segundo nome é Messias e seus seguidores mais fervorosos o chamam de “mito”.

Um mito que este militar da reserva de 63 anos soube cultivar por meio de um uso sagaz das redes sociais e pelas aparições midiáticas salpicadas por frases provocadoras.

Bolsonaro não foi atingido pelas inúmeras denúncias de corrupção que atingiram o Brasil e gosta de colocar à prova sua popularidade nos aeroportos, onde costuma ser solicitado para fazer selfies.

“Bolsonaro é a luz no fim do túnel. É o único candidato que representa autenticamente o povo brasileiro para nos tirar da corrupção”, disse à AFP o publicitário Agnes Plocharski, de 47 anos, no aeroporto de Curitiba.

Nas últimas pesquisas, ele aparece com quase 20% das intenções de voto, saindo à frente no primeiro turno caso o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fique fora da disputa. As pesquisas, entretanto, não preveem sua vitória no segundo turno.

Bolsonaro é particularmente popular entre os jovens (26%) e na classe alta (34%) e de formação católica. Ultimamente tem buscado – e obtido – o apoio de líderes evangélicos, com um discurso contrário “à ideologia de gênero”.

“Orgulho-me em dizer que sou temente a Deus. Sou católico, mas casado com uma evangélica”, declarou em um encontro com pentecostais em abril.

No que se refere a economia, ele tenta conquistar os mercados desvinculando-se de seu antigo posicionamento a favor das estatizações. Para isso, nomeou como assessor Paulo Geudes, um economista reconhecidamente liberal, dando a entender que ele seria seu ministro da Fazenda caso chegue à presidência.

Na área da segurança, ele pouco teve que mudar em sua proposta para o combate à criminalidade: dar acesso ao porte de armas às pessoas de bem, como afirma em um vídeo publicado nas redes sociais.

– O desafio do segundo turno –

Com o clássico discurso da direita radical de que “tudo está podre”, Bolsonaro quer ser visto como um político diferente.

Ele frequentemente se compara a Donald Trump, embora, longe de ser um novato, Bolsonaro tenha uma longa carreira política e um assento na Câmara de Deputados desde 1991.

“Ele fala dos políticos como se não fosse parte desse mundo. Conseguiu passar uma imagem de homem forte, linha dura, que vai combater a corrupção”, avalia Michael Mohallem, professor de Direito da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Nascido em 1955 em Campinas, estado de São Paulo, em uma família de origem italiana, Bolsonaro construiu uma carreira principalmente no Rio de Janeiro, onde foi vereador em 1988 e obteve seu primeiro cargo como deputado federal três anos depois.

Como parlamentar, se destacou mais pela retórica inflamada do que pelos projetos de lei que conseguiu aprovar: dois em 27 anos.

– Misoginia e homofobia –

Em 2014, Bolsonaro disse à deputada do Partido dos Trabalhadores Maria do Rosário, que o acusava de incentivar estupros, que ela “no merecia ser estuprada”; e ao jornal Zero Hora, do Rio Grande do Sul, reafirmou que “ela não merece [ser estuprada] porque é muito ruim, porque é muito feia, não faz meu gênero, jamais a estupraria”.

Dois anos depois, elogiou o torturador da ditadura coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra.

As declarações homofóbicas também causaram polêmica. Em uma entrevista à revista Playboy, em 2011, disse que preferia que seus filhos “morressem em um acidente” do que se tornassem homossexuais.

Embora suas ambições presidenciais tenham o levado a suavizar seu discurso nos últimos meses, uma aliança com os partidos tradicionais em um possível segundo turno parece pouco provável.

“Como o eleitorado está muito fragmentado, com nenhum candidato de grande destaque nas pesquisas, não sabemos se ele poderá conseguir os votos dos perdedores do primeiro turno. Ele não é um candidato unificador”, disse Michael Mohallem.